Viva ao Teatro Brasileiro: Mercedes

agosto 28, 2015 / Francisco Soares Chagas Neto /



Existem, muitas discussões em relação ao que é arte, uma delas ressalta que a arte precisa te incomodar de alguma maneira, e Mercedes, peça de teatro escrita por Paulo Vieira, incomoda e incomoda muito. A peça retrata a vida de uma militante de um partido revolucionário que se casou com um deputado ex-militante apaixonado, pelo carro Mercedes e eles tiveram uma filha, que deram o nome de Mercedes, e todas essas Mercedes se entrelaçam entre o passado e futuro, tendo como pano de fundo a Ditadura Militar.

Mercedes:
MERCEDES, nome e fantasia de uma militante do Partido Revolucionário do Brasil. Uma mulher que entregou mais do que sua vida à luta armada, e descobriu na própria pele que poderia lutar contra tudo, menos contra o tempo que é senhor de todas as coisas.
MERCEDES fala de tempo e de vidas humanas que vão se traçando e entrelaçando. Em uma teia cênica que envolve os anos de chumbo, como escreveu Chico Buarque "Um tempo, página infeliz da nossa história, Passagem desbotada na memória das nossas novas gerações".

A peça inicia-se numa confusão que leva ao expectador pensar nos primeiros minutos, o que está acontecendo? Até que finalmente conseguimos imergir nesse mundo criado por Paulo Vieira, onde ele traz à tona o impacto da Ditadura nas decisões humanas, de decidir entre participar de um movimento revolucionário ou deixar tudo como está, continuar como um político honesto, ou se corromper ao sistema, ser mãe, ou fugir, e assim percebemos que esse tempo, na verdade, teve mais influência em nossa sociedade do que achamos.



A Personagem de Mercedes é uma personagem forte, idealista, mas que age por um impulso que nos leva a questionar até que ponto devemos ser radicais? O deputado, a qual Mercedes teve um relacionamento, que foi visto como a “moral que sobra em nosso país” é o reflexo do que muitos desses políticos de esquerda se tornaram, que apoiavam as grandes causas, entre elas a de ter uma Mercedes na sua garagem de casa. Talvez assistir a essa apresentação a gente consiga entender como grandes “lutadores” das causas sociais, se tornaram a “vergonha” da nação.

Além disso, temos a ex-empregada doméstica que virou professora de Ensino Infantil. Ela é uma espécie de voz do povo daquele momento, reflexo do que as pessoas acreditavam do que era a Ditadura. Muitas vezes ela também funciona como a consciência humanística e traz à tona os desígnios religiosos, no qual até que ponto vale a pena lutar por uma causa, levando-se em consideração a vida de outras pessoas que foi deixada para trás.

Somando-se a tudo isso, temos a figura do presente, Mercedes aluna do curso de Sociologia que ganha uma herança misteriosamente e que leva-se em discussão o impacto de nossas ações e decisões na vida de outras pessoas. E a peça segue mesclando o passado e presente, mostrando que o tempo é um processo abstrato que depende muito da figura do ser humano que o define, de acordo com que lhe convém. Em alguns momentos as falas se tornam simultâneas, duas cenas ocorrem ao mesmo tempo, colocando o expectador no meio dessa confusão, para que ele possa definir, que tempo ele quer seguir, qual o ponto de vista é mais importante para entender o sentido da peça.



Dessa forma, a peça termina, depois de lembrar momentos marcantes da Ditadura, como o movimento hippie brasileiro, a prisão e o impacto delas na cabeça das pessoas, entre outros acontecimentos importantes de nossa sociedade brasileira nesse período chegando-se a grande reflexão. A gente se arrepende de algo que fez? Que não fez? O que fizemos? O que somos? O que seremos? Lembra-nos que acima de tudo somos seres humanos passíveis de sermos seres humanos. Como falei, Mercedes incomodou muito, Mercedes é arte.

Ficha Técnica
Companhia: Galharufas Companhia de Teatro
Texto e Direção: Paulo Vieira
Assist. direção: Suzy Lopes
Elenco: Suzy Lopes, Nyka Barros, Jorge Felix, Raquel Ferreira, Luã Brito
Preparação corporal: Nyka Barros
Preparação vocal: Jorge Felix e Luã Brito
Trilha sonora: Didier Guigue
Execução musical: Luã Brito
Iluminação: Fabiano Diniz
Cenografia: Eliézer Rolim
Figurino: Ângela Lopes
Caracterização e adereços: Suzy Lopes
Arte: Márcio Miranda
Assessoria de imprensa/Produção: Suzy Lopes
Fotógrafo: Wênio Pinheiro

Fotos: 17.festivaldoteatrobrasileiro.com.br

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