Resenha: Golem & o Gênio - Helene Wecker

novembro 30, 2015 / Redação SOODA /


Golem e o Gênio (Golem and the Jinni)
Helene Wecker
Editora: Darkside Books
Ano: 2015
05 Estrelas

Os confrontos e as barreiras vividas por duas culturas tão próximas, ainda que aparentemente opostas. Em GOLEM E O GÊNIO, premiado romance fantástico que a DarkSide® Books traz ao Brasil em 2015, o leitor se transporta à Nova York da virada do século XX, em uma viagem fascinante através das culturas árabe e judaica. Seus guias serão poderosos seres mitológicos.
Chava é uma golem, criatura feita de barro, trazida à vida por um estranho rabino envolvido com os estudos alquímicos da Cabala. Ahmad é um gênio, ser feito de fogo, nascido no deserto sírio, preso em uma antiga garrafa de cobre por um beduíno, séculos atrás.
Atraídos pelo destino à parte mais pobre de uma Manhattan construída por imigrantes, Ahmad e Chava se tornam improváveis amigos e companheiros de alma, desafiando suas naturezas opostas. Até a noite em que um terrível incidente os separa. Mas uma poderosa ameaça vai reuni-los novamente, colocando em risco suas existências e obrigando-os a fazer uma escolha definitiva.
O romance de estreia de Helene Wecker reúne mitologia popular, ficção histórica e fábula mágica, entrelaçando as culturas árabe e judaica com uma narrativa inventiva e inesquecível, escrita de maneira primorosa.
HELENE WECKER Cresceu em Libertyville, Illinois, uma pequena cidade ao norte de Chicago. Graduou-se em Inglês pela Carleton College, em Minnesota. Trabalhou com marketing e comunicação e Minneapolis e Seattle antes de se dedicar à ficção, sua primeira paixão. Em seguida, mudou-se para Nova York, onde cursou o mestrado em Ficção na Columbia University. Vive em São Francisco com o marido e a filha. Golem e o Gênio é o seu premiado romance de estreia.

RESENHA: Sabe aquele momento que você termina uma história e percebe que aprendeu tanto com ela? Após terminar Golem & o Gênio tive esse sentimento, que a história me ensinou tantas coisas que não tenho nem como dimensionar em palavras. Ai, você se pergunta, mas como assim? Como uma história de fantasia pode lhe ensinar tanto? Bobinho (a) você não sabe o quanto! Vamos a resenha.

Golem & o Gênio – Uma Fábula Eterna, conta a história de dois seres mitológicos, o Golem da cultura judaica e o Gênio da cultura árabe, que tem natureza, relativamente distintas, mas ao se encontrarem numa Nova York do século XIX, eles podem se completar para seguir com a sua sobrevivência, seus males e desejos, nos levando por uma incrível viagem no tempo, por meio dessas duas figuras fantásticas, mostrando que podemos aprender muito com uma história de Fantasia. Antes de a gente continuar a explicitar o enredo da história é interessante que a gente conheça um pouco dessas figuras mitológicas.

GOLEM:

“Uma pessoa feita de barro (...) Um escravo corpulento e irracional. Golens são feitos para proteção e força bruta (...)” (p.15) Essa foi uma das primeiras descrições feitas acerca do que seria uma Golem, mas de fato o que é uma Golem? O que eles fazem? Quais poderes possuem?

Imagem de um Golem
Licença Creative Commons
Se a gente for pensar um pouquinho longe, segundo teoria bíblica do ser humano? Adão foi feito de que? De barro né. Então quer dizer que somos Golens? Em seu cerne talvez, mas a questão que centra essa discussão da criação do Golem vem desde a teoria criacionista da Bíblia. Porém a primeira narrativa clássica advém do século XVI, onde dizem que um Rabino fez um Golem para defender o seu povo, inclusive essa narrativa essa citada no livro. (Interessante, não!)

Enfim, segundo a mitologia o Golem foi criado a partir da Argila, e um escrito foi colocado em sua testa para que ele pudesse ter vida, da mesma forma que um outro escrito poderá ser colocado em sua testa para finaliza-lo. O mais interessante é que ao pesquisar sobre isso, percebi que a autora colocou muitos traços dessa mitologia em seu livro, o que significa ressaltar o cuidado que ela teve em construir o seu livro. Porém, existe algumas coisas que considero mais interessante na construção da autora. A maneira como a Golem se desenvolve, se você perceber a Golem do início do livro é uma e  no final é outra (minha personagem preferida) e ela tem um poder interessante, além da sua força sobre humana, ela pode sentir os desejos e medos de todos, é um pouco diferente de ler o pensamento, mas o resultado final, acaba em resultados semelhantes.

GÊNIO:

“ (...) uma raça muito diversa, com formas e habilidades variadas (...) mas sua verdadeira natureza ainda seria a de um djim, criatura de fogo da mesma maneira que os humanos são considerados criaturas da terra (...) (p. 36)

Figura de um Gênio na Cultura Árabe
Google Imagens
A autora, considera os Gênios como criatura de fogo, porém vale ressaltar que os Djins são criaturas sobrenaturais da cultura mulçumana, que podem ser, de fogo, terra, água e ar (sim, os quatro elementos naturais). De acordo com a mitologia, eles podem ser tanto criaturas boas ou ruins (então tirem da mente aquele gênio bonzinho do Alladim, apesar de ter visto algumas características dele do Djin de Helene). Os gênios foram criados, entre a criação dos homens e dos anjos. Inclusive no Alcorão é colocado que os homens são criados do barro e os gênios das chamas de fogo (por isso ela coloca a natureza dele relacionada ao Fogo).

Enfim, os Djins possuem muitos poderes, porém eles podem ser capturados e dominados e assim deverão seguir a seus mestres (por isso a ideia dos gênios concedendo desejos), e na história de Helene, isso fica bem claro, inclusive o Gênio não possui quase nenhum de seus poderes (a exceção a sua manipulação do fogo), por ser aprisionado por seu mestre (que ele ainda não sabe quem é no início da história).

ENREDO e PERSONAGENS

Então voltando ao enredo, depois desse adeno que achei importante colocar. A história se inicia, em um homem solicitando ao rabino Yehudah Schaalman (Guardem esse nome para vocês por toda vida), para construir uma Golem. Então, o rabino a constrói, de acordo com as características solicitadas. Nesse sentido o homem leva a Golem até Nova York, porém ele acaba morrendo deixando a Golem sozinha. Ela chega muito assustada, vendo tudo novo, e depois de uma situação extremamente complicada, ela encontra um outro Rabino, que na verdade não será o seu mestre, mas seu Guardião.



Já o Gênio, aparece dentro de uma garrafa, que foi trazida por Maryam a um Latoeiro da cidade, para consertar, porém ao esfregar a garrafa, ele acaba por soltar o Gênio, que estava a muito tempo lá, após esse encontro pra lá de bizarro, o Latoeiro o torna aprendiz de sua oficina e a ajuda a viver na cidade de Nova York.

É interessante perceber o encontro entre essas figuras e a cidade de Nova York do século XIX, que é totalmente diferente para eles. Para Golem porque não tinha referência nenhuma e para o Gênio, pois sua referência era baseada no deserto que ele vivera antes de ser aprisionado na garrafa e de repente ser solto em Nova York, tudo tão novo, que causa uma relação de fascínio e medo. Amei a sacada da autora de colocar personagens que são uma espécie de mentores nesse novo mundo que agora eles estão, onde nesses momentos de descobertas eles precisam saber lidar com seus poderes e com situações inusitadas até então.

Por falar em Nova York, em muitos momentos me senti passeando por suas ruas, distritos, comunidades, principalmente a da Low East Side (tem uma fotografia no final do livro) e a comunidade da Pequena Siria (Fotografias no início do livro), sendo os bairros onde a Golem e o Gênio foram parar, respectivamente. Sem contar os momentos em que eles aparecem no Central Park, e no Arco (Capa do livro). Com certeza era a Nova York do século XIX. Segundo, li em algumas entrevistas, a autora realizou muitas pesquisas na Biblioteca Pública de Nova York, onde podemos ver esse resultado em seu maravilhoso livro. Se eu fosse professor de História Americana, com certeza usaria de seu livro para ilustrar minhas aulas, principalmente se tratando da relação da imigração, e contexto histórico construído. Aliás, nos dias de hoje com tanta intolerância à cultura oriental, nada mais justo que uma história como essa, mostrando o sofrimento desse povo para se estabelecer na América.

Comunidade de Pequena Siria - Final do Século XIX
Imagem do The New York Times (Presente no Livro)
Imagem de Nova York do Século XIX (Observem o Central Park próximo aos Prédios)
Licença Creative Commons
Lower East Side - Inicio do Século XX (Observem a profusão de pessoas, indicando que a imigração para os USA não eram tranquilas como se imaginava, o livro ainda indica muito em relação a isso)
Licença Creative Commons

Sim, o final do século XIX o “sonho americano” começava a se estabelecer e a imigração nesse período foi muito forte. Porém pouco conhecemos desse processo de estabelecimento dos imigrantes nos USA. E a autora com uma primazia extraordinária coloca, essa questão em seus personagens secundários, contando suas histórias. É muito interessante, ela colocar em parte de seus capítulos, especialmente no início para destrinchar a história de vários personagens, como eles vivem nos Estados Unidos, como eles chegaram até lá. É difícil não considerar que as histórias que ela colocou, apesar de serem fictícias, mas tem um aprofundamento real de como era a situação dos imigrantes naquele período, porque foram? Como vivem? Sem palavras para isso. Algumas pessoas utilizam isso como uma crítica, justificando que o livro acaba estando em um ritmo mais lento. Talvez, se for pensar no ponto de vista da ação, mas do enriquecimento cultural, com certeza não.



A GOLEM E O GÊNIO

Vocês devem ser perguntar e os protagonistas? Claro eles são o tcham da história, sem eles, nada disso faria sentido:

‘ “Você o Matou? ” (disse o gênio)
“Não!” Ela se voltou chocada. “Ele estava doente! Eu nunca teria feito algo assim !”
“Não quis ofender”, ele disse. “Você o Chamou de Mestre. Presumi que ele tivesse obrigado você a ser sua serva.”(...)
“também tive um mestre”, disse o Djim. “Um mago. Eu teria ficado feliz em mata-lo”. Ele franziu o rosto (...)’ (p.224)

No dialogo acima, podemos perceber o quanto eles são diferentes, em muito, podemos dizer opostos. Enquanto o Gênio, passava boa parte da vida dele pensando na liberdade, em ser livre, em se livrar dessa escravidão, a Golem, tem um sentimento contrário, de que precisava de um mestre, um mentor que pudesse direciona-la, afinal ela pouco sabia sobre a vida.



Nesse processo, é possível perceber que o encontro deles foi importante para a sua troca de experiências, em como deveria existir um meio termo entre a liberdade total, e a total escravidão, e eles passaram, inclusive por muitas brigas (homéricas, diga-se de passagem) para tentarem encontrar esse meio termo.

Então é interessante considerar esse aprendizado que eles desenvolveram durante todo o período em que se encontravam. Ai, você deve se perguntar, onde está a fantasia nesse livro? Está presente do início ao fim. Desde que a Golem foi criada, o Gênio apareceu em Nova York, como eles precisavam se adaptar a cidade, formas de sair de situações complicadas, como deveriam conviver com o dia-a-dia, e claro um final de tirar o fôlego, onde você percebe que a história foi tão bem construída, que ela não poderia se direcionar para outro pano. Aliás, um detalhe interessante é que o passado do Gênio vem sendo contada, em alguns capítulos, até próximo do clímax do livro.

A ESCRITA E A EDIÇÃO

A escrita da Helene Wecker é muito bonita, é bem delicada, mas ao mesmo tempo forte. Ela sabe te conduzir na leitura, e não tem pena de escrever cenas mais fortes quando necessárias (confesso que cheguei a julgar em alguns momentos isso, mas quando chegou o momento certo, apenas deixei ser levado por suas palavras, com destino ao final do livro).



E claro, o que dizer da edição da Darkside Books, (Meu Deus). Primeiro, o livro tem uma capa muito linda, bem melhor do que a capa original (Desculpa Haper Collins, hahahaha), com as fontes, e cores bem cuidadas, a lombada e contracapa não ficam atrás, os detalhes em dourado dão um toque refinado.





As fotografias contidas no livro são belíssimas (adoro fotografias antigas), álias como uma das minhas funções no Museu que trabalho é analise de fotografias, adoro fazer isso, tentar ver o período histórico, o modo de vida, roupas e que história ela pode nos trazer, é um trabalho fabuloso fazer isso, tentem fazer isso (comecem fazendo por fotografias dos seus avôs, vêem que roupas usavam, como se portavam, pergunte ao seu avô o que faziam naquele momento. Vão ver o quanto essa experiência é prazerosa).

Claro a fonte, o espaçamento e o tamanho da letra são perfeitos, porém em alguns momentos tiveram falhas na divisão do capitulo (dentro do capitulo existiam algumas divisões, como se fossem cenas e alguns momentos foram esquecidos de colocar essa divisão, o que não atrapalhou em nada a história).

Fico com medo de não conseguir preservar esse livro (buááaaááá), vou tentar aplicar algumas técnicas que eu conheço, para adiar o seu desgaste, hehehehe, por falar nisso, em breve devo fazer um post sobre isso, para ajudar a preservar os seus livros, principalmente os mais bonitos, hahahah.



No mais, “A Golem & o Gênio é um passeio por uma época com um toque original de fantasia oriental”. Vale cada minuto a sua leitura, 5 Estrelas e favoritado, como um dos melhores do ano.





Goodreads: 4,1 Estrelas
Skoob: 4,5 Estrelas

E não percam soodinhas, dia 06/12 vamos falar dele na retrospectiva literária 2015. Confirme sua participação no evento AQUI.

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