Resenha e Discussão: 1984 - George Orwell (Distopias: Entre o clássico e os dias atuais)

janeiro 29, 2016 / Redação SOODA /

A leitura desta obra atemporal resultou em vários questionamentos. É o que vamos tratar hoje neste post.


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resenha 1984 george orwell, discussao 1984 george orwell 1984 (1984)
Autor: George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Skoob: 4,6 estrelas / Goodreads: 4,1 Estrelas
05 Estrelas

Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho.
Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico.
De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O'Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que "só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro".
Quando foi publicada em 1949, poucos meses antes da morte do autor, essa assustadora distopia datada de forma arbitrária num futuro perigosamente próximo logo experimentaria um imenso sucesso de público. Seus principais ingredientes - um homem sozinho desafiando uma tremenda ditadura; sexo furtivo e libertador; horrores letais - atraíram leitores de todas as idades, à esquerda e à direita do espectro político, com maior ou menor grau de instrução. À parte isso, a escrita translúcida de George Orwell, os personagens fortes, traçados a carvão por um vigoroso desenhista de personalidades, a trama seca e crua e o tom de sátira sombria garantiram a entrada precoce de 1984 no restrito panteão dos grandes clássicos modernos.
Algumas das ideias centrais do livro dão muito o que pensar até hoje, como a contraditória Novafala imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade. Afinal, quem não conhece hoje em dia "ministérios da defesa" dedicados a promover ataques bélicos a outros países, da mesma forma que, no livro de Orwell, o "Ministério do Amor" é o local onde Winston será submetido às mais bárbaras torturas nas mãos de seu suposto amigo O'Brien.
Muitos leram 1984 como uma crítica devastadora aos belicosos totalitarismos nazifascistas da Europa, de cujos terríveis crimes o mundo ainda tentava se recuperar quando o livro veio a lume. Nos Estados Unidos, foi visto como uma fantasia de horror quase cômico voltada contra o comunismo da hoje extinta União Soviética, então sob o comando de Stálin e seu Partido único e inquestionável. No entanto, superando todas as conjunturas históricas - e até mesmo a data futurista do título -, a obra magistral de George Orwell ainda se impõe como uma poderosa reflexão ficcional sobre os excessos delirantes, mas perfeitamente possíveis, de qualquer forma de poder incontestado, seja onde for.

Autor: George Orwell nasceu em 1903, era autor, adepto do socialismo democrático e suas obras criticavam incessantemente o fascismo, imperialismo e comunismo. Suas obras mais conhecidas são Revoluções do Bichos, que apresenta um critica direta ao socialismo soviético e 1984, distopia clássica, precursora e inspiradora de atuais livros do gênero como Jogos Vorazes. O autor era indiano, filho de ingleses e morreu, quase um ano após a publicação de 1984.

Resenha: Então, finalmente li um daqueles livros, que como fã assumido de distopias, não devemos deixar de ler, afinal, ele junto com outros clássicos, como Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica e fahrenheit 451 são bases e/ou inspirações para muitas distopias atuais. Dessa forma, para entender esse mundo distópico é importante caminhar por essas obras, para assim compreender como funciona a literatura distópica e porque ela é tão querida nos dias de hoje e porque se proliferou tanto nesse inicio do século XXI.

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Antes de encabeçar de vez na resenha, é bom entender o que de fato é um distopia. A modo simplório, distopia parte do principio do antagonismo da utopia. Ou seja, enquanto a utopia idealiza um futuro perfeito, de braços dados com a luz, o qual a gente nunca vai chegar, mas sempre deve sonhar. A distopia é o inverso, ela caracteriza um mundo totalmente obscuro, fora dos padrões da perfeição onde existe a predominância do mal. É interessante perceber que essas distopias nasceram, principalmente após a primeira guerra mundial, período entre guerras e pós segunda guerra mundial. De acordo com o texto de Ana Laura Neumann et. al. (Acesse aqui) essas distopias surgem na mente dos autores, devido a vivência deles, nesse períodos de grande tensão humana, e por isso criam uma sociedade, altamente manipulada (devido a influências ao nazismo, fascismo, comunismo), além da falta de recursos naturais, e uma vida que chega longe de uma liberdade (Que interessante !!).

Nesse contexto, surge a obra 1984, do autor George Orwell, lançada originalmente em 1949, alguns meses antes de sua morte. O livro tem como enredo uma sociedade totalitarista, comandada pela figura do Grande Irmão, o núcleo do partido, que controlava toda a sociedade, tal como a sabedoria, felicidade e virtude. Além disso, existia os chamado Partido Exterior, as quais eram as pessoas que trabalhavam para o Partido, a exemplo de Wintson, protagonista da história, que trabalhava no Ministério da Verdade,e na parte mais baixa da sociedade, existiam os Proletas, pessoas que trabalhavam com atividades braçais, que eram mais livre, porém como muitos dessa classe eram ignorantes, não apresentavam ameaça a essa estratificação, Abaixo você pode ver a divisão social criada por Orwell:

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Nessa sociedade, o controle social se dá principalmente pelas Teletelas, equipamentos instalados, nas residências dos integrantes do partido e nas ruas, que tinham por função monitorar todas as atividades dessas pessoas, e a qualquer resquício da pratica do crime-pensamento, as pessoas poderiam receber a visita da policia das ideias, e provavelmente pagar com a vida. Além disso, o governo passa nas teletelas tudo que colabora para o controle social, então as pessoas só podem ver e seguir aquilo que é ordenado pelo governo nesses aparelhinhos, no qual, chegamos a conclusão, que de fato a vida, não pertence aos cidadãos dessa sociedade e sim ao "Grande Irmão", que deveria ser amado por todos os membros do Partido.

Além disso, existia uma organização política simplória, formada por apenas 4 ministérios; da verdade, do amor, da pujança e da paz, ao qual fazia o controle, da relação de paz e guerra, das praticas de tortura para aqueles que resistiam ao controle social, controle dos alimentos e outros produtos dos quais os seres humanos precisavam para sobreviver, e do passado, afinal só era lembrado aquilo que fosse interessante para o governo. Abaixo, também fizemos um pequeno quadro com a divisão de atividades de cada ministério:

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Organização do Governo | Adaptação do blog

Aliás, como falamos anteriormente existia um ministério da paz, que cuidava dos assuntos de guerra, isso porque não existia mais o formato de países como conhecemos hoje, o mundo era dividido em três grandes blocos, Oceânia (onde ocorre a história), Eurásia e Lestásia, que se formaram, depois de varias guerras para a conquista de território. Na história esses países vivem em constante estado de guerra, o que é impressionante e interessante, partindo da motivação para que ocorra essas guerras, o autor consegue nos convencer e muito com essa história. Abaixo, vocês podem ver como ficou a divisão do nosso mundo, nesses três territórios:

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Nessa história, somos apresentados ao Wintson, um membro do partido que trabalha no Ministério da Verdade, trabalhando num setor, no qual ele tem por função a mudança da história nos jornais, revistas, livros, sempre para os interesses do Partido. O protagonista, consegue compreender que essa sociedade está errada, mas teme por isso, porque está realizando o chamado "crime-pensamento", que pode se descoberto e pagar com a vida. É perceptível perceber o crescimento de suas atitudes ao longo da história, como uma linha de pensamento dele pode levar a resistência dessa sociedade. O que é bem explorado pelo autor. Afinal, nessa sociedade não deve haver pensamento, o "Grande Irmão" deve ser amado, seguido, e deve-se fazer todas as atividades, das quais o Partido determina, o contrário disso, a pessoa se torna um criminoso, e sofrerá com isso.

No inicio da história você não consegue entender muito bem o rumo dessa sociedade, mas depois que você pega o ritmo não quer mais largar. A escrita de George Orwell é viciante, e para a época em que o livro foi construído é até simples de se entender, apesar de eu achar que para a leitura desse livro, é importante ter um conhecimento básico do que seria a formação de uma sociedade, poder, Estado, socialismo e capitalismo, porque assim a pessoa poderá compreender e ter uma sintonia com as criticas em relação a obra.

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Com certeza ler 1984 é abrir seus horizontes em relação às distopias, como elas foram criadas, suas necessidades, intenções. E após a leitura desse clássico, vai ser cada vez mais difícil não amar a criação dos autores dessas sociedades às avessas, que funcionam como um alerta vermelho máximo, acerca do nosso mundo e dos caminhos que devemos percorrer.

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1984 X Distopias Atuais

Ai você pensa, mas já acabou Jéssica? Claro que não, agora que o fight vai rolar. Tatiana Feltrin, uma Youtuber brasileira (na qual, eu amo muito seus videos), fez um vídeo, após a leitura da Trilogia Divergente (o qual você poderá ver abaixo), que questiona as distopias juvenis atuais, o que por sinal é muito interessante, e o medo dos jovens de ler alguns clássicos, assistam o vídeo, e depois vamos aos comentários:


O Vídeo é bem interessante e traz uns questionamentos bem legais a esse tópico das atuais distopias não é verdade? gosto muito da Tatiana, que acaba trazendo esses temas para discussão, e possui resenhas bem sinceras em relação aos livros, o que é bem legal, vistas que as vezes vemos muitas resenhas tendenciosas, por vários motivos, mas que enfim, essa não é a questão agora, o ponto é em relação ao contraponto entre as distopias atuais e clássicas.

Tatiana questionou sobre os motivos de existirem as trilogias nos dias de hoje e porque elas são lidas, ao invés de lerem as obras clássicas:

Eu considero que cada obra, foi construída e possui uma carga relacionada ao contexto histórico que não deve ser descartada. 1984 por exemplo, foi escrito, no final da década de 1940, pós-segunda guerra mundial, em meio a Guerra Fria, onde existia um medo gigantesco em relação aos países europeus da perpetuação do socialismo soviético, o qual é abertamente criticado na obra. Existia um sentimento de desesperança, até porque Orwell acreditava no socialismo democrático, e sentia que esse não era o caminho que vinha sendo seguido e isso é perceptível em sua obra, então sua história possui uma carga política muito forte, e que se a pessoa perder as referências disso (não possuindo um conhecimento básico), ela acaba se desinteressando pela obra.

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Já as obras atuais, principalmente as juvenis tratam de problemas que afligem a nossa sociedade nos dias de hoje, a exemplo de obras que li recentemente, Fúria Vermelha e Uma Chama Entre as Cinzas, que abordam as crises de valores humanos incrustadas em nossa sociedade nos dias de hoje, em Fúria Vermelha a sociedade é dominada pelos Ouros e dividida em castas, nela o poder, influenciado principalmente pela dominação de força aplicada pelos Ouros ocorreu, pois a nossa sociedade não soube utilizar a tecnologia para coisas úteis, e sim para coisas voláteis o que causou fraqueza e destruição do planeta, e assim surge os Ouros, da fraqueza dos humanos. Em Uma Chama entre as Cinzas também houve uma situação semelhante, porém com uma ajuda mágica, a dominação do Império Marcial se deu por causa de suas armas, que foram feitas, com ajuda mágica para assim derrotar a sociedade que estava em voga na época. Nesse contexto ainda coloca mais uma obra, que apesar de não ser juvenil é uma distopia interessante, Submissão, onde em 2022 o presidente francês eleito é da fraternidade mulçumana que passa a realizar suas mudanças sociais a partir da religião. As três obras apresentam elementos em comum com 1984, sendo uma distopia, porém são atualizadas ao contexto atual, entendendo que a literatura é adequada as mudanças sócio-culturais. E nesse caso, da mesma forma que o mercado influencia a população, as pessoas influenciam o mercado, então boa parte das temáticas existentes nessas distopias são reflexos de nossa sociedade atual.

Tatiana questiona, como o mercado influencia os jovens a adquirir produtos sem necessidade, a exemplo do livro Quatro da série Divergente:

Nos dias de hoje existe um fetichismo muito grande em relação as séries de sucesso, um grande exemplo disso é que uma das marcas mais valiosas nos dias de hoje é Star Wars que inclusive levantou a bolsa de valores dos USA (to impressionado até agora) na semana de sua estreia, então Divergente, que tem sido bem sucedida, perpassa por esse processo, tal como Grey e Vida e Morte, também é uma espécie de mais do mesmo. Isso é um problema que detectamos, e acho muito válido sermos alertados sobre isso a todo momento, para que sejamos cuidadoso com isso, porém uma hora ou outra, vamos cair nesse fetichismo, porque ele é uma imposição dos dias atuais, e até mesmo aqueles que se dizem contra fazem parte disso, pois são a resistência necessária para ele se manter. nunca esqueço de uma conversa no filme "O Diabo Veste Prada" quando a Miranda explica para Andrea que sempre estaremos no mundo da moda, mesmo quando dizemos que não nos importamos, e sempre usaremos algo que foi escolhido por alguém um dia.

1984 Tem um leitura difícil em relação as distopias atuais?

Não, 1984 não é um livro difícil e concordo com a Tatiana, as distopias atuais são mais atraentes, porém vale ressaltar que eu acho que ler 1984 sem algumas referências básicas, não trará a experiência literária completa, é mais ou menos, você querer entender a segunda guerra sem saber nada sobre o nazismo, você vai entender a história, mas talvez não compreenda a mensagem e o sentido por trás do enredo, então é interessante ler 1984, se for o caso, buscar um professor, ou pais que possam te explicar alguns conceitos, ou até mesmo na internet, para que assim capte a grandiosidade da obra.

Já as distopias atuais, você não tem a mesma dificuldade, você pode captar a ideia mais rápido, isso é interessante, eu as considero como uma introdução acerca de distopias, para entender, o que não significa que você não precisa pesquisar depois de ler o livro também, por exemplo a autora de Jogos Vorazes colocou o nome do país de Panem em sua história propositalmente, pois esse nome no Latim, significa pão e circo, o que nos leva a refletir que talvez as referências dessas obras tenham ido mais longe do que imaginamos, tendo em vista que os Jogos Vorazes tem tudo a haver com essa politica aplicada pelos romanos. em Fúria Vermelha também existem inúmeras discussões acerca das guerras em roma e grécia, poder, que também não é tão simples de entender.

Tatiana diz para ler criticamente a obra e não engolir goela abaixo qualquer coisa

Concordo com todas as minhas forças do âmago, sim leia criticamente essas obras, afinal são a partir das criticas que nós seres humanos podemos crescer, e qualquer leitura contribui para esse crescimento, erros gravíssimos, de enredo, continuidade são encontradas constantemente nessas obras, e elas devem ser analisadas nesse ponto, mas não devem ser desmerecidas pela sua tentativa de chegar ao seu objetivo, que é congruente com os objetivos das distopias, te fazer parar pra pensar no mundo de hoje, e como podemos muda-los. Mas também leia criticamente 1984, é um ótimo exercício, na obra existem alguns probleminhas, inclusive na edição da Companhia das Letras eles são amplamente discutidos nos posfácios. E nunca se esqueçam de um detalhe, a literatura foi escrita em determinado período histórico, ela deve ser discutida a partir daquele contexto, porque as vezes retirada de contexto a obra perde parte daquilo que ela se propõe a passar, elas podem ser deslocadas de um momento para o outro, sim, mas não significa que ela dará conta de abarcar tudo. E uma opinião/dica: não acho que devemos encarar as distopias como uma previsão futurística e sim, um momento presente distorcido. Foi assim com 1984, é assim com as obras atuais.

É isso Soodinhas, a discussão não se esgota aqui, existem muitos desdobramentos que podem ser feitos, mas isso é com vocês. Espero que tenham gostado dessa resenha/discussão, comentem o que acharam, estamos planejando mais disso pro futuro!!

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