Resenha: Garota Dinamarquesa - David Ebershoff

fevereiro 21, 2016 / Redação SOODA /


Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
David Ebershoff
Editora: Fábrica 231 (Editora Rocco)
Ano: 2016
Indicações: Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino
05 Estrelas

Inspirado em uma história real, este romance inquietante, narrado com elegância e sutileza únicas, apresenta uma trama ousada que transcende os limites de sexo, gênero e localização histórica. A prosa rica e o discurso emocionado transformam esta obra numa história de amor poderosa, que marcará para sempre a vida do leitor.


Autor: David Eberhoff é americano, editor de uma importante editora nos USA, publicou A Garota Dinamarquesa em 2000. Ganhou alguns prêmios e hoje é considerado uma das principais pessoas influentes do movimento LGBT.

Comentários retirados do portal G1 em uma noticia sobre o filme Garota Dinamarquesa

Resenha: Os anos recentes tem sido provocados por uma onda de ódio gratuito em nossa sociedade, podemos ver como exemplo, comentários da imagem acima, que considera a transexualidade uma aberração. Os comentários são de uma reportagem sobre a proibição do filme "A Garota Dinamarquesa", ocorrida no Catar (país do Oriente Médio). A noticia em si, já seria considerada absurda, afinal em milhares de anos de luta contra a censura, a proibição do referido filme naquele país seria um retrocesso. Porém, com a sua repercussão, percebemos que esse processo se torna perigoso do que imaginávamos, tendo em vista, que vemos os comentários e percebemos que no próprio Brasil (um país considerado relativamente democrático), existe o reforço desse discurso, com informações infundadas e totalmente sem nexo.

Com isso, ao terminar o livro "Garota Dinamarquesa", comecei a refletir sobre as dificuldades da protagonista, na década de 1930 (período que ocorreu a mudança de sexo), onde "teoricamente" existia um desconhecimento muito maior em relação a questões de gênero e sexualidade, do que nos dias de hoje, o que torna a história muito mais encantadora.



O enredo do livro, centra-se na vida da pintora "Lili Elbe", um dos primeiros homens (o mais famoso até então) a realizar uma série de cirurgias que contemplava a sua transformação física, do sexo masculino para o feminino, no período de 1930-1931. A história inicia-se, quando a esposa de Einar Wegener, Greta Wegener pede para o seu marido posar com umas vestes femininas para que ela pudesse finalizar uma pintura de uma cantora de Ópera, porém o que seria apenas uma brincadeira, foi o gatilho para a criação de um alter-ego feminino para Einar, chamada Lili Elbe, que passaria a fazer parte da vida do casal, iniciando assim a trajetória de transformação de Einar.

Lili Elbe printada por Guerda

"Einar começou a penetrar num mundo sombrio de sonhos, onde o vestido de Anna podia pertencer a qualquer um, até a ele" (p. 21)


A história é divida em quatro momentos temporais (bases), além de flashbacks da vida de Einar, mas principalmente de Greta. No primeiro momento, em 1924, a história se baseia no inicio da descoberta de Einar, na possibilidade de usar roupas femininas, como ele se sentia referente a isso, seus anseios e medos. Percebe-se que o autor quis colocar, o processo de descoberta, de auto-afirmação, de ser ou não ser (eis a questão). É importante nesse processo, a separação que ele faz (uma espécie de esquizofrenia de Einar), onde existem duas pessoas em um corpo. Einar e Lili. E a figura de Greta é essencial para esse reforço, nessa dualidade entre querer manter o esposo, ou liberta-lo para os seus desejos, surgindo dentro de Greta, uma inspiração para as suas próprias obras, Lili Elbe.

A segunda parte da história, ocorre em Paris em 1929, para onde foram Greta e Einar/Lili Elbe. Esse momento é crucial na vida deles. Greta tem se tornado uma pintora famosa, por causa dos quadros, onde o principal tema era Lili Elbe e Lili Elbe se fazia cada vez mais presente, confundindo a mente de Einar, cada vez mais. É interessante perceber a discussão sobre gênero, porém vai uma pequena critica sobre o livro. Sabendo que a transexualidade nos dias de hoje, ainda sofre com situações absurdas, porque colocar o fato, como se fosse algo imperceptível (ao longo da história, poucas pessoas perceberam a questão de Lili/Einar), apesar de compreender não ser o ponto central da história, acho que por uma questão de tornar a história mais crível, valia-se colocar uma ou outra cena em relação a isso. Mesmo assim, isso não retira o brilho da história, porque nesse processo de auto-aceitação, percebe-se o quanto é difícil para Einar/Lili esse processo de amadurecimento.

Lili Elbe printada por Guerda

As terceira e quarta parte, centram-se na transformação para Lili, onde aparentemente não há mais dúvidas em relação ao que ela quer, e o que tem aprendido com todo esse processo. Vale ressaltar que apesar da história ser sobre Lili, Greta é uma personagem fundamental, porque ela mesmo também se transforma ao longo da história, o amor dela se transforma, tal como a vida. E quando chegamos ao final da história, ficamos cheios de reflexão, em relação às dificuldades sofridas pelos transgêneros, é algo complexo, difícil de se dimensionar. O autor tentou colocar todos os pontos em cheque, mesmo assim, só quem vive na pele, essas circunstâncias, podem falar como extrema propriedade sobre o tema.

A escrita do autor é poética, ele sabe utilizar bem a beleza das palavras para nos levar a uma história emocionante. O inicio para gente é traumático, porque começamos a entrar numa seara que desconhecemos e acaba a nos levar a sentimentos únicos, depois apesar de nos acostumarmos como o modo do autor escrever o seu texto, a história não fica menos bonita, ao contrário a sua narrativa utiliza muitas frases que poderão ficar pra sempre em nossas memórias



"Pela primeira vez Einar percebeu que virava o mundo de ponta-cabeça ao se vestir de Lili. Ele podia se autoanular ao tirar aquela combinação com bainha arrendada. Podia desaparecer da sociedade ao erguer os cotovelos e prender as três voltas de pérolas espanholas em volta do pescoço." (p. 68)


O livro apresenta um prefacio onde o autor explica que a história apresentada é ficcional, apenas baseada em alguns escritor de Lili Elbe. Além disso, existe um posfacio, onde ele discute um pouco sobre a questão de gênero, e uma entrevista com o autor, que explica melhor a história. Ou seja, essa edição, apresentada pela Fábrica 231 (Editora Rocco) está maravilhosa. O livro já foi publicado no Brasil em 2002 sob o nome de "A Moça de Copenhague", e a capa antiga apresentava uma das obras de Guerda (nome verdadeiro a esposa de Lili) que mostrava a face de Elbe. A capa agora é a do filme (achei bonita, mas poderia ser diferente). Em termos de impressão, vi pequenos errinhos de separação de paragrafo, e confesso que o acabamento não é tão bom assim.



LIVRO X FILME


Bom, logo após finalizar o livro, fui em busca do filme, que infelizmente não chegou as salas de cinema na cidade de Belém (Tanto Comercial, como Independente), devido ao boicote "inexplicável", das salas dos circuito comercial, e problemas com as distribuidoras que não conseguiram fechar acordo com o circuito independente.

Bom ao assistir, ao filme, percebi que algumas coisas me incomodaram, como o corte de algumas cenas, que acho importante no livro, inclusive com o corte de alguns personagens. O filme tenta trazer a importância a Greta/Guerda, porém não traz nada relativo a sua história, se tem irmãos, parentes, enfim, é difícil a gente compreender uma personagem, sem conhecer pelo menos parte de sua história. Poderia se feito a exemplo de Lili, onde durante o filme são apresentados vários momentos de sua vida, que nos ajuda a perceber como ele chegou a esse ponto.

 Além disso, eu senti que o filme perdeu um pouco da poética do livro, a cenas apesar de serem bem trabalhadas, não tinha a mesma profundidade do livro (o que é natural), mas que soma-se com a trilha sonora que pouco ajudou na construção das cenas.



Porém, ainda acho que o filme tem mais acertos do que erros, a começar pelos atores de Lili/Einar e Guerda, foram escolhas bem acertadas eles desempenharam bem os seus papeis, que na minha opinião, ele não leva o Oscar, por causa de Leonardo Di Carprio e ela é uma das mais cotadas para ganhar como atriz coadjuvante, merecidamente. Além disso, os cenários e informações repassadas foram boas, e chegamos a um final tão belo que quase compensa quase todos os erros do filme.

No mais, Garota Dinamarquesa "Apresenta a profundidade de um personagem da vida real, mostrando as dificuldades das relações de gênero, e consequentemente a formação do quem eu sou"

"Por uma lado, Greta estava chocada. Seu marido já não estava vivo. Ela sentiu o choque formigante, como se estivesse sendo atravessada pela alma dele (...) Aproximou-se mais ainda de Lili." (p. 269)

Skoob: 4.1 Estrelas
Goodreads: 3.75 Estrelas

E não se esqueçam Soodinhas, no próximo dia 27/02 teremos evento, no Cine-Teatro do Aslan Gentil, esse livro estará entre os apresentados. E fiquem de olho que vem mais resenha de livros que tiverem filme adaptados e estão concorrendo ao Oscar esse ano. E terça-feira tem mais resenha do Oscar. o próximo livro será...


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