Resenha: Todos Envolvidos - Ryan Gattis

outubro 22, 2016 / Redação SOODA /

Livro baseia-se no chamado "Distúrbios de Los Angeles de 1992", mostrando de maneira nua e crua, a vida dos invisíveis dos centros urbanos, que se tornaram visíveis por seis dias, na capital do entretenimento




Todos Envolvidos (All Involved)
Autor: Ryan Gattis
Ano: 2016
Skoob: 3,6 Estrelas / Goodreads: 4,4 Estrelas
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4 Estrelas
Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu dois policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência, e o caos durou seis dias. Em aproximadamente 121 horas, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.
Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade.

Autor: Ryan Gattis nasceu em Illinois e foi criado no Colorado. Formou-se em Escrita Criativa pela Universidade de Champman. Todos Envolvidos é seu terceiro livro, fruto de um trabalho de 2,5 anos em gangues latino-americanas, enfermeiras e outros personagens que compõem a história.



29 de Abril de 1992, um júri absorve três brancos e um hispânico, responsáveis por espancar até a quase morte um motorista negro em Los Angeles, gerando um estopim para a maior revolta civil já ocorrida nos Estados Unidos no século XX. De acordo com a revista History, foram 55 mortos, 2 mil feridos, 7 mil pessoas presas, 4 mil estabelecimentos incendiados gerando assim mais de um bilhão de dólares em prejuízos (matéria aqui).

Mas será que todos os crimes estavam relacionados a disputa entre negros e brancos?

É nesse quesito que Ryan assenta o seu livro ficcional, nos contando mais que uma trajetória de horror, mas fatos que passam despercebidos em nosso dia-a-dia, porém que estão sempre lá, provocando medo naqueles que moram em locais, aonde o Estado não consegue chegar.

Disturbios de Los Angeles de 1992

O enredo se entrelaça basicamente na briga de duas gangues hispânicas que se aproveitam o momento de grande terror na cidade para realizar seu mais profundo acerto de contas. Tudo se inicia quando um grupo de jovens mata um irmão de um garoto da gangue rival, que não faz parte desse meio quebrando assim o "código de ética" entre eles e começando uma guerra que culmina em muitas mortes de ambos os lados. Nesse processo dezessete personagens contam a história desse livro se intercalando uns aos outros, envolvendo todos nessa guerrilha.

Então conhecemos nessa história a vida de várias pessoas que são invisíveis em nosso dia-a-dia, mas que possuem histórias que vão além do ser bandido, entre eles temos:



OS CHEFES DAS GANGUES: Os dois chefes são figuras de extrema liderança, de certa forma são protecionistas com seus pares, funcionando como uma espécie de chefe da família. Os dois chefes que aparecem no enredo tem histórias carregadas no que diz respeito à sua chegada nesse posto. Porém, eles precisam ser rigorosos em suas punições, às vezes matando seus próprios pares afim de implantar a ordem em "sua casa".

IRMÃOS DA GANGUE: Durante o enredo vários dos personagens são participantes das gangues, assim conhecemos várias motivações, histórias que os levaram para esse caminho, conhecemos pessoas que acabaram de entrar, outras que já estão a um relativo tempo, alguns até curso superior estão fazendo. Você percebe a força e o poder paralelo que esses grupos possuem, mas de certa forma todos tem desejos semelhantes de sair dessa vida (com exceção de alguns que são mais jovens). Consegue-se visualizar em cada um dos personagens a falta do Estado, a a falta de opção, a falta de politicas públicas, a falta de uma estrutura familiar. Você não se apega a nenhum dos personagens, mas consegue ter empatia com a maioria deles.

VIKINGS: Semelhante as milicias brasileiras, esses grupos são formados por ex-policiais e ex-militares que acreditam que deva haver um expurgo que elimine boa parte das gangues. Eles não acreditam que o Estado tenha capacidade de efetivar essas ações, afinal de contas, de acordo com dados (nesse caso oficias), no condado de Los Angeles que possuía cerca de 9,15 milhões de pessoas (1992) estimava-se que existiam mais de 100 mil jovens que atuam nessas gangues, algo difícil de se controlar em um montante de 7 mil policiais. Então, eles aparecem para fazer a sua parte.



ENFERMEIRO E BOMBEIROS: No olho do furacão, essas profissões se tornam especialmente perigosas nesse contexto de guerra urbana, e o autor acaba retratando esse processo, porém ainda interliga os personagens a outros que fazem parte desses grupos urbanos, e as vezes precisam de esforço redobrados para resolverem seus problemas.

PARENTES ENVOLVIDOS OU NÃO COM GANGUES: Durante a história de Ryan encontramos vários parentes que contam um trecho dessas histórias, os seus sofrimentos, suas motivações, alguns são drogados e estão do lado dessas pessoas por interesses relacionados as drogas, outros tentam tirar seus filhos dessas gangues, outros participam de algum modo desse processo (ou já participaram), enfim, ao ler esse livro temos que está desprendidos de nossos preconceitos.

Além desses, existem outros que são inseridos nesse contexto que que são logo vinculados em nosso meio geral como marginais, bandidos, porém eles também tem uma vida, reflexões, sonhos, desejos e estão tão amedrontados quanto todos que passaram por essa onda de crimes.

E nesse ponto o autor não sente pena, ele descreve muito bem as cenas de incêndios, crimes. Às vezes estamos caminhando com um personagem que leva um tiro na cabeça e nesse instante estamos morrendo junto com ele, tendo as mesmas sensações e dores. O autor consegue nos deixar imersos nas mais variadas mentes. Isso é assustador, porém uma experiência válida.



De certa forma para mim, essa leitura se tornou um grande aprendizado, porque ela não é apenas de pessoas marginalizadas socialmente, mas de seres humanos que possuem experiências que provavelmente eu não terei em nenhum momento da minha vida, e apesar de não concordar com suas formas de vida (afinal eu não preciso concordar ou discordar, ninguém precisa da minha aprovação para continuar vivendo) eu posso compreende-los e quem sabe superar a barreira de cara bons e caras maus que sempre imputamos nessas situações.

Esse livro me fez refletir sobre os medos urbanos, sobre a invisibilidade, sobre o poder paralelo, me fez pensar como a linha do terror e realidade podem estar tão próximas, e como esse cruzamento pode transformar vidas. Por fim, conseguir compreender que nós possuímos escolhas, podemos ser bons ou maus, dependendo do referencial e que sempre estaremos envolvidos nessa enorme rede urbana e que nesse sentido, as mudanças necessárias dependem exclusivamente, de cada um de nós.

Dessa forma, Todos Envolvidos é recomendado para:


  • Pessoas que gostam de obras policiais;
  • Pessoas que gostam de livros que abordem a violência urbana e o terror;
  • Pessoas que gostem sobre discussões relativas aos marginalizados sociais;

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