Resenha: O Silêncio - Shusaku Endo

fevereiro 18, 2017 / Redação SOODA /

Com ares medievais, Shusaku Endo retrata com primazia a perseguição dos japoneses ao cristianismo do século XVII, porém com as intolerâncias que se repetem no presente






O Budismo e Cristianismo possuem diferenças consideráveis em seu cerne e modo de pensar. Até o século XVI viviam relativamente bem, pois não havia ocorrido um encontro dos referidos dogmas de forma contundente. Porém, o Japão, Portugal e Holanda expandiram as suas relações comerciais, que transcenderam o âmbito da Economia.

O Catolicismo acabou por fim, entrando nas fronteiras japonesas, causando problemas de relativa magnitude. Em contraponto a isso, o Japão iniciou uma intensa batalha contra o Cristianismo, que em seu ápice chegou a cerca de 300 mil pessoas, naquele período. E é sobre esse contexto que insere-se a obra O Silêncio, lançada em 1966. Porém, que retorna no mainstreaming, após o lançamento do filme de mesmo titulo do diretor Martin Scorsese.

A obra retrata um período do Japão, relativo ao século XVII, onde os cristãos foram perseguidos, a fim de abandonarem a sua doutrina e retornarem aos dogmas e tradições budistas. Em meio a esse processo que gerou a tortura e morte de milhares de pessoas que acreditavam em Jesus, está Ferreira, um padre que depois de um tempo de sofrimento deixou seu apostolado, sendo então renegado pela Igreja.

Sem entender, os padres Garpe e Sebastião se deslocam até o Japão em busca do missionário Ferreira para compreender o que havia acontecido, e lá encontram mais do que isso, viram um povo carente de fé. e a partir disso começaram a sua atuação missionária. Porém, tudo tinha que ser feito na surdina, afinal de contas, se os Samurais soubessem deles, aquelas comunidades poderiam se acabar das maneiras mais tortuosas possíveis.



O livro começa a ser contado pelo ponto de vista do Padre Sebastião e suas cartas, ele trata nelas, suas dificuldades, trajetórias, para chegar até o Japão, além de retratar um cristão, o qual ele coloca-o como fraco, devido várias situações, ao longo da história. É bem interessante como o autor escreve essa parte do livro, mostrando medo nas palavras, e uma intensa dualidade entre os pensamentos e ações do referido padre.

A partir de determinado momento a história passa a ser contada em terceira pessoa, especialmente quando o Padre Sebastião vai a Nagasaki. Nesse ponto, o titulo começa a fazer bastante sentido “silêncio da fé”, “silêncio do medo”, “silêncio da resignação”, “silêncio no embate e enfrentamento” entre a doutrina cristã e os samurais.

É muito interessante, como Shusaku Endo constrói uma história onde vamos projetando determinada pena aos cristãos, principalmente porque ele faz várias analogias às perseguições que nós ocidentais já conhecemos, o qual foram enfrentadas pelo catolicismo antes de se instaurar como cultura dominante.

É importante ressaltar a forma de apropriação, do qual os japoneses possuíam naquele momento. É quase como se a gente avançasse um pouco no tempo, e percebeste o que está acontecendo nos dias de hoje. Alias, se nós fizermos esse parâmetro, vamos encontrar muitas semelhanças entre passado e presente.

Porém, ao longo dos questionamentos, percebe-se que aquele sentimento de pena que criamos, é justamente porque olhamos somente um ponto de vista do problema, e deixamos passar vários detalhes que pudesse nos fazer compreender o todo (talvez, algumas pessoas percebam antes de mim, outras depois).



Conforme vamos chegando aos momentos finais, é hora de fazer um retrospecto e pensar. Que caminhos faríamos para minimizar o sofrimento dos cristãos no Japão? Faríamos o mesmo que Sebastião? Ou arranjaríamos outra forma de se adequar àquele ambiente? Alias, hoje, o que nós fazemos para enfrentar as intolerâncias existentes no dia-a-dia do nosso planeta?

De certa forma, Shusaku Endo, ao recorrer a esse passado com uma primazia única, ele na verdade quer pautar os problemas de nossas sociedades modernas, especialmente nesse espectro intolerante que continua a perdurar, mesmo que a perseguição, entre os japoneses e cristãos tenham acabado no século XIX, com o reconhecimento do cristianismo no Japão em 1873.

Saiba mais da perseguição, entre os japoneses aos cristãos aqui.
O Silêncio (Silence)
Autor: Shusaku Endo
Editora: Editora Planeta (Planeta Literário)
Ano: 2011
Skoob: 4,2 Estrelas / Goodreads: 4,12 Estrelas
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05 Estrelas
O Silêncio é o mais aclamado dos romances escritos por Shusaku Endo. É a história ficcional, mas baseada em fatos reais de um missionário idealista, o jesuíta português Sebastião Rodrigues. No fim da década de 1630, ele embarca para o Japão para ajudar os cristãos locais, brutalmente oprimidos, e descobrir a verdade sobre seu antigo mentor, um teólogo que, segundo os rumores, teria recusado o martírio glorioso e escolhido a apostasia. Rodrigues, depois de confrontado com a realidade da perseguição religiosa, tem, ele mesmo, de fazer uma escolha terrível: abandonar seu rebanho ou seu Deus.
Autor: Shusaku Endo (遠藤 周作 Endō Shusaku) foi um escritor japonês do século XX que escreveu com a singular perspectiva de ser japonês e católico (A população cristã no Japão é inferior a 1%). Juntamente com Junnosuke Yoshiyuki, Shotaro Yasuoka, Junzo Shono, Hiroyuki Agawa, Ayako Sono, e Shumon Miura, Endo está incluído na "Terceira Geração", o terceiro maior grupo de escritores japoneses pós II Guerra Mundial. Em suas obras, Endo abordou questões morais complexas e relação entre Ocidente, Oriente e cristianismo.

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