Resenha: A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares

março 15, 2017 / Rosane Santos /

Uma ilha deserta, inúmeros mistérios e construções abandonadas, isso te lembra algo? Confira em A Invenção de Morel





A invenção de Morel tem como personagem principal um fugitivo político venezuelano que para se livrar de uma condenação judicial resolve se exilar em uma ilha aparentemente deserta e que é cercada de mistérios, considerada por muitos como sendo amaldiçoada.

O livro é narrado em primeira pessoa, em uma espécie de diário e conforme o personagem (que não apresenta um nome) vai explorando cada vez mais a ilha nós somos apresentados a um lugar com construções bem desenvolvidas e entre elas está uma misteriosa máquina que foi inventada por alguém conhecido como Morel.

O relato vai seguindo o dia a dia do personagem, ele relata com detalhes suas descobertas e como ele está fazendo para sobreviver nesse lugar desolado.

Com o passar dos dias o fugitivo vai aprendendo sobre como funciona a ilha e suas construções, porém em certo dia ele ouve uma música tocando em algum lugar e começa a ficar preocupado, e é quando ele descobre a presença de um grupo de pessoas que surgiram na ilha.

Seguindo seu instinto de sobrevivência, começa a achar que aquelas pessoas poderiam leva-lo para a prisão, então ele faz de tudo para ficar fora do caminho delas, se escondendo e observando-os de longe.



“Eu ouvia vozes no hall, na escada. As luzes se apagaram e a casa ficou em uma lívida luz de amanhecer. Esperei, alerta. Não havia ruídos, quase não havia luz. Todos teriam ido se deitar? Ou estariam à espreita, para me capturar? Permaneci ali, não sei por quanto tempo, tremendo, até que comecei a caminhar (acho que para ouvir meus próprios passos e testemunhar algum sinal de vida), sem perceber que fazia, talvez, o que meus supostos perseguidores haviam previsto.”

Conforme ele observa o grupo, ele então nota uma mulher muito bonita que imediatamente chama a sua atenção, aos poucos ele vai se apaixonando por ela e vai criando coragem para se declarar.

É aqui que ele percebe que há algo de errado com aquelas pessoas ou haveria algo de errado com ele? Pois parece que aquelas pessoas não podem vê-lo, nem ouvi-lo, por mais que ele tente se comunicar é como se ele não existisse, ou seria tudo aquilo fruto de sua mente debilitada por alguma doença adquirida na ilha?

 Então ele nota que aquelas pessoas parecem estar sempre em um tipo de loop, elas fazem sempre as mesmas coisas, seus diálogos são repetidos, como em uma espécie de filme. A partir disso nós vamos descobrindo qual o grande mistério e o que é a tal invenção de Morel.



“Agora a mulher do lenço me é imprescindível. Talvez todo esse empenho higiênico em não esperar seja um pouco ridículo. Não esperar da vida, para não arriscá-la; dar-se por morto, para não morrer. De repente isso me pareceu um letargo pavoroso, inquietíssimo; quero que acabe.” Pág. 27

Bom, A Invenção de Morel é um livro bem curto, apenas 124 páginas, porém levei um tempo maior do que esperava para concluir a leitura.

Ele traz vários mistérios e a gente fica querendo descobrir o que está acontecendo e como está acontecendo.

Casares escreve com grande maestria, isso é inegável, ele possui uma escrita elegante e praticamente impecável, consegue encaixar todas as peças de maneira satisfatória e nos apresenta doses de suspense e ficção cientifica na medida exata.

Achei o inicio do livro um pouco arrastado e confuso, confesso que em alguns momentos fiquei um tanto perdida, mas conforme vamos avançando na leitura tudo começa a se encaixar e fazer sentido.



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De qualquer forma, a construção de toda a trama é bem interessante, o mistério ao redor das pessoas que surgem na ilha é bem trabalhado e a solução também traz bastante reflexão sobre a forma como imaginamos a nós mesmos e também em relação ao viver entre o mundo real e o virtual, como às vezes acabamos vivendo em um momento que julgamos perfeito e esquecemos-nos de viver o presente, o agora e isso é algo muito relevante e que pode trazer grandes debates, principalmente nos dias de hoje com a propagação das redes sociais.

 Esse livro me remeteu um pouco ao Retrato de Dorian Gray do Oscar Wilde, na construção do tema da imortalidade e querer capturar aquele momento perfeito da vida.

Outro fato interessante é que esse livro serviu como inspiração para a criação da série Lost.



É uma leitura que pode ter diversas interpretações, é uma obra extremamente rica, apesar de ser tão curta.

Definitivamente é um livro que vale a pena ser lido e relido, acredito que podemos sempre extrair mais reflexões, novas interpretações e isso é algo maravilhoso em uma obra, esse caráter atemporal é bem presente aqui.

A Invenção de Morel The Invention of Morel
Autor: Adolfo Bioy Casares
Editora: Biblioteca Azul (Globo Livros)
Ano: 2016
Skoob: 4,2 Estrelas / Goodreads: 4,06 Estrelas
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04 estrelas
Romance publicado originalmente em 1940, foi considerado por Jorge Luis Borge “uma trama perfeita”. Um cidadão venezuelano torna-se recluso em uma ilha deserta para fugir de uma condenação judicial. Enquanto se alimenta de raízes psicotrópicas, o expatriado vê se apagar cada vez mais o limite entre a imaginação e a realidade.
Sobre o autor: Adolfo Bioy Casares foi um escritor argentino com pessoal interesse na ficção. Ganhador do Gran Premio de Honor da Sociedad Argentina de Escritores (1975), do prêmio Cervantes (1990) e da Légion d’Honneur da França (1981), ele é um dos principais ficcionistas do século XX. Amigo e parceiro de Jorge Luis Borges, com quem escreveu seis livros e criou o personagem H. Bustos Domecq, Bioy Casares vem sendo redescoberto pelos leitores brasileiros.

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