Resenha: O Progresso do Amor - Alice Munro

maio 08, 2017 / Clara Giane /

Através de detalhes do passado e do presente, Alice Munro pinta a rica genealogia moral de suas personagens




Livros de contos são, para mim, como uma embalagem de chocolate: desde Cacau Show até aquelas caixas da Garoto que encontramos no caixa da farmácia. Daquele tipo que você só aprecia pra valer se comer um tantinho por dia. Se for guloso e devorar a caixa inteira de uma vez, não sente as nuances de sabor se dissolvendo devagar na língua, tampouco permite a si mesmo querer mais daquilo – na melhor das hipóteses, pode até pegar uma azia. É nessas doses homeopáticas que se constrói a memória, o desejo, o sentimento que o doce provoca quando sentimos seu cheiro.

Ou ninguém aqui nunca ouviu falar do ritual da Tortuguita?

A lógica não é muito diferente quando se fala em contos. À exceção dos chamados romances seriados (ou romances fix up), composto de partes aparentemente desconexas que se juntam em uma trama maior, os livros de contos tradicionais são compostos de tramas separadas que se encerram em si mesmas. Em certas situações, creio eu, terminar um conto e começar outro imediatamente não se distancia muito da gula chocólatra: você engole, mas não sente. E a sobreposição de impactos deixada por cada uma das tramas se transforma na tal azia.



A autora canadense Alice Munro não é nova neste estilo. Sua carreira é notória, rendendo-lhe comparações com o gênio contista Tchekov e um Nobel em 2013. Na esteira deste reconhecimento tardio em terras brasileiras, O Progresso do Amor, lançado originalmente em 1986, recebe uma cuidadosa edição pela Biblioteca Azul. Ao contrário do que o título (e a capa) possam sugerir, o “amor” nos contos de Munro se manifesta sob as mais variadas facetas, e ainda mais variadas qualidades: o amor entre melhores amigas contaminado pela inveja, o amor entre pais e filhos nublado pela rotina e pela negligência, o amor perene de um improvável casal em um subúrbio de Gilmore. Cada uma das histórias consiste em um fragmento do cotidiano de indivíduos e famílias canadenses entre as décadas de 1930 aos “tempos atuais”, nos modernos e agitados anos 1980. Todos, de alguma forma, retratam a fragilidade das relações humanas.

Em boa parte dos contos, há a singela presença dos álamos e da neve no cotidiano das personagens, que ora se debatem em seus questionamentos internos, ora se entregam a reminiscências. A paisagem rural do interior do Canadá - com direito a animais silvestres, lenhadores e sempre, sempre os álamos! - é frequente, emoldurando o retrato de um passado quase bucólico se não fosse pelos onipresentes dilemas que jamais as deixam em paz. As lembranças quase sempre formam um contraponto à vida moderna das grandes capitais. O ritmo frenético da cidade confronta a aparente calmaria no campo para revelar que calma e tempestade são muito mais um reflexo do estado interno das personagens que uma qualidade do ambiente externo.



Esse estado interno se revela de forma indireta. Um dos principais aspectos que define Munro enquanto contista é o estilo descritivo com que narra o cotidiano nas personagens. Sua escrita é literalmente isso: um fragmento do cotidiano, sem mais nem menos. Frequentemente alternando entre flashbacks e passagens do momento presente, a narração não é linear e tampouco encaminha o leitor a um clímax, contribuindo com a noção de que vislumbramos um pedaço concreto de realidade, que raramente se curva a coincidências ou reviravoltas dignas de novela.

Frequentemente esquecida por muitos autores contemporâneos, o show, don’t tell – técnica que consiste em expôr as personagens muito mais por ações que por longas descrições, atribuída ao próprio Tchekov – é habilmente utilizado por Munro, que não mastiga as informações para o leitor, cujo dever é tirar suas próprias conclusões sobre os dramas ali retratados. E não somos deixados no escuro: a autora tece um tipo de genealogia moral dos personagens (com longas descrições do passado, como já mencionado) que nos servem como ferramentas de interpretação dos mesmos. Há, em cada um das ações e omissões daqueles indivíduos, um motivo a ser investigado, que nos conduz à mensagem da história.



Alerta de Spoilers

Necessito fazer, aqui, uma ressalva – e, se não quiserem spoilers, sugiro que pulem esta parte da resenha. Não me senti confortável em ler um dos contos em questão, A lua sobre a pista de patinação da rua Orange. Trata-se da evolução moral de dois homens, Edgar e Sam, que abandonaram a fazenda para morar em uma pensão na cidade grande ao fim da adolescência; o terceiro elemento que compõe tal evolução é Callie, filha adotiva da dona da pensão, uma espécie de “faz-tudo” do lugar, amiga próxima dos rapazes.

Em um dado momento da trama, os garotos passam a fantasiar cenas de estupro cujos alvos são qualquer mulher em quem coloquem os olhos, até o momento em que o nome de Callie surge na conversa. Ambos convencem a jovem a lhes deixarem deflorá-la, um por um, numa cena que serve à autora como mostra da infantilidade das personagens. Não contribui em nada o fato de que, superados os estigmas da juventude (os garotos planejam fugir da pensão, pois pensam terem engravidado a menina, que os segue até a estação de trem), Callie e Edgar casam-se e constroem uma vida juntos.

A mensagem que Munro busca parece ser positiva: o amor floresce, cresce e amadurece com os anos. Entretanto, não me agrada nem um pouco os meios que esta se valeu para revelá-la ao leitor neste conto em questão. Estupro – mesmo com um aparente “consentimento” – é uma questão séria que apenas recentemente recebeu a devida atenção nos meios de comunicação e, embora eu leve em consideração o contexto histórico em que o conto foi escrito e a mensagem proposta, não deixa de ser indigesto e triste. Este foi o chocolate estragado da minha caixinha de bombons.
Fim dos de Spoilers



Terminada a ressalva, acredito que a melhor forma de definir O progresso do Amor seja como uma daquelas caixas da Ferrero Rocher que guardamos para depois do almoço: não tão caros quanto um Kopenhagen ou baratos quanto um Nestlé, os bombons possuem um recheio denso que se saboreia sem pressa e com cuidado. Talvez um deles tenha passado da validade – uma pequena decepção, considerando a qualidade do fabricante –, embora os demais ainda preservem o sabor rico. As tramas de Alice Munro são simultaneamente um produto de sua época (para bem ou para mal) e um eco dos tempos modernos, em que o amor progride além das quatro paredes, alcançando as selvas de pedra.
O Progresso do Amor (The Progress of Love)
Autora: Alice Munro
Editora: Globo Livros (Selo Biblioteca Azul)
Ano: 2017
Skoob: 0 Estrelas / Goodreads: 0 Estrelas
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04 Estrelas
Em “O progresso do amor”, Alice Munro, vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2013, volta a oferecer aos seus leitores a simplicidade e a maestria que renderam o reconhecimento extraordinário à sua escrita. Uma mulher divorciada que retorna para a casa de sua infância, onde ligações profundas se confrontam com a memória de seus pais. O cuidado dos adultos com as crianças e a fragilidade que permeia a relação com a verdade entre pais e filhos. Um jovem rapaz que, ao se lembrar de um aterrorizante incidente da infância, tem um embate com a responsabilidade que assumiu pelo seu desafortunado irmão caçula. Um homem leva a namorada a uma visita à sua ex-esposa, apenas para se sentir próximo novamente de sua parceira distante. Nesses e em outros contos, Alice Munro prova mais uma vez ser uma sensível e apaixonada cronista de nosso tempo. A partir dos laços entre os sujeitos e das memórias desses laços ergue-se uma narrativa incisiva, de poética cortante, fazendo do livro uma coleção de retratos íntimos e labirínticos de vidas comuns que revelam muito sobre nós mesmos, sobre nossas escolhas e nossas experiências amorosas.
Autora: Alice Munro nasceu em 1931 em Wingham, no Canadá. É autora de diversos livros de contos, traduzidos para mais de dez idiomas. Entre os numerosos prêmios literários recebidos ao longo de sua carreira – incluindo o Man Booker Prize, em 2009 – destaca-se o Nobel de Literatura, em 2013. Foi a primeira vez na história que o prêmio foi destinado a um escritor especializado em contos.

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