Presença LGBTQ+ na Literatura

junho 14, 2017 / Clara Gianni /

Não tinha essas coisas de viadagem no meu tempo!





Se eu ganhasse uma moeda pra cada santíssima vez que já ouvi essa frase (que muitos de vocês também certamente já devem tê-la escutado mais do que deveriam), já teria comprado toda a minha lista de desejos da Amazon (edição especial de All Star Superman, estou pensando em você).

Se eu ganhasse mais uma moeda pra cada santíssima vez em que tive de segurar a língua para não dar uma resposta malcriada logo em seguida, já estava de malas prontas para Dubai (uma pra mim, outra pros livros já comprados, outra pro meu Nintendo Switch).


Então… este post é uma resposta não tão malcriada, por certo, mas que decididamente incomodaria muita gente (sim, infelizmente essa gente ainda existe e sabemos quem são) por dois bons motivos: o primeiro é que a maioria das obras e autores que listo neste post antecedem em MUITOS anos ao que o pessoal geralmente se refere como “meu tempo” quando solta uma frase dessas; o segundo é que “viadagem” é só a ponta do iceberg para um espectro composto não apenas por gays, como também por lésbicas, bissexuais, transsexuais e outras minorias cuja visibilidade só foi conquistada muito recentemente.

Mas estou divagando. Bora logo pra parte que importa: aquela com os melhores argumentos contra aquele tio chato nos almoços de família.

Mas sério, tentem não tretar com aquele tio chato nos almoços de família, tá? :)

A presença LGBTQ+ sempre foi uma constante na literatura universal, ainda que a mercê de silenciamentos e deturpações nas obras em que ousavam se inserir. Então vamos por partes, porque a caminhada é longa.

ANTIGUIDADE CLÁSSICA

Em se tratando de literatura ocidental, é impossível escapar dos mitos e obras greco-latinas. Bem sabemos, hoje em dia, que a homossexualidade era encarada com naturalidade na Grécia antiga, tendo exemplos na própria mitologia – como a paixão de Zeus por Ganímedes, para citar apenas um. De tal forma que não é de se admirar que "A Ilíada", o poema épico por excelência, também não retratasse um destes relacionamentos – embora seu subtexto amoroso só fosse destrinchado séculos depois, em Atenas. Trata-se do romance entre Aquiles, o mais belo e mais poderoso dos guerreiros gregos durante a guerra de Troia (não, não o Brad Pitt), e Pátroclo, seu amigo e companheiro de longa data; quando Pátroclo, trajando a armadura de Aquiles, é morto em combate por Heitor, o herói não hesita em tornar a morte do príncipe troiano um verdadeiro espetáculo de vergonha como vingança, arrastando pelo campo de batalha, com seu carro, o corpo do guerreiro derrotado. A cena tem bem mais impacto no poema em si que no filme: junto à dor de Príamo, pai de Heitor, implorando que os gregos devolvam o cadáver de seu filho, temos Aquiles, igualmente amargurado pela morte do amado, este não reduzido a um mero primo querido. A paixão dos dois é, inclusive, tema central de uma recente (e muito elogiada) releitura de A Ilíada escrita por Madeline Miller, A Canção de Aquiles.



Por outro lado, se relações entre homens eram relativamente normais, o mesmo não se pode dizer daquelas entre mulheres. O chamado “tribadismo” era considerado imoral e contrário à natureza, em oposição à pederastia praticada entre homens mais experientes e jovens rapazes. A despeito disso, a poetisa grega Safo, que não escondia em seus versos o ardor que sentia por outras mulheres, se destacou dentre os sábios de sua época. Especula-se que tenha nascido no século VII, a.C. na ilha de Lesbos – onde posteriormente criaria sua academia para jovens moças, conhecidas como “lésbicas”, quer dizer, naturais de Lesbos. Estudou retórica e dança, além de poética, onde prosperou com seu lirismo amoroso e erótico dedicado às suas discípulas, as chamadas “hetairai” (amigas, ou companheiras). Sua contribuição para a poesia lírica – especificamente a modalidade mélica – consagrou seu espaço junto a outros grandes poetas da época, como Píndaro e Hesíodo, e rende-lhe a alcunha de “a décima musa” por ninguém menos que Platão. Aqui cabe um parêntese: a posição de musa sempre se relacionou à ideia do artista masculino em busca de inspiração feminina, ali presente unicamente para atiçar sua genialidade (pesquisem sobre “Manic Pixie Dream Girl” e vejam que o esteriótipo feminino de “musa inspiradora” ainda é forte na cultura pop). É extremamente empoderador, portanto, pensarmos em Safo como uma quebra deste papel: uma mulher poetisa, escrevendo sobre e para outras mulheres.

Abaixo, um trecho de um de seus poemas, "À Amada":
“Ventura que iguala aos deuses,
Em meu conceito desfruta
Quem junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.
Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir”.
(Fonte: Recanto das Letras)

CLÁSSICOS MODERNOS E O REALISMO-NATURALISMO

Não raro, personagens e relacionamentos diversos daqueles prescritos pelo padrão heteronormativo vigente tinham suas naturezas “subversivas” maquiadas como algo mais palatável para as audiências, paradigma que parece sofrer alguma alteração em meados do século XIX. Estamos falando de uma sociedade em que livros já não se restringem às elites intelectuais – como fora na própria antiguidade, na idade média e na idade moderna. No início desta última, válido citar, há a criação da imprensa por Gutemberg, iniciando um processo de popularização da literatura, que se estabelece como um mercado de consumo.

É justamente com a proliferação dos folhetins – romances publicados de forma seriada em periódicos, geralmente jornais populares – que as tramas se aproximam cada vez mais dos dramas e tabus do cotidiano, possibilitando a publicação de histórias em que situações homoafetivas, em sua maioria, figurassem em subtramas ou até mesmo como o tema principal (e daí podemos perceber que sexualidades à margem do padrão imposto sempre fizeram parte da nossa realidade, ainda que indiretamente).

Este é o caso do Brasil, por exemplo, com clássicos exemplos de personagens LGBTQ+ advindos, em sua maioria, da corrente realista-naturalista em voga à época.



Além de "O Bom-Crioulo", publicado por Adolfo Caminha em 1895 (com o primeiro protagonista negro homossexual da literatura brasileira), temos também "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, com a relação entre duas de suas personagens Pombinha e Léonie. Aos dezoito anos, Pombinha aguarda a chegada de sua menstruação para que possa se casar com o jovem comerciante João da Costa, e, então, abandonar junto com a mãe, Dona Isabel, a vida que levam no cortiço de João Romão; culta e letrada, a garota passa o tempo transcrevendo cartas a pedido dos moradores analfabetos do local. Léonie, meretriz de modos afrancesados, é madrinha da filha de um casal de moradores do local, e possui amizade tanto com Pombinha como com sua mãe. A prostituta é, de certa forma, responsável pelo despertar sexual da garota: ela convida a jovem e Dona Isabel para sua casa e, após a velha senhora adormecer pelo vinho, conduz Pombinha até seu quarto, onde a recobre de beijos e carinhos íntimos.

“– Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! – reclamava Pombinha estorcendo-se em cócegas, e deixando ver as preciosidades da nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a prostituta.
– Que mal faz?… Estamos brincando…
– Não! Não! – balbuciou a vítima, repelindo-a.
– Sim! Sim! – insistiu Léonie, fechando-a entre os braços, como entre duas colunas; e pondo em contato com o dela todo o seu corpo nu.
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere, e o rogar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos”. (Editora: Ciranda Cultural, pg. 86)

Como vocês podem ver, há uma certa dúvida quanto ao fato de ser estupro ou não – uma das minhas apostilas do ensino médio até tratava os avanços de Léonie como tal, e a cena claramente é descrita como assédio. O fato é que Pombinha volta para casa transtornada com o ocorrido e, após alguns dias, desperta do que parece ser seu primeiro sonho molhado (pois é) com a saia suja de sangue, enfim tornando-se mulher, para a alegria da mãe e dos vizinhos. Às vésperas de seu casamento, após transcrever a carta de um dos moradores do local – que expulsara a esposa a pauladas e agora a queria de volta –, Pombinha percebe a fragilidade e submissão patética dos homens a suas esposas. Casa-se com João da Costa, que se revela ser, a seus olhos, um tolo incompetente, e logo foge da vida matrimonial para viver com Léonie como prostituta.

LITERATURA GÓTICA

Já lá fora, alguns dos exemplos mais conhecidos de representatividade LGBTQ+ estão fortemente ligados à literatura gótica do período vitoriano.

Em O Retrato de Dorian Gray, de 1890, não apenas seu protagonista Dorian Gray, é bissexual, como um de seus amigos, o artista Basil Hallward é gay. Dorian posa para um retrato de corpo inteiro a pedido de Basil, por quem conhece Lord Henry Wotton, que logo torna-se seu mentor e o apresenta a um mundo de prazeres carnais e deleite estético cujo passaporte é sua beleza física. Amedrontado que tal beleza logo desapareça com os anos, Dorian está disposto a vender a alma para que o retrato envelheça em seu lugar. Os anos passam e o jovem acompanha a decadência do quadro paralela à sua aparência intacta. Envolve-se em orgias com homens e mulheres, levando uma vida cujo único objetivo é o alcance do prazer, o que eventualmente o encaminha à decadência moral.



Condenado e preso por sua homossexualidade pouco tempo após a publicação da obra, seu autor Oscar Wilde buscava denunciar a hipocrisia da mesma sociedade vitoriana que o rechaçava por “cometer atos imorais em diversos rapazes” e que, no entanto, se deteriorava internamente por seu sistema moral superficial. Sobre seus personagens, disse Wilde: “Basil Hallward é aquilo que eu penso de mim; Lord Henry, o que o mundo pensa de mim; Dorian é o que eu gostaria de ser noutra época, talvez”.

Se menciono aqui literatura gótica vitoriana, é quase impossível deixar passar batido uma de suas figuras mais icônicas: o vampiro.

Estou falando de Carmilla, personagem da novela vampiresca homônima escrita por Sheridan Le Fanu, entre 1871 e 1872, quase vinte e cinco anos antes do Drácula, de Bram Stoker – sendo influência direta deste último, inclusive. A trama é narrada do ponto de vista de Laura, que leva uma vida solitária junto ao pai e duas criadas em um castelo na Estíria, região da Áustria. Após um acidente de carruagem na estrada próxima, uma senhora sai à procura de um abrigo para a filha de saúde frágil desmaiada em seus braços, deixando-a no castelo sem voltar novamente. A jovem em questão é Carmilla, que passa a viver junto de Laura pelos próximos meses, e com ela forma um vínculo inseparável. Laura descreve o comportamento de sua companheira como lânguido e melancólico. Carmilla frequentemente a cobre de carícias melosas que, pouco a pouco, despertam aversão – quanto mais apaixonados os carinhos, mais fraca sente-se Laura.



Muito do que entendemos sobre os vampiros – principalmente as vampiras –, como a melancolia, a languidez e a perfídia, se originou no livro. Carmilla consagra o clichê da vampira lésbica sedutora, que envolve suas jovens vítimas com sua sexualidade predatória para, por fim, matá-las. A noção se difundiu bastante no século XX, com os chamados filmes “exploitation”, de baixo orçamento (e ainda mais baixa qualidade), muitos deles retratando a mulher vampira em um lesbianismo pervertido e fetichizado – um verdadeiro desserviço à comunidade LGBTQ+. Recentemente, entretanto, a história foi readaptada em uma releitura moderna e inclusiva, a websérie canadense Carmilla. Nesta adaptação, Laura é uma estudante universitária de 19 anos que investiga estranhos assassinatos de jovens no campus de sua faculdade, após o desaparecimento de sua colega de dormitório. Os episódios foram postados no Youtube entre 2014 e 2016 (é possível encontrar alguns legendados em português por aí), e a série ganhou notoriedade por sua representação positiva de personagens femininas e LGBTQ+.

LOUCOS ANOS 20

Às vésperas da Grande Depressão, a literatura da década de 1920 também tem personagens LGBTQ+ figurando entre suas grandes obras.



Em O Grande Gatsby, icônica obra de 1925 escrita por F. Scott Fitzgerald, acompanhamos o ponto de vista do escritor Nick Carraway, fascinado pelas festas suntuosas promovidas por seu vizinho, o magnata (e verdadeiro protagonista da trama) Jay Gatsby, que serve ao narrador (e a nós leitores) como porta de entrada para um universo libertino repleto de jazz, gangsters e champanhe. Isso quase todo mundo já ouviu falar, é fato. Pouco comentada, entretanto, é a bissexualidade de Nick, apontada no Capítulo 2. A cena é o fim de uma farra promovida pelo marido de sua prima Daisy, Tom Buchanam; entre os convidados, o fotógrafo McKee.

“Então o sr. McKee virou-se e saiu pela porta. Peguei meu chapéu e saí atrás dele.
– Venha almoçar conosco um dia desses – ele sugeriu, enquanto descíamos pelo elevador.
– Onde?
– Qualquer lugar.
– Mantenham as mãos longe da alavanca – reclamou o rapaz do elevador.
– Desculpe-me – disse o sr. McKee, com dignidade – Não sabia que estava tocando nela.
– Tudo bem – concordei eu – Seria um prazer.
… Eu estava parado ao lado da cama dele, e ele estava sentado no meio dos lençóis, só de cuecas e camiseta, com uma grande pasta de fotografias entre as mãos.” (Edição: L&PM Pocket, pgs. 46-47)

A sutileza reside nos detalhes: na versão em inglês, “descíamos pelo elevador” aparece escrita como “as we groaned down the elevator”, em que o verbo “groan” (gemer) possui visível duplo sentido. Ainda no idioma original, a alavanca (“keep you hands off the lever”) figura como um trocadilho fálico, no momento em que o sr. McKee convida Carraway para visitá-lo. O mais evidente, contudo, é a descrição do narrador ao lado do fotógrafo, que veste apenas camiseta e cuecas, enquanto este lhe mostra seu portfólio, indiretamente apontando que passaram a noite juntos. Como toda boa história com personagens complexos, contudo, este pequeno fato é narrado com naturalidade como apenas uma dentre as muitas experiências de Nick com a elite novaiorquina, sem alardes.

Orlando, publicado por Virginia Woolf em 1928, trata da transsexualidade de sua personagem-título recorrendo a um lirismo anacrônico. Orlando é um nobre inglês do século XVI que vive até os trinta anos em um corpo masculino; até acordar com um corpo feminino em uma comunidade cigana nômade e deparar-se com pressões e limitações que lhe eram estranhas à vida anterior. Não se assusta, entretanto, em viver como mulher daquele dia em diante, pois sua memória e suas experiências ainda permanecem intactas. Com sua aparência andrógina, a personagem transita entre os esteriótipos de gênero construídos socialmente, distinguindo-se externamente apenas pelas roupas “femininas” ou “masculinas” que esteja vestindo no momento. A trama termina em 1928, como uma metáfora para as vidas que um indivíduo é capaz de levar em uma única vida.

Gostaria de continuar essa lista, porque ela não é pequena. A variedade de personagens LGBTQ+ espalhados pela literatura universal, aliada aos atuais títulos publicados (dentro ou não da temática) é pra soterrar qualquer argumento conservador. Temos como clássicos modernos, ainda, os famosos vampiros de Anne Rice e Lisbeth Salander, da saga Millenium de Stieg Larsson. Só com os exemplos que não citei, seria possível fazer um post inteiro. Então termino este aqui com um pensamento bastante encorajador: se ganhasse uma moeda por cada personagem (ou autor) LGBTQ+ presente na literatura, nem precisaria fazer uma lista de desejos na Amazon, ou comprar uma passagem para Dubai numa companhia aérea – eu seria dona dos das duas.

VEJA TAMBÉM, PERSONAGENS LGBTQ+ NAS OBRAS DE FANTASIA

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