Resenha: No Tutano do Osso - Bruno A. Oliveira

junho 20, 2017 / Yuri Lima /

A realidade que gostamos de esquecer, de uma maneira que não pode ser esquecida.


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Terminei agora mesmo o livro, então me dê um minuto para vomitar.

...

Já fui ali vomitar. O gosto de bile ainda amarga no fundo da garganta, mas não houve muito o que expelir. Na barriga estava apenas um copo de leite meio azedo que tomei no início da noite de ontem depois de passar duas horas em um ônibus lotado que cheirava a mijo e suor. E onde baratas andavam no teto, com menos medo do mofo instalado ali do que algumas pessoas que o tocavam numa tentativa de apoio, pouco antes de limpar o rosto com a mesma mão e...

Oh, estou lhes deixando desconfortáveis? Essa expressão que estou vendo é de nojo? Bem, eu acabei de ler 360 páginas disso e pior, então acho que vocês agora entendem porque fui vomitar ali.

Mas o livro é magnífico.

“Ora, Hyrule, como você pode dizer tudo isso e depois afirmar que o livro é bom?”

Explico.

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O autor, Bruno Araújo Oliveira, apresenta de maneira crua e visceral a história de duas gerações de uma mesma família, mas que parecem milhões de outras, residentes em uma favela fictícia de Salvador chamada Solama. História essa que serve para retratar abusos e exploração de crianças e adolescentes, violência doméstica e urbana, abuso de poder, vulnerabilidades, desigualdades social e de gênero, entre outras tantas encontradas nas entrelinhas.

Mas vejam bem, esses retratos não são bonitos. Bruno não nos poupa, em momento algum, da verdadeira e cruel realidade que assola os bairros mais pobres desse país. Descrevendo tanto o cenário quanto os personagens de maneira abjeta e imoral, nos é passado a odiosa sensação de sujeira, melancolia e imutabilidade. Há anos que a realidade é assim e não existe esperança de melhora, é isso que esse livro nos diz.

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Para estômagos fortes, as cenas são detalhadamente descritas, desde as casas e muquifos até as cenas de estupros de mulheres e crianças. O vocabulário não é amenizado, palavrões e regionalismos são utilizados a todo o momento com a intenção de fazê-lo sentir-se no meio daquelas pessoas e o quão degradante são suas vidas. O próprio nome da favela faz referência à vida dos moradores que vivem “só lama” quando na chuva, mas que o autor conta, sem nenhum eufemismo, que a lama na verdade é lixo, mijo e cocô de cachorro.

A estrutura narrativa utilizada, apesar de interessante e coerente pro livro, não ajuda o leitor e leva um tempo até se acostumar. Os capítulos são alternados de acordo com os personagens e, ao que tudo indica inicialmente, as histórias parecem não ter nenhuma conexão entre si. Além disso, os diálogos são incorporados ao corpo do parágrafo e não determinam quem está falando no momento, sendo por vezes interrompidos por ações de outros personagens que são explicadas apenas pelo diálogo, sendo uma leitura muito mais interpretativa do que expositiva. Ao final do livro, tudo pode começar a fazer sentido e as conexões podem começar a acontecer.

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“Iury, depois de tudo isso você realmente espera que leiamos esse livro?”

Sinceramente, espero que sim.

Perceba meu caro, que apesar de tudo o que falei eu não disse que essas características são ruins. Tudo que o autor faz, ele faz de forma deliberada e competente. Obviamente, o livro não é para todos os leitores. Eu, por exemplo, me senti extremamente desconfortável lendo esse livro e provavelmente teria parado a leitura nas primeiras cem páginas, não pela qualidade do livro, mas pela forma como o tema é apresentado.

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Bruno é baiano, formado em Sociologia e Doutorando em Ciências Sociais e ele apresenta e promove discussões a respeito de temas extremamente fortes, mas que não são ficcionais. Se você está lendo esse texto agora, a sua realidade é diferente de milhões de brasileiros e muitas vezes esquecemos como somos afortunados por simplesmente dormir sob um teto. E esse livro nos apresenta a realidade que gostamos de esquecer e ignorar, e ele faz isso de uma maneira que não pode ser esquecida ou ignorada.

Apesar de nunca mais querer ler esse livro na vida, creio que jamais esquecerei o que li.
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No Tutano do Osso
Autor: Bruno A. Oliveira
Editora: Chiado
Ano: 2016
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04 Estrelas
No Tutano do Osso é um romance sobre a saga de dor e martírio de uma família que, ao longo de duas gerações, é castigada no seu cotidiano por decisões tomadas em um passado contingente já muito esquecido. Tendo a cidade de Salvador como pano de fundo, e uma favela imaginaria – Solama – como centro narrativo de sua trama, a vida dos membros desta família transcorre num jogo de espelhos que reflete e distorce por conta dos efeitos ampliados de um passado que insiste em se fazer presente. Através de uma narrativa cruel e seca as personagens principais do romance, como que fantasmas, jamais têm os seus nomes revelados ao longo de uma trama tensa e aparentemente desordenada, porém nunca gratuita. Tal como uma herança maldita, o abandono desesperançado alimenta as histórias individuais de cada personagem, que vão se entrecruzando na trama narrativa. Numa aura desoladora de possibilidades, o caos e a impotência frente à vida bruta são os elementos através dos quais se busca uma linha de fuga do abuso e da violência.
Autor: Bruno A. Oliveira nasceu na cidade de Paripiranga, sertão da Bahia, mas vive, esde os dois anos de idade, na cidade de Salvador. “No Tutano do Osso” é o seu primeiro romance, escrito no ano de 2013. Escritor e cientista social, atualmente está em fase de conclusão de seu segundo romance e envolvido nas atividades de sua pesquisa de doutorado sobre trajetórias de via e candomblé no sistema prisional. Publicou em 2013 o livro “Presos na Fé”, resultado de sua pesquisa de mestrado sobre a presença de cultos evangélicos no sistema prisional.

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