LGBTQ+ Nos Quadrinhos

julho 03, 2017 / Thyago Costa /

As muitas cores da Nona Arte




“A diversidade está acabando com os quadrinhos”, quantos de nós já não lemos ou ouvimos essa sentença falaciosa no meio nerd? Em uma mídia tão grandiosa e rica em enredos e personagens, a questão da diversidade ainda é, infelizmente, tratada com preconceito na maioria das vezes (principalmente no meio mainstream). Os fãs intolerantes torceram o nariz quando Steven Rogers se aposentou e passou o manto para Sam Wilson (o antigo Falcão), quando Thor se tornou indigno e o Mjolnir escolheu Jane Foster como sua nova portadora, quando Alan Scott – o Lanterna Verde da Terra 2 - no rebbot dos Novos 52 assumiu ser gay, quando versões de outra realidade de Hércules e Wolverine eram um casal e até mesmo na “revelação” de que a Mulher Maravilha era bissexual.

Dentre as partes incluídas na diversidade, os temas LGBTQ+ são um conceito “relativamente novo” na Nona Arte, basicamente pela omissão de seus temas até 1989. O grande responsável por isso foi o famigerado “Comics Code Authority (CCA)” – criado em 1954 como resposta ao livro “Seduction of the Innocent” de Frederic Wertham, cujo qual afirmava que os quadrinhos influenciavam negativamente as crianças com artes violentas e sexuais, apontando também a influência homossexual subliminar presente nas histórias (???). Para ter uma noção, Wertham afirmou em seu livro que a força e a independência da Mulher-Maravilha tornaram ela lésbica e que o tipo de histórias do Batman e Robin poderiam estimular as crianças a terem fantasias homossexuais.


Arte: Rand Holmes

Os autores tiveram que caminhar sobre ovos para não serem apanhados pela censura, usando interpretações sutis ao apresentarem seus personagens. Outros autores recorreram aos quadrinhos undergrounds, começando nos anos 70, para exporem suas ideias fora do alcance do CCA. Dentre as publicações alternativas, destacou-se em 1980 a revista “Gay Comix”, criada por Howard Cruse, apresentando trabalhos de autores e artistas LGBT, contendo muitos materiais autobiográficos tanto sobre seus amores como sobre a repreensão em suas vidas. Com o passar dos anos o CCA começou a perder forças, e abrindo caminhos para uma maior integração do tema nas grandes editoras mainstream (Marvel e DC).

Na DC Comics:

Como exemplos temos Camelot 3000 que em 1982 já começou a abordar a identidade de gênero (Sir Tristan, por exemplo, reencarnou no corpo de uma mulher). Em 1984, Marv Wolfman e George Perez criaram o personagem Jericó (filho de Slade Wilson, o Deathstroke) para os Jovens Titãs, que em ideias iniciais seria um personagem gay, porém Wolfman achou que era um estereótipo demasiado, aonde Jericó fosse sensível, artístico e de feições afeminadas mas também fosse gay. Atualmente, durante o DC Rebirth, Jericó foi confirmado como bissexual. Em 1988, Steve Englehart e Joe Staton criaram Extraño, na revista Millennium da DC Comics, o primeiro personagem abertamente gay. Porém, sua recepção não foi nada satisfatória (ao começar pelo nome que significa Estranho, em espanhol), afinal era um produto de todo o estereótipo da época ligado a uma pessoa homossexual, inclusive ser um portador do vírus HIV.


Fonte: bleedingcool.com

Na clássica obra Sandman (1989) de Neil Gaiman, fomos apresentados para diversos personagens LGBT, como Hal Carter, o transformista que ajuda Rose no arco “Casa de Bonecas”; o bissexual Coríntio, um cruel pesadelo criado por Morpheus; a transexual Wanda, que foi a personagem LGBT mais bem desenvolvida em toda a série, onde seus sonhos e sua luta se tornaram um dos mais comoventes do quadrinho; e não poderia deixar de mencionar a(o) Desejo, a personificação do conceito Queer. Outra obra que inclui personagens LGBT foi Doom Patrol, explorando principalmente temas transexuais, como a personagem transexual e bissexual Kate Godwin (conhecida como Coagula).


Desejo(personagem) por Bluefooted

Em 1992, na revista Hellblazer, John Constantine já deixou algumas sugestões sobre sua sexualidade, porém foi em 2002, no arco “Cinzas e Pó na Cidade dos Anjos”, que tivemos uma confirmação clara sobre a bissexualidade de John (se analisarmos de uma maneira mais ampla, até mesmo em 1988, durante a fase de Jamie Delano, já tínhamos alguns indícios de sua bissexualidade).


Fonte: gayleague.com

Em 1998 o escritor Warren Ellis nos apresentou Meia-noite e Apolo, o casal mais emblemático das histórias em quadrinhos. Sendo um paralelo a Batman e Superman, a dupla apareceu pela primeira vez em Stormwatch, e posteriormente ganhou um maior destaque em The Authority. Um era o maior lutador estrategista do mundo, o outro era um poderoso ser com o poder do Sol, e juntos se amavam acima de qualquer coisa. O casamento deles foi uma das cenas mais lindas e fantásticas dos quadrinhos na época.


Apolo e Meia-noite(Personagens)

Em 2011, durante o reboot dos Novos 52, a personagem Kate Kane (Batwoman) ganhou um título próprio, se tornando a primeira personagem LGBT a ganhar uma série mensal na DC Comics. Kate é lésbica, e seu relacionamento com Maggie Sawyer fora muito bem abordado na revista. Infelizmente, em 2013, a DC não autorizou os escritores J.H. Williams III e W. Haden Blackman em retratar o casamento de Kate e Maggie. A dupla abandonou a revista, para a tristeza e revolta dos fãs com a editora.


Também em 2011 fomos apresentados ao Lanterna Verde da Terra 2, Alan Scott, que no reboot dos Novos 52 era gay. Uma mudança que fez os “fãs” antigos chiarem demasiadamente, mas que se mostrou uma escolha bem plausível e interessante. Na história, Alan ganhou os poderes de Lanterna Verde (que aqui na Terra 2 não tem ligação com os anéis da Tropa dos Lanternas Verdes, mas sim uma força mística que abraça o Verde da Terra) após um acidente de trem que vitimou seu namorado Sam.


Alan Scott (personagem) | Fonte: dccomics.com

Em 2015 Selina Kyle, a Mulher-Gato (uma das personagens mais conhecidas da editora), foi confirmada como bissexual. Além disso a DC Comics confirmou que Harley Quinn e Hera Venenosa são namoradas e possuem um relacionamento aberto, algo que muitos fãs já especulavam.


Fonte: cdn.bleedingcool.net

Na Marvel:

Os X-men são uma equipe que durante anos abordou temas contra a intolerância e o discurso do ódio, e muitos personagens LGBT foram incluídos na equipe. Dentre eles é inegável que Estrela Polar (Jean-Paul Beaubier), membro da equipe Tropa Alfa e posteriormente dos X-men, seja o maior personagem gay criado pela Marvel. John Byrne, criador do personagem, informou que o mesmo seria retratado como gay desde o início, porém houve apenas poucas insinuações. Foi só em 1992 que o personagem foi declarado abertamente gay e em 2012 ocorreu seu casamento com Kyle Jinadu, sendo um dos maiores eventos da editora no ano, e também o primeiro casamento gay retratado em um quadrinho mainstream.


Ainda no universo mutante poucas pessoas sabem, mas Mística – a grande vilã de pele azul e líder da Irmandade dos Mutantes - é bissexual. Ela e a vidente Destino tiveram um relacionamento duradouro, foram mães adotivas da x-man Vampira. O roteirista Chris Claremont, queria que a personagem tivesse engravidado a mãe de Vampira ao se transformar em homem, todavia a Marvel não autorizou a publicação dessa história por causa da CCA ainda vigente na época.

Em 2015 o jovem Homem de Gelo (a versão mais nova que veio do passado para o presente) fica confuso em saber que sua versão adulta não é gay, mas ele sim. O personagem então especula que, por sofrer preconceito por ser mutante, a versão adulta dele tenha reprimido sua orientação sexual. Foi em 2016 que a versão adulta do Homem de Gelo confirmou o pensamento de seu eu jovem, e assim confirmando sua homossexualidade.


Um outro personagem que movia muitas especulações dos fãs era o Deadpool (Wade Wilson), pois muito acredita-se que o mesmo seja pansexual. Os autores Gerry Duggan e Gail Simone, assim como Terry Miller (o diretor do filme do Deadpool) abraçaram a teoria, apesar de não ter um pronunciamento oficial da editora sobre.

Em 2005 a revista Jovens Vingadores apresentou o relacionamento dos incríveis Hulkling e Wiccan, o primeiro é um alienígena (metade Kree, metade Skrull, duas raças aliens da Marvel) e o segundo é mutante com poderes eletrocinéticos e mágicos. A sexualidade dos adolescentes foi criticada por alguns leitores, mas imensamente defendida pelos criadores, se tornando um dos casais mais bem trabalhados na editora.


Arte: Cris'12

Cada dia mais e mais personagens LGBTQ+ surgem nos quadrinhos, com boas histórias para um importante passo contra a intolerância. A indústria da Nona Arte vive de mudanças, e são elas que fazem esse mercado não parar de vez, e cabe a nós darmos oportunidades para que a diversidade continue ganhando seu espaço.

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