Resenha: As Garotas: Emma Cline

julho 21, 2017 / Redação SOODA /

Inspirado nos movimentos trangressores dos anos de 1960, a história faz uma reflexão de como o machismo está instaurado na sociedade, mesmo nos ditos movimentos de liberdade.




Se hoje, os movimentos feministas, LGBT´s, contra o racismo, entre outros, tem ganhado grande força. Muito se deve aos movimentos de contracultura ocorridos no final de 1960, inicio dos anos de 1970. Alguns conhecem esse período como movimento Hippie. Jovens avessos ao grande conservadorismo ainda instaurado na sociedade à época passaram por um forte momento de enfrentamento a cultura dominante. Nessa época, surgiram muitas, comunidades, além dos festivais. O mais conhecido deles, ocorrido em 1969, foi o Woodstock.

Mas até onde essa "independência" social transformou à sociedade a época? Será que casos de machismo, homofobia e racismo ocorriam nesses locais? Baseado, na história do Serial Killer Chales Manson e a sua comunidade. Emma Cline coloca em questão até que ponto esses momentos foram realmente trangressores, ou uma nova forma de reprodução do machismo com o nome de "liberdade".



A obra retrata a história de Evie Boyd, uma senhora de meia-idade que ao encontrar com alguns jovens que estão em sua residência começa a fazer a reflexões sobre à sua vida em 1969, quando ela tinha apenas 14 anos de idade.

Inicialmente Evie retrata a mediocridade que era a sua vida. Estudante do ensino médio, com uma amiga que ela até gostava bastante, os pais que haviam se separado e sem perspectivas. Ela se sentira bastante incomoda com o modus operandi daquela sociedade, onde os "machos" tinham força e poder sobre as mulheres. Onde, as jovens criavam teorias mirabolantes de que os relacionamentos são jogos e que no final das contas, os caras só queriam transar.

O estopim dessa mediocridade se deu quando um rapaz começa a toca-la sexualmente e no outro dia acaba indo embora, deixando-a "nervosa" com toda aquela situação. Depois disso, ela acabou brigando feio com a amiga. Ao retornar pra casa, ela encontra um grupo de garotas, liderada pela Suzanne, no qual ela tinha visto dias atras e sentia que elas podiam dar, aquilo que ela nunca sentira antes: "Liberdade".



Suzanne e as garotas levam-a até o rancho que ficava num local afastado da cidade. Lá ela é levada ao mentor desse rancho, o Russel. Um cara, com um poder de oratória e convencimento muito grande, e que era envolvido por uma aura "única". Todas as garotas do rancho, acabara por venera-lo de uma maneira estrondosa. Ele, ainda tentara se lançar no mundo da música. E para isso, teria ao lado, um produtor de uma gravadora que estava tentando conseguir um espaço para ele.

Entre drogas, sujeiras e aquela "sensação de liberdade" Evie aos poucos percebe que os homens que estão naquele local, apesar de serem envolvidos pela "aura da liberdade sexual", na verdade, acabava por subjuga-las, fazendo com que elas trabalhassem para eles de modo "voluntário", utilizando-se da ideia da seita e de que elas precisavam se desprender do mundo exterior. do capitalismo.

Mesmo na posição de saber que aquilo não era exatamente o certo. Evie continuara no rancho, inclusive, praticando, alguns furtos em sua própria residência. A questão é que ela não estava lá exatamente pela aura do Russel, apesar de sofrer abusos sexuais e psicológicos dele, mas por outra pessoa. Isso impedira dela sair daquele meio, mesmo quando as coisas começam a se complicar, e aquela situação de "paz e amor" que estava chegando ao fim, tendo em vista que o mentor daquele local não estava conseguindo atingir seus objetivos. As coisas iam piorar.



Enquanto a história esquenta a temática do machismo no interior desse movimento se torna cada vez mais forte, o que era uma realidade. Na verdade, isso é uma realidade até os dias de hoje. Inclusive, um conceito bastante utilizado para essas pessoas são os "esquerdomachos", que são homens "desconstruídos", porém como uma fonte enorme de machismo em suas atitudes. Utilizando-se do movimento para reproduzir suas escrotidões, o que particularmente, acho que isso é um pouco pior.

O livro acaba nos jogando numa sensação de quase total desesperança em termos de como a sociedade se apresenta. Eu digo, quase, porque acredito que o relacionamento entre a Evie e a Suzanne é uma espécie de fuga desse modus operandi, como se a união das mulheres pudesse ajudar de alguma forma para movimentar esse sentimento.

A história chega ao seu final, com acontecimentos que fazem refletir em mudanças de perspectivas e de que mesmo, que Evie não consiga sair daquela situação imposta pela sociedade, nós como espectadores podemos. É uma história sobre sonoridade, união e cuidado para não se deixar levar por discursos que não sigam o mesmo caminho da prática.

Ps. Essa resenha foi escrita por um homem Cis Gay, no qual está numa visão privilegiada em relação a mulher. Nesse sentido, recomendamos fortemente que leiam ou vejam resenhas escritas por mulheres. Veja uma das resenhas que gostei bastante.


As Garotas (The Girls)
Autora: Emma Cline
Editora: Intrinseca
Ano: 2017
Skoob: 3,8 Estrelas/ Goodreads: 3,49 Estrelas
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4 Estrelas
No final da década de 1960, a jovem Evie Boyd vive sozinha com a mãe no norte da Califórnia. Aos quatorze anos, imersa em inúmeras questões de autoaceitação, ela se sente muito desconfortável com o próprio corpo e tem apenas uma pessoa com quem contar: Connie, sua amiga de infância. No início do verão, uma briga faz com que as duas se afastem, e Evie encontra um novo grupo: garotas que demonstram extrema liberdade, usam roupas desleixadas e emanam uma atmosfera de abandono que a deixa fascinada. A jovem logo percebe que já está sob o poder e o domínio de Suzanne, a mais velha do grupo, e acaba entrando em um culto sombrio, liderado pelo carismático Russell Hadrick.
O rancho do grupo é um lugar estranho e decadente, mas, aos olhos da adolescente, parece exótico, com uma energia singular. Evie descobre que as garotas cozinham, limpam e prestam até mesmo serviços sexuais para Russell, que proclama um desejo de libertar as pessoas do sistema. Evie quer apenas ser aceita pelos outros integrantes, principalmente por Suzanne. É sua chance de se sentir amada e pertencente a algo. Conforme sua obsessão por Suzanne se intensifica, ela não percebe que se aproxima de uma violência inacreditável. Contada por Evie já adulta e ainda abalada, a narrativa é um impressionante retrato de garotas que se tornam mulheres.
Denso e de ritmo surpreendente, o romance de estreia de Emma Cline é escrito com precisão e perspicácia ao construir os perfis psicológicos dos personagens. As garotas aborda mais que uma noite de violência – é sobretudo um relato do mal que causamos a nós mesmos e aos outros na ânsia por pertencimento e aceitação.
Autora: Emma Clinne é californiana e "As Garotas" é o seu primeiro livro. Acredita-se que antes mesmo do lançamento os direitos da obra foi adquirido por U$ 2 Milhões, uma valor substancialmente alto para a estreia de um autor no mercado norte americano.

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