Resenha: O Bazar dos Sonhos Ruins - Stephen King

julho 28, 2017 / Rafael Lutty /

Entre no bazar e tente sair vivo. Essa não é uma tarefa fácil quando o dono do bazar é Stephen King


resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

“Às vezes, eu penso que um livro de contos é na verdade uma espécie de diário onírico, uma forma de captar imagens do subconsciente antes que desapareçam por completo. ” (Stephen King)

E mais uma vez estou aqui para falar sobre Stephen King, de quem eu sou declaradamente fã e leitor assíduo. O livro da vez é “O Bazar dos Sonhos Ruins”, e eu já vou começar escrevendo aqui que este livro foi realmente uma fábrica de pesadelos no meu caso. Não que eu me assuste fácil, depois de uma parte da vida lendo livros de terror/horror você acaba se acostumando com algumas bizarrices, mas eu senti o impacto dessa leitura. Então vamos lá.

Este é um livro de contos, antes de cada conto, King comenta sobre o contexto em que estava quando escreveu cada uma das histórias e isso é um manjar para os fãs do autor, pois o livro acaba por construir uma biografia de King ao longo de cada comentário.

Conhecido por seus romances assustadores como IT, Dança da Morte, O Iluminado, entre outros, King é um contista nato, seus contos funcionam como uma oficina em que você consegue perceber todo o processo criativo e todas as características de escrita do autor. Em “O Bazar dos Sonhos Ruins” não é diferente, por ser uma antologia de contos escritos em diferentes épocas, pode-se perceber um autor com diferentes influências e se utilizando de várias formas de escrita.

resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

Em suas mais de 500 páginas, o livro reúne 18 contos do autor (e dois poemas). E para não estragar a surpresa (e não deixar esta resenha enorme, o que faria o chefe do blog surtar), vou comentar aqui alguns dos contos que mais me impactaram no livro.

Milha 81
O primeiro deles vai ser, também, o primeiro conto do livro. Este conto foi escrito por King quando o autor tinha 19 anos de idade e reescrito para esta coletânea. Originalmente o conto se chamava “Milha 85” e nunca foi reescrito ou publicado pois King o perdeu. Nos comentários deste conto, King nos conta que, quando jovem, era envolvido com drogas e o uso frequente do LSD o fez perder muitas coisas. Ele reescreveu o conto da maneira mais fiel ao original.

Milha 81, é um conto sobre um carro estacionado em uma rodovia pouco movimentada e distante de tudo. Abandonado e todo enlameado, o carro atrai a curiosidade de alguns dos poucos motoristas que trafegam pela rodovia e acabam parando afim de prestar ajuda já que se trata de um ponto distante da cidade. Esta é armadilha perfeita para que o carro consiga devorar quem se atreve a encostar nele. E quando eu digo “devorar”, eu quero dizer literalmente.

resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

Eu nunca fui do tipo de pessoa que simpatiza com histórias de carros assassinos e/ou possuídos, mas preciso confessar que este conto me fez deixar a luz acesa. A premissa é simples, o ponto de destaque do conto é a descrição que o autor dá a cada um dos ataques. Se você tem dificuldades de imaginar cenas, este conto vai dar a descrição detalhada de como um carro come toda a carne da mão de um homem, e como o barulho de ossos quebrados pode ser descrito de maneira quase audível, só para exemplificar.

Outra coisa a se destacar em Milha 81, são as referências que King utiliza na história. É possível encontrar uma referência direta ao filme Christine que é a adaptação do livro homônimo do autor. Outra referência que talvez não fique muito clara para os menos curiosos é à HQ “Locke&Key”, com artes de Gabriel Rodriguez, e roteiro de Joe Hill que é filho de Stephen King, e também autor. O leitor vai encontrar até referências à Harry Potter.

Confesso que o final do conto não é grande coisa, porém eu acredito que finais são superestimados. Se a construção geral da obra for boa, não se deve colocar todas as expectativas apenas na conclusão não é mesmo?

Quase não havia dedos sobrando. Ele só via os cotocos, as primeiras falanges unidas à palma. O resto tinha sido engolido pela porta, de alguma maneira. Enquanto olhava, seu terceiro dedo se quebrou. A aliança caiu e se estalou no chão. (KING, Milha 81)

A Duna
Este é um conto que merece destaque. Com um final considerado um dos melhores, pelo próprio King, A Duna é um conto sobre um juiz idoso que acerta os preparativos de seu testamento com o advogado. E é nesta conversa que ele decide contar sua história com uma pequena ilha. A ilha é o lar de uma estranha duna que funciona como uma espécie de Death Note, sendo que os nomes escritos na areia, surgem misteriosamente. As pessoas a quem os nomes pertencem, morrem pouco tempo depois, em acidentes trágicos.

Influenciado pelo autor inglês William Fryer Harvey, mais conhecido por suas histórias curtas de terror/horror, King constrói um conto que flui de maneira simples com dois personagens e uma única cena. Seja contando a história de toda uma cidade em diferentes épocas, e com vários personagens relevantes (como em IT) ou narrando a agonia de uma história com apenas dois personagens (como em Misery), o autor consegue prender o leitor com a expectativa de um suspense que cresce nas entrelinhas da história.

resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

Garotinho malvado
Na história acompanhamos os relatos do prisioneiro George Hallas, condenado à morte pelo assassinato de um garotinho, para seu advogado Leonard Bradley. A história contada é sobre como um garotinho, aparentando 6 anos de idade, persegue Hallas desde sua infância e sempre causa a morte de pessoas queridas por ele. O garoto sempre aparece com a mesma idade para Hallas, em diferentes épocas de sua vida, e suas aparições sempre são seguidas de tragédias.

A partir da segunda aparição do garotinho ruivo, usando um chapéu com uma hélice de plástico, fica claro para o leitor que a criança é um ser sobrenatural. Conforme as memórias de Hallas vão sendo descritas para Bradley, acompanhamos uma história tensa, triste e misteriosa.

Assim como a maioria dos outros contos nesta coletânea, “Garotinho Malvado” exemplifica o talento de King para escrever histórias com poucos personagens, um único cenário e a fluidez de um texto que carrega suspense em cada linha. Embora a aparição do garotinho seja construída de maneira sobrenatural, suas ações estão no plano da realidade, isso mostra que a maldade humana pode ser (e muitas vezes é) mais assustadora do que as ações de monstros fictícios.

resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

King escreveu o conto, imaginando como seria um garoto que fosse naturalmente mal, não por ser literalmente o filho do demônio, ou por possuir poderes sobrenaturais, mas que fosse humanamente cruel. O resultado é mais um personagem do autor, que demonstra o quanto somos suscetíveis à maldade, o quanto uma palavra carregada de veneno pode causar tragédias irreversíveis, e o quão frágil pode ser o nosso conceito ético diante de diferentes contextos.

Vida Após a Morte
O Conto “Vida Após a Morte” surgiu de questionamentos de King sobre o além morte. Todos nós passamos – ou iremos passar – por momentos em que nos perguntamos o que existe no pós-vida. Seria o céu? O inferno? Praias Brancas? Uma estação de trem? A verdade é que não sabemos, e aqueles que sabem, não retornam para nos contar (e eu estou feliz por não retornarem mesmo).

Sem respostas para estas questões que acompanham o homem desde seus primórdios, temos apenas histórias fictícias (várias) sobre o que nos aguarda depois do “aqui jaz”. A história de King mostra o que William Andrews, um banqueiro, encontra após sua morte e as escolhas que ele precisa fazer.

O conto é uma história simples, com um início lento e com alguns parágrafos enfadonhos. O ponto de destaque da história são os questionamentos que transcendem as páginas e impregnam na mente do leitor. E se eu pudesse viver minha vida novamente? Faria a mesma coisa? Cometeria os mesmos erros? Essas questões são universais e basta um gatilho para que vários minutos sejam investidos nestas reflexões, um gatilho que King conhece e sabe explorar.

Eu poderia dar mais detalhes sobre outros contos como “Obituários”, vencedor do Edgar Allan Poe Awards na categoria de Melhor Conto, ou “Uma Morte”, que nos mostra que o culpado pode não ser quem a gente acha que é (ou pode). Mas eu acredito que contos são como caixas misteriosas que você precisa abrir a seu próprio risco.

resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King

Em “O Bazar Dos Sonhos Ruins”, Stephen King presenteia seus leitores com muitos relatos biográficos e coloca seus personagens em constantes encontros com a morte. Como em seus outros livros de contos, o autor desfila na passarela do horror suas principais características de escrita, bem como sua excelente construção narrativa capaz de prender até os mais desinteressados.

A edição da Suma de Letras dispensa comentários, os livros do autor sempre recebem uma atenção especial, a revisão é excelente, o projeto gráfico então, nem se fala. O livro é realmente lindo.

Como fã do autor e leitor cativo de suas obras, eu indico “O Bazar dos Sonhos Ruins” para quem nunca leu nada de Stephen King e decide se aventurar por terras macabras. Só não esqueça de levar uma lanterna e muita coragem. Você vai precisar.
resenha O Bazar dos Sonhos Ruins, resenha Stephen King, O Bazar dos Sonhos Ruins Stephen King, suma das letras Stephen King, contos Stephen King
O Bazar dos Sonhos Ruins (The Bazaar of Bad Dreams)
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Ano: 2017
Skoob: 4.2 Estrelas / Goodreads: 3.93 Estrelas
Compre Aqui ♥
05 Estrelas
Mestre também das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil. E, antes de cada história, o autor faz pequenos comentários autobiográficos, revelando quando, onde, por que e como veio a escrever (ou reescrever) cada uma delas.
Temas eletrizantes interligam os contos – moralidade, vida após a morte, culpa, os erros que consertaríamos se pudéssemos voltar no tempo... Alguns são protagonizados por personagens no fim da vida, relembrando seus crimes e pecados. Outros falam de pessoas descobrindo superpoderes – como o colunista em “Obituários”, que consegue matar pessoas ao escrever sobre a morte delas; ou o velho juiz em “A duna”, que ainda criança descobre uma pequena ilha onde nomes surgem misteriosamente na areia – nomes de pessoas que logo morrem em acidente bizarros.
Incríveis, sinistros e completamente envolventes, essas histórias formam uma das melhores obras do mestre do terro, um presente para seus leitores fiéis
Autor: Stephen King era um leitor fanático dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola, ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar. De 1966 a 1971, Stephen estudou Inglês na Universidade do Maine em Orono, onde ele escrevia uma coluna intitulada "King's Garbage Truck" para o jornal estudantil, o Maine Campus. Ele conheceu Tabitha Spruce lá e se casaram em 1971. O período que passou no campus influenciou muito em suas histórias, e os trabalhos que ele aceitava para poder pagar pelos seus estudos inspiraram histórias como "The Mangler" e o romance "Roadwork" (como Richard Bachman).

Recomendado Para Você

0 comentários

Comente com o Facebook

Instagram