Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno - Mary Shelley

julho 31, 2017 / Clara Giane /

Publicada há quase duzentos anos, a obra máxima de Mary Shelley retorna para desafiar novos leitores


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Tenho uma ligação muito pessoal com Frankenstein. Meu primeiro contato com a obra foi há dois anos. À época, eu estava determinada a devorar boa parte do cânone dos romances góticos clássicos. Nenhum de seus respectivos autores, contudo, despertou tanto minha curiosidade como Mary Shelley – muitos de vocês conhecem, nem que seja por alto, um pouco sobre sua vida e importância na literatura de horror (e nem vou começar a discorrer sobre como a mulher praticamente projetou a ficção científica tal como a conhecemos). Filha da pioneira feminista Mary Wollstonecraft e do filósofo William Godwin, esposa do poeta Percy Shelley (cujo nome não é estranho a quem tenha acompanhado Penny Dreadful) e amiga próxima de ninguém menos que Lord Byron, Mary Shelley consegue transcender a todos estes nomes em popularidade. Apontá-la como um símbolo feminista moderno é reafirmar o óbvio. Desta forma, não é difícil imaginar o impacto que sua figura me causou e até hoje causa – o fato de Frankenstein ser um dos livros mais geniais já publicados certamente não doeu. E eu já cheguei a mencionar que o conto de 1816, fruto da célebre competição entre a autora, o médico John Polidori, Percy, além do próprio Byron, no chuvoso verão daquele ano em Genebra – que logo originou a primeira edição da obra, em 1818 –, fora escrita quando esta contava apenas dezoito anos?

Um minuto de silêncio. Uma adolescente de dezoito anos idealizou um dos romances inaugurais da ficção científica e literatura de horror.

Como se eu não pudesse admirar essa mulher ainda mais.

Ok, ok, vamos voltar para a programação normal.

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Esta segunda leitura de Frankenstein foi bastante simbólica por dois motivos: o primeiro é que, não apenas o esboço fora escrito no período do verão, como minhas duas leituras (tanto a primeira quanto esta) ocorreram na mesma época de férias; segundo: à data de edição desta resenha, a colaboradora que vos fala conta com a mesma idade da autora quando escreveu seu primeiro esboço da obra. Quem me conhece sabe o quanto Shelley é uma influência central em muito do que escrevo, e o fato desta ter concebido em tenra idade uma história tão aterradora, unindo o conhecimento científico da época a uma sutil (mas poderosa) crítica social, é um baita incentivo para continuar escrevendo, escrevendo, escrevendo até os calos dos dedos formarem calos.

Entre adaptações e referências na cultura pop ao longo das décadas – desde o famigerado filme de 1931 estrelando Boris Karloff até o famoso monstro como um dos chefões do Castlevania do Nintendinho – a premissa básica de Frankenstein é quase sempre a mesma: a relação conturbada entre a criatura e seu criador. Não há, no entanto, a famosa exclamação “Está vivo!”, tampouco o assistente corcunda Igor no romance originário. E, contrariando as subsequentes paródias em torno de criaturas monstruosas cujo intelecto pouco se diferencia do de um zumbi, a obra possui camadas que podem passar despercebidas por aqueles que esperam uma história assustadora pura e simples – o cerne do horror gótico promovido por Shelley, válido alertar, reside justamente nas reflexões levantadas e o que elas significam para nós, leitores.

O enredo se inicia com as cartas do capitão Robert Walton narrando os percalços de uma expedição pelo Ártico, todas endereçadas à sua irmã Margaret, que mora na Inglaterra. Ele é o que chamamos de “decoy protagonist”, isto é, um personagem introduzido inicialmente na trama, levando os leitores a acreditar (seja pela narração, seja pelo ponto de vista) que será o protagonista da mesma. No caso de Frankenstein, contudo, Walton torna-se espécie de intermediário entre nós e a trama principal assim que seu destino coincide com o do verdadeiro protagonista, Victor Frankenstein – sim, Frankenstein é o nome do criador, e não de sua criatura. O gelo logo cerca o navio, isolando-o de qualquer contato, até o momento em que Walton avista uma figura gigantesca cruzando as calotas congeladas em um trenó. Dias depois, outra figura também é avistada em um trenó, tragada pela correnteza. O viajante é Victor, rapidamente socorrido pelo capitão e levado até a embarcação, dado seu grave estado de saúde; uma amizade logo se forma entre ambos, encorajando Victor a narrar o curso de acontecimentos que o levou até aquela paisagem desolada.

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De origem genebrina, Victor Frankenstein descreve uma infância feliz viajando pela Europa junto dos pais. Em uma excursão pela Itália, a família adota como protegida a jovem Elizabeth Lavenza, prima adotiva de Victor e grande amor de sua vida. Os Frankenstein logo estabelecem residência fixa em Bellrive, às margens do lago Genebra, após o nascimento do segundo filho; durante aqueles anos, o jovem Victor desenvolve um crescente interesse pela “filosofia natural” (nome pelo qual as ciências da natureza eram conhecidas à época), revirando livros de alquimia ultrapassados – cujos autores, dentre eles Cornélio Agrippa e Paracelso são continuamente referenciados na obra de Shelley, principalmente em um dos contos inéditos disponíveis nesta edição organizada pela Darkside – tendo como companheiro de brincadeiras Henry Clerval, filho de um comerciante, com quem criara profundos laços de amizade.

Ao completar dezessete anos, Victor ingressa na Universidade de Ingolstadt, na Bavária, para aprofundar seus estudos científicos. Lá conhece o método experimental e se desilude ao perceber que a ciência moderna, calculada e metódica, em muito se distanciara dos ideais grandiosos de seus antecessores alquimistas. O jovem logo recupera o entusiasmo ao encontrar uma nova ambição: construir um ser vivo a partir de pedaços de cadáver e infundir-lhe vida através da corrente elétrica. Frankenstein dedica dias e noites em um fervor quase doentio para a conclusão do projeto. Quando este chega ao fim, contudo, o fervor dá lugar a um intenso sentimento de asco e desespero diante de sua criação.

“Trabalhei com afinco por quase dois anos com o único propósito de infundir vida em um corpo inanimado. Para isso, privei-me do descanso e da saúde. Desejara este projeto com um ardor que em muito excedia minha moderação; mas agora que terminara, a beleza do sonho se desvaneceu, e meu coração estava repleto de desgosto e horror” (pg. 75)

Apavorado com o ser deformado que resultara de seus esforços, Victor sequer lhe dá um nome e a abandona a seu bel-prazer, decidido a rejeitar qualquer coisa relacionada a filosofia natural e a retornar à Suíça. A chegada de Clerval à universidade ajuda-o a recuperar os ânimos e, juntos, planejam animadamente o regresso à terra natal. Mas nada é assim tão simples: através de uma carta de seu pai, Frankenstein toma conhecimento da morte violenta de um ente querido, iniciando uma cadeia de acontecimentos trágicos que o perseguirá pela narrativa inteira. O rapaz descobre, no fim das contas, que o responsável pelas atrocidades é ninguém menos que a criatura que originara. A partir deste momento, o ser narra os anos subsequentes ao abandono de seu criador, e logo mostra que, a despeito de sua horrenda aparência, esconde-se um espírito sensível e desejoso da aceitação do “mundo dos homens”. Os poucos seres humanos que cruzam seu caminho, contudo, retribuem seus atos de bondade com hostilidade, tornando a criatura cada vez mais rancorosa e desiludida para com o mundo. Solitária, esta se vinga de Frankenstein através das mortes de seus familiares, alertando-o de que continuará a atormentá-lo caso este não atenda seu único pedido: que Victor crie uma fêmea de sua espécie, tão monstruosa quanto, para amenizar a solidão. O resto, como dizem, é história.

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Muito se fala a respeito do conceito de humanidade levantado em Frankenstein. O que define o “ser humano”? Quem é o verdadeiro monstro da história? Não seria o próprio Victor, que negara um lar e uma identidade à sua criatura? São questionamentos válidos (principalmente quando levamos em consideração o contexto histórico em que o livro fora concebido), mas há muito mais além. O realismo das personagens não poderia residir na bondade absoluta de um em contrapartida à perversidade absoluta de outro, sustentados pela velha máxima “as aparências enganam”. É precisamente por Victor Frankenstein não personificar o clichê do “cientista maluco” – tão difundido nas diversas adaptações subsequentes –, e por sua criatura não representar o “bom selvagem” puro e simples, que a história é tão rica e complexa. Mesmo a ideia atribuída a Rousseau de que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe – que muitos associam à mensagem da obra de Shelley, e adotada por muitos românticos de seu tempo – não consegue explicar o conflito de Frankenstein com seu “monstro” de maneira completa e satisfatória.

Por quê? Pois bem, passamos boa parte do livro tentando responder a uma pergunta silenciosa: o que define a personalidade de um indivíduo – suas predisposições internas ou o modo como é tratado pelos demais? Muitos apontariam a segunda opção sem pestanejar, mas há algo interessante a se notar: Victor Frankenstein faz questão de reiterar de tempos em tempos para Walton (e, consequentemente, para nós) o quanto sua infância fora maravilhosa (ao ponto de encher o saco, até. Nunca vi um moleque pra ser tão melodramático e mimado, olha…), repleta da atenção daqueles que o amavam. Assim, como um jovem bem-criado e amado desde que nascera seria capaz de conceber uma ideia tão repulsiva como criar um indivíduo a partir de cadáveres e reanimá-lo para abandoná-lo logo em seguida, indefeso como um recém-nascido? Seria uma predisposição doentia, então?

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A resposta não é simples, mas ouso dizer que o jovem cientista, de certa forma, personifica o lado mais obscuro e negativo do romantismo, e sendo a própria Shelley uma escritora romântica, certamente tinha conhecimento de causa. A começar pelo título do livro: “Frankenstein, ou o Prometeu moderno”. Nos mitos gregos, o titã Prometeu fora acorrentado por Zeus e condenado a ter seus intestinos eternamente devorados pelos pássaros após conceder o fogo aos mortais. No excelente prefácio presente nesta edição, é mencionado que Prometeu adquirira o status de herói romântico por sua ousadia em confrontar a autoridade dos deuses. Com Victor, um jovem que aspira grandes ideais (gerar vida onde antes havia apenas um cadáver), embora não possua a responsabilidade para torná-los reais, a autora nos mostra que nem tudo pode ser tão belo ou revolucionário, e que quanto maior a altura, maior a queda. O que precede a empolgação destes ideais? Shelley nos mostra que eles não sobrevivem se são apenas sustentados no calor da emoção. Estes detalhes jogados no ar estão aí para nos mostrar justamente isso: que o ser humano é não é um arquétipo, uma idealização, mas algo essencialmente complicado de definir.

“Em meus pensamentos, entrara o céu, exultando, naquele momento, em minhas capacidades, abrasado pela ideia de seus efeitos. Desde a infância, fui imbuído de grandes esperanças e ambições elevadas, mas como sucumbi! Oh, meu amigo, acaso tivesse me conhecido como fui outrora, não me reconheceria nesse estado de degradação. O desânimo raramente visitava meu coração; parecia amparado por um destino ímpar, até cair para nunca, nunca mais levantar.” (pgs. 216-217)

Um exemplo mais óbvio é a própria criatura: acompanhamos os primeiros dias de vida daquele indivíduo autodidata, que tenta entender de onde veio. Seu primeiro instinto é enxergar a beleza na natureza e nos indivíduos que observa à distância – ao ver uma família interagir entre si com mútua dedicação, a criatura genuinamente acredita que, passada a aversão inicial por sua aparência, seu valor interior prevaleceria. Sua história, entretanto, é composta de sucessivas boas ações retribuídas com aversão. É óbvio concluir que os maus tratos o moldam para torná-lo o monstro assassino que assombra seu criador, e tudo isso não passa de uma repetição, uma mimese; afinal, quase todos os personagens ao longo do livro parecem cometer o mesmo erro de “bater primeiro, perguntar depois”. A criatura retribui a violência inicial de Victor (criá-lo e desprezá-lo), pois nunca conhecera tratamento diverso daquele. Algumas páginas à frente, contudo, percebemos que esta não se sente confortável com as violências que comete, mencionando diversas vezes o quanto aquilo contraria sua natureza. O que comentei anteriormente com Victor, portanto, também vale para o monstro: como ser humano, a criatura está sujeita a praticar atrocidades e bondades como qualquer outro. Não é um santo imaculado, como queriam os românticos (embora certamente tenha sofrido sem merecer), tampouco a fera demoníaca enxergada por aqueles que o atacaram. Nem mais, nem menos. Apenas humano.

O final é belo. Agridoce, mas belo.

Como sempre, é palpável o cuidado da editora com o livro – há a onipresente capa dura (bem como o marcador), as belas ilustrações e o material adicional que inclui uma introdução feita especialmente para esta edição, o prefácio original da edição de 1818 (escrita por Percy Shelley) e a introdução à edição de 1831. Além disso, há ainda quatro contos adicionais que tratam da imortalidade e/ou da reanimação, cada qual à sua maneira – válido ressaltar que todos são inéditos no Brasil, alguns cansativos em termos de narrativa (compreensível, considerando que um deles está inacabado), outros gratificantes. A despeito do projeto gráfico de qualidade, devo confessar que a tipografia das letras dificultou um pouco a leitura – entendo que, como o resto do projeto, a fonte passa aquela ideia de que estamos lendo um livro antigo, o principal charme da edição, afinal. Minha vista cansou, mas talvez outros não passem pelo mesmo desconforto, então deixo apenas como observação.

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Como a obra atemporal que é, Frankenstein merece ser constantemente reeditada e lembrada pelas novas gerações, não apenas por ter sido escrita por uma mulher – uma conquista, por si só – mas por levantar inúmeras questões acerca da consciência humana que continuam atuais após dois séculos, seja nos quadrinhos – com a complicada relação, quase edipana, entre Hank Pym e sua criação Ultron, bem como a deste e sua cria sintozóide Visão nas HQs dos Vingadores de Roy Thomas – seja na ficção científica atual – o conflito entre os escravos Replicantes e dr. Eldon Tyrell, em Blade Runner –, haja vista a popularização dos conceitos de singularidade e inteligência artificial. A trama idealizada por Mary Shelley no verão de 1816 antecipa todas estas discussões, sem jamais se esgotar, em uma trágica (embora sublime) história sobre moralidade, humanidade e, (por que não?) empatia. Àqueles que desejaram ler Frankenstein após esta resenha, só posso desejar que o livro cause um impacto tão forte quanto aquele causado em mim, numa chuvosa semana de férias em 2015.
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Frankenstein, ou o Prometeu moderno (Frankenstein, or, The Modern Prometheus)
Autora: Mary Shelley
Editora: Darkside Books
Ano: 2017
Skoob: 4.4 Estrelas / Goodreads: 3.7 Estrelas
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4,5 Estrelas
Duzentos anos após sua criação, Frankenstein continua vivo – e mais atual do que nunca. Conheça a história original, com toda a sensibilidade e o terror que o cinema nunca conseguiu mostrar. Um cientista obcecado que desafia as leis da natureza e põe em risco a vida daqueles que ama. Uma criatura quase humana que deseja ser um de nós, mas só encontra medo, ódio e morte pelo caminho. A obra-prima de Mary Shelley que deu origem ao terror moderno está de volta, numa edição monstruosa como só a DarkSide Books poderia lançar: capa dura, tradução primorosa, ilustrações inéditas do artista brasileiro Pedro Franz, além de quatro contos extras que versam sobre o mesmo tema do romance. Impresso em duas cores: preto e sangue. Um livro que todos deveriam ler e reler ao longo da vida. A edição definitiva para se guardar para sempre.
Autora: Mary Shelley nasceu em Londres, Inglaterra, em 1797. Filha do filósofo William Godwin e de Mary Wollstonecraft – uma das primeiras defensoras dos direitos da mulher –, recebeu boa educação e foi desde cedo incentivada a desenvolver-se intelectualmente. Em 1816, casou-se com o poeta Percy Bysshe Shelley. Ao lado do marido, frequentara os círculos dos mais importantes nomes do Romantismo inglês, como lorde Byron. Foi na companhia de Byron, inclusive, que teria surgido a ideia de Frankenstein, durante um verão tempestuoso e frio em Genebra. Sua vida foi marcada por dificuldades – problemas financeiros, a morte precoce de três de seus quatro filhos, a perda prematura do marido em 1822. Mary Shelley faleceu em 1851, com 53 anos, em decorrência de um tumor no cérebro.

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