Resenha: A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

julho 04, 2017 / Clara Giane /

Em sua obra mais conhecida, Milan Kundera brinca com pesos e medidas na balança existencial


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Os antigos egípcios organizavam seus ritos de passagem deste plano terreno para o próximo através do chamado Livro dos Mortos. Uma de suas passagens mais conhecidas é o Tribunal de Osíris, que acreditava-se ocorrer na dimensão Tuat, intermédio entre o plano físico e o “céu”. Nesta cerimônia, os mortos se sujeitavam ao julgamento dos deuses, presidido pelo deus Osíris em seu extenso salão, a “Sala das Duas Verdades”. Tendo os falecidos declamado a Confissão Negativa, discurso de repúdio aos males terrenos, cabia a Anúbis pesar o coração de cada um em uma balança, individualmente, em cujo prato oposto pendia uma pena de avestruz (representando a deusa Maat, a Verdade); para que o espírito obtivesse a salvação, o peso do coração deveria ser inferior àquele da pena, implicando que agiram com retidão enquanto vivos e confessaram com sinceridade; caso contrário, teriam a cabeça devorada como punição. Ser peso não significava apenas punição para si, mas para seus entes queridos, que deveriam ofertar alimentos no túmulo do morto caso não desejassem sofrer retaliação dos deuses. Também simbolizava uma consciência pesada, uma vez que os pensamentos e as emoções seriam processados no coração, segundo a crença predominante no Egito antigo.

“Diacho, Clara, mas que negócio é esse de Egito antigo? Resolveu maratonar Yu-Gi-Oh agora, é?”

Beeem… não necessariamente (embora o meu Starter Deck do Kaiba perdido por aí me condene).


Seto Kaiba lendo Nietzsche é o espírito animal dessa resenha

O fato é que esta dualidade entre “pecado” e “pureza”, presente nos ritos egípcios de além-túmulo, é tratada de forma magistral por Milan Kundera em seu já consagrado A Insustentável Leveza do Ser. Seus personagens centrais parecem oscilar a todo momento entre os pratos opostos da balança de Anúbis, ora mais leves que a pena de Maat, ora mais pesados que um coração impuro. Kundera introduz sua obra apresentando a problemática da leveza e do peso através da teoria de Parmênides, filósofo grego pré-socrático, que enxergava o mundo (e, consequentemente, a essência do Ser) como pares opostos: o Ser e o não-Ser, luz e trevas, calor e frio, cada um considerado positivo ou negativo. Sobre a dicotomia leveza-peso, entretanto, a resposta não é tão simples como parece:

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“Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições”. (pg. 12)

Acompanhando a questão dualista de Parmênides, o autor insere a concepção do Eterno Retorno de Nietzsche, uma ideia que pode parecer complexa, a princípio, embora seja introduzida com naturalidade logo na primeira página da obra. Explico: o Eterno Retorno seria nada mais, nada menos que a repetição indefinida de toda a vida do indivíduo após sua morte (sabe aquela história de ver a vida inteira passando diante dos olhos? Pois é), tornando o fenômeno da existência um círculo vicioso de possibilidades que se repetem eternamente. A conexão deste conceito (inacabado pelo próprio Nietszche) com o anterior reside no ato de repetição: se o indivíduo pudesse refazer incessantemente suas escolhas, estas não possuiriam o peso, a gravidade da primeira vez em que foram efetuadas e seriam tratadas com muito mais leveza e informalidade, pois poderiam ocorrer de novo e de novo. Em suma, as escolhas se tornariam tão banais quanto o ato de respirar.

“Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma diferença infinita entre um Robespierre que apareceu só uma vez na história e um Robespierre que voltaria eternamente para cortar a cabeça dos franceses”. (pg. 10)

É neste contexto que somos apresentados a quatro figuras centrais da trama: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. Descrever o plot de A Insustentável Leveza do Ser é basicamente explicar seus personagens.

Em um primeiro momento, Tomas representa o polo positivo, a personificação da leveza, da banalidade de escolhas que não acarreta fardos ou complicações. Cirurgião tcheco vivendo em plena Primavera de 68, não nega sua relação de aversão/atração para com as muitas mulheres com quem mantém casos fortuitos. Orgulha-se de separar o amor da paixão sexual em duas caixinhas bem definidas em sua cabeça, repudiando o primeiro como um fardo em sua vida leve e descompromissada. Enxerga singularidade na nudez feminina, em que cada mulher é um tecido a ser dissecado por seu bisturi imaginário – qual expressão se formará em seu rosto ao gozar? O que dirá no momento do sexo? Com quais movimentos tirará suas roupas? É este imperativo que o leva a trair mesmo depois de casado com sua esposa, Tereza (na real, uma desculpinha machista bem tosca. Mas devo dar os créditos a Kundera por mostrá-la em sua totalidade, bem como suas consequências). No Tribunal de Osíris, Tomas seria condenado perante os deuses por sua alma pesada. Internamente, contudo, seu coração pesaria menos que uma pluma.

Tereza é seu oposto complementar, uma criatura dócil que passara a vida inteira numa cidadezinha do interior. Procura, através dos livros e da atividade erudita, levantar seu espírito sensível para além do mundo material pútrido e grosseiro imposto pela mãe desde a infância. Sujeita às mais variadas humilhações – desde ser proibida a trancar a porta do banheiro (mesmo quando o padrasto a espiava durante o banho) sob o argumento de que todos os corpos nus são iguais, a ser caçoada pela mãe por fechar as persianas enquanto esta se trocava –, enxerga a nudez como um uniforme compulsório que a todos iguala, e não como uma singularidade. Encontra na intelectualidade de Tomas o passaporte para uma vida elevada; ao se deparar com a infidelidade do marido, contudo, não pode deixar de se culpar por ser um fardo na vida do homem que representa sua leveza. Diante da balança de Anúbis, seu coração logo seria içado pela pena de Maat, absolvendo-na em detrimento de sua consciência pesada e atormentada.

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Sabina, por sua vez, é uma artista plástica e uma das muitas amantes de Tomas – que, por sua vez, é um de seus muitos amantes. Também integra o polo positivo da leveza na trama, talvez de forma ainda mais intensa que o primeiro, na medida em que tornou o ato de “trair” um método de levar um dia após o outro diante dos clichês, melodramas e sentimentalismo barato (a que ela se refere como “kitsch”) que ameaçam, contra a vontade, adentrar em sua vida. Aqui, trair não se restringe ao sentido amoroso do termo, mas amplia-se a princípio norteador de toda a sua vida: Sabina trai a ideologia comunista do regime tcheco, empurrada goela abaixo desde sua infância (muito mais por motivos estéticos que ideológicos); trai as convenções artísticas impostas pelo governo na escola de belas-artes, pintando quadros realistas que, no entanto, escondem brechas do “mundo real” (o objeto da maioria de suas pinturas é a própria dualidade). Se personifica a leveza de forma mais intensa que Tomas, significa dizer que vive ainda mais intensamente a ideia do Eterno Retorno: como uma cobra mordendo a própria cauda, Sabina persegue uma vida definitivamente livre de compromissos e apegos para com os outros, embora jamais perceba que suas escolhas já não possuem mais peso algum. Ainda que seu coração pese bem menos que a pluma da Verdade, Osíris possivelmente a condenaria diante do tribunal, precisamente porque sua leveza provém de um profundo desapego à moral tradicional.

“O kitsch faz nascer, uma após a outra, duas lágrimas de emoção. A primeira lágrima diz: Como é bonito crianças correndo num gramado!
A segunda lágrima diz: Como é bonito se emocionar com toda a humanidade ao ver crianças correndo num gramado!
Somente essa segunda lágrima faz o kitsch ser o kitsch.
A fraternidade entre todos os homens não poderá ter outra base senão o kitsch” (pg. 269)

Franz, por fim, é um professor universitário suíço, e amante de Sabina na época da estada desta em Genebra após a ocupação russa na Boêmia. Integra o polo negativo do peso de uma forma, a meu ver, um pouco menos sensível que Tereza – este, como Sabina e Tomas, integra a classe intelectual privilegiada de seu respectivo país, e parece passar por algo similar a uma “crise da meia idade”. Leva uma vida infeliz com a esposa frívola, Marie Claude (cujo casamento fora fruto de um momento de paixão por parte desta que nunca mais se repetiu – Marie ameaçara se matar caso Franz não a amasse, o que o emocionou profundamente), e a filha igualmente tola, Marie Anne. De índole idealista e romântica, o acadêmico deseja a promessa de puladas de cerca intensas e apaixonadas que encontra nos braços de Sabina, que o faz esquecer de sua rotina na universidade redigindo artigos científicos e frequentando simpósios. Pessoalmente, ele me lembrou um pouco o personagem de Kevin Spacey em “Beleza Americana”: o homem de classe média com emprego mediano, esposa e filha distantes, desejoso das aventuras da juventude. Eu não saberia situá-lo de fato em um dos polos da balança de Anúbis – embora a impressão geral, como leitora, aponte para uma personagem que represente o peso, tenho quase certeza de que ele seria absolvido pelo tribunal por revestir seus gestos de um certo código de moralidade, a despeito de trair a esposa. O que diferencia sua traição daquela efetuada por Sabina e Tomas, contudo, é o fardo sentimental que nela deposita.

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Temos ainda a fofíssima Kariênin, cachorrinha de estimação de Tereza e Tomas, que personifica o Eterno Retorno de forma ligeiramente diferente dos demais: vive cada dia como se este se repetisse indefinidamente, de forma cíclica, segundo o tempo dos animais. Entretanto, reveste seus hábitos de uma solenidade ritualística: gosta que todos os dias sejam iguais e que nada esteja fora do lugar. Mesmo sem uma única fala, conseguiu ser minha personagem favorita de todo o livro. É aquele ditado, né? Todos os cães vão para o céu :3

Repararam nesse revezamento de peso e leveza entre as quatro personagens, como citei no início da resenha? Tereza é o fardo que Tomas carrega, embora este represente a leveza da jovem. Franz, ao longo da trama, torna-se um peso para Sabina (e não é difícil imaginar o porquê), enquanto esta o eleva para longe da matéria. Também percebo que justamente aqueles pertencentes ao polo positivo, segundo minha concepção, seriam condenados perante os deuses no Livro dos Mortos. Não chego a estas conclusões por um raciocínio moral puro e simples: lembram quando mencionei lá em cima que aqueles punidos pelo tribunal também condenavam suas famílias a prestar oferendas? Em sua busca por uma existência livre de amarras, Tomas acaba por se tornar o verdadeiro peso, pois faz Tereza sofrer e culpar-se pelas traições do marido. Sabina, por sua vez, experimenta a verdadeira leveza de forma dolorosa quando, por certas circunstâncias, deixa de se encontrar com Tomas – a insustentável leveza do ser, quer dizer, o fardo contido na liberdade, não é o que ela esperava. Cito também a lembrança que a artista deixa na memória afetiva de Franz, que passa a procurá-la simbolicamente em todos os seus atos. Aqueles que perseguem o desapego não parecem perceber o rastro deixado nos indivíduos com que se relacionam.

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Kundera consegue, como ninguém, narrar temas complexos de forma leve e fluida. Falando de si na primeira pessoa em alguns momentos do livro, o autor confidencia o que sente por seus personagens, como se levasse uma conversa descontraída e agradável com o leitor. A diagramação desta edição da Companhia das Letras contribui bastante com essa impressão confortável, com letras de fonte média e um layout de páginas que passa a ideia de que o livro termina rapidinho. Não encontrei quase nenhum erro de edição ou digitação, resultado de um trabalho primoroso para com uma obra que já está no catálogo da editora há algum tempo. É até irônico que um livro com densos simbolismos, além de dramas e personagens tão palpáveis e reais, seja apresentado ao leitor numa amigável e delicada edição em capa dura, fácil de devorar em um fim de semana ou até mesmo numa tarde de férias. Mas não pensem que se trata de um texto fácil: os conceitos apresentados por Kundera são objeto de infinitas interpretações, levando-me a crer que cada leitura nos encaminha a um novo significado. Em suma, trata-se de uma obra que nunca se esgota (não é à toa que a minha edição tá ENTUPIDA de post its. Se desse pra marcar o livro inteiro…), mas que possui o mérito de uma linguagem simples e sem grandes intelectualismos.

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Tenho a sensação de que não consigo exprimir totalmente o que esta história representou para mim, tamanha é sua grandiosidade: na balança de Anúbis, A Insustentável Leveza do Ser pesaria infinitamente. Em contrapartida, cada uma de suas páginas parece ser capaz de tornar seus leitores mais leves que o próprio ar.
A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being)
Autor: Milan Kundera
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Skoob: 4.4 Estrelas / Goodreads: 4.0 Estrelas
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05 Estrelas
Neste que é sem dúvida um dos romances mais importantes do século XX, ficção e filosofia se entrelaçam por meio da história de quatro adultos capazes de quase tudo para vivenciar o erotismo que desejam para si. Como limite, encontram um tempo histórico politicamente opressivo e o caráter enigmático da existência humana. Infidelidade, amor, compaixão, eterno retorno, acaso e arbítrio são alguns dos grandes temas que Kundera articula num romance de ideias e paixões, em que o leitor percorre conceitos filosóficos de braços dados com cada um dos personagens — Tereza, Tomas, Sabina e Franz — e acompanha suas histórias de vida com a profundidade de um estudo. O resultado é uma obra em tudo original, um clássico da literatura contemporânea.
Autor: Milan Kundera é um autor tcheco. Nascido no seio da erudita família de classe-média do senhor Ludvik Kundera (1891-1971), um pupilo do compositor Leoš Janáček e um importante musicólogo e pianista, o cabeça da Academia Musical de Brno de 1948 à 1961. Kundera aprendeu a tocar piano com seu pai. Posteriormente, ele também estudou musicologia. Influências e referências musicológicas podem ser encontradas através de sua obra, a ponto de poder-se encontrar notas em pauta durante o texto.

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