Resenha: O Ceifador - Neal Shusterman

julho 24, 2017 / Yuri Lima /

Quem quer viver para sempre?




Eu lembro quando era criança e vi Highlander pela primeira vez. A história de um guerreiro imortal que estava vivo há alguns séculos e briga com outros guerreiros imortais. Eu fiquei maravilhado, viver pra sempre era demais! E então você chega ao final do filme, e eu vou soltar um spoiler aqui (o filme é de 1986, tenham dó), e o prêmio por derrotar todos os outros imortais e ser o último imortal vivo é... poder gerar filhos e envelhecer até a morte.

Isso não entrou na minha cabeça enquanto criança. Mas que diabos de prêmio era esse? Como é que poder envelhecer era um prêmio se antes eu podia viver para sempre? Foi só muitos anos depois que eu pude compreender que ser imortal não era lá algo para se comemorar, principalmente se aqueles que estavam ao seu redor não fossem. Mas até mesmo quando todo o seu povo é imortal isso pode ser um problema, me disse Tolkien ao me contar a história dos elfos e porque eles eram “inferiores” aos humanos.



“Os humanos, com sua vida tão curta, sentem mais urgência em transformar o mundo, eles amam com mais intensidade, eles criam com mais intensidade, eles vivem com mais intensidade” ou foi algo assim que Elrond disse, me fazendo entender a importância da mortalidade.

E é exatamente sobre isso que O Ceifador trata. Eu poderia dizer que O Ceifador é um livro de distopia, mas na verdade esse é um livro de utopia, pois ele nos narra uma sociedade perfeita. Os seres humanos venceram a morte, seja natural ou causada, e todo o conhecimento é universal e compartilhado. A humanidade não sabe mais o que é fome ou frio, e tudo isso graças a uma inteligência artificial, a extrapolação da nossa internet chamada Nimbo-Cúmulo. Uma entidade perfeita, que está em todo o lugar e atende as necessidades de toda a humanidade.

Aterrorizante, não?



O problema é que pessoas continuam tendo que morrer, então foi fundada uma organização chamada Ceifa, à parte da Nimbo-Cúmulo, responsável por manter um controle populacional coletando (porque “matar” é uma palavra muito feia) pessoas aleatórias para manter esse controle. Tudo de forma muito organizada e eficiente, sem excessos ou faltas.

Os membros da Ceifa, conhecidos como Ceifadores, estão acima das leis normais e são tratados como uma casta diferente da sociedade, temidos e respeitados. E a história começa quando nossos protagonistas, a inteligente Citra Terranova e o perspicaz Rowan Damisch, ambos de 17 anos, são recrutados como aprendizes de Ceifador.



O autor, Neal Shusterman, consegue fazer uma análise desse mundo perfeito de uma maneira muito interessante e cativante. É maravilhoso como, tal qual o meu deslumbre e confusão com o filme Highlander, a idéia de viver para sempre numa sociedade perfeita pode se tornar o maior dos problemas para uma espécie, e isso é traduzido com apenas uma palavra: estagnação.

Após a era da mortalidade (como eles chamam no livro) a humanidade estagnou. Não existem mais avanços, a arte perdeu seu brilho, os dias são todos iguais, a exploração interplanetária cessou (afinal, se temos uma vida perfeita aqui, o que vamos fazer lá fora?). A avaliação da morte para a raça humana feita pelo autor é precisa, e também é avaliação de ter que matar alguém.



Os jovens, Citra e Rowan, assim como os principais ceifadores que temos contato, conseguem passar a idéia de ter que fazer algo importante para todos, um trabalho com muitas pompas e louros, mas que acarreta um fardo enorme à eles, tendo que fazer algo que eles não gostariam de fazer. Assim como vemos que, mesmo em uma sociedade perfeita, o ser humano é um ser imperfeito.

A premissa e a execução dessa idéia no livro são bem feitas, mas a história contada tem seus altos e baixos. Ao se deparar com alguns plot twists inesperados, o leitor consegue perceber um grande potencial no livro, que muitas vezes é inexplorado ou subutilizado, principalmente em um final anticlimático que apaga uma grande emoção de algumas páginas anteriores.



Como uma obra YA, ela não subestima a inteligência dos jovens e tem uma temática extremamente complexa e profunda, principalmente na maneira que foi abordada, dessa forma eu recomendo para leitores acima dos 15 anos. Mas o livro falha na hora de entregar a empolgação que o enredo deveria trazer e um leitor mais experiente consegue pegar boa parte das supostas viradas no enredo algumas páginas antes de elas acontecerem.
O Ceifador (Scythe)
Volume #1, Trilogia Scythe
Autor: Neal Shusterman
Editora: Companhia das Letras (Selo Seguinte)
Ano: 2017
Skoob: 4.7 Estrelas / Goodreads: 4.2 Estrelas
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04 Estrelas
A humanidade venceu todas as barreiras: fome, doenças, guerras, miséria… Até mesmo a morte. Agora os ceifadores são os únicos que podem pôr fim a uma vida, impedindo que o crescimento populacional vá além do limite e a Terra deixe de comportar a população por toda a eternidade.
Citra e Rowan são adolescentes escolhidos como aprendizes de ceifador — um papel que nenhum dos dois quer desempenhar. Para receberem o anel e o manto da Ceifa, os adolescentes precisam dominar a "arte" da coleta, ou seja, precisam aprender a matar. Porém, se falharem em sua missão — ou se a cumplicidade no treinamento se tornar algo mais —, podem colocar a própria vida em risco.
Autor: Neal Shusterman é um premiado novelista, roteirista e escritor de televisão. Atualmente vive no sul da Califórnia com seus quatro filhos.

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