Resenha: A Desumanização - Valter Hugo Mãe

outubro 18, 2017 / Clara Gianni /

Entre dualidades e antíteses, Valter Hugo Mãe narra a passagem da infância à juventude junto à dor da perda.


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Todos nós, em algum momento da infância, já brincamos em frente a um espelho – fazendo caretas, dançando, experimentando roupas dos pais, admirando-nos. Vamos nos acostumando a nossos rostos, nossas imagens, descobrindo pedaços de nós mesmos em um ato aparentemente banal. E claro, sempre chega aquele momento em que o corpo cansa, e tudo o que conseguimos fazer é nos encarar em silêncio, numa espécie de “jogo do sério” solitário.

Então há aquele outro momento em que você já passou tanto tempo encarando o próprio rosto que as coisas deixam de fazer sentido. Tudo abstrai: de repente, “você” (aquele que encara) e a imagem (aquela que é encarada) já não são uma coisa só, mas entidades separadas. Bate uma tontura esquisita e aquela pessoa na sua frente já não é você, que repete seu nome tantas vezes que nem a palavra, nem o som da sua voz parecem te pertencer. Uma viagem tão maluca quanto aquela de Alice ao atravessar seu próprio espelho.

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Então a sua mãe te chama pra comer e você esquece dessa experiência lisérgica de autopercepção em menos de um minuto.

Isso ou aquele desenho que cê gosta começou ainda agora na TV.

A Desumanização é um desses livros que parece trazer de volta toda essa estranheza, como o reflexo de um espelho que aos poucos ganha vida própria na mente de uma criança. Tudo isso para contar uma história relativamente simples: numa pequena aldeia islandesa onde mora junto dos pais, aos onze anos, a menina Halldora acaba de perder sua irmã gêmea Sigridur. Pela primeira vez desde que nascera, Halla se vê completamente sozinha e sem um referencial pelo qual seguir com sua vida – tendo de conviver, ainda, com a brutalidade da própria mãe, que a castiga (e se castiga) das mais diversas formas por representar o elo restante, a “irmã menos morta” (como passa a ser conhecida), aquela que sobreviveu, além dos próprios burburinhos cruéis do povo da aldeia, a todo momento esperando que Halla sucumba ao mesmo destino da irmã. Com o passar dos meses, a menina aprende a construir um frágil porto seguro para si mesma, um delicado relicário da memória de Sigridur, visitando-a frequentemente no cume do monte onde fora enterrada como “a criança plantada”; ainda encontra consolo nos versos do pai e na afeição de Einar, rapaz que aparenta sofrer de transtornos mentais. Lentamente Halla cresce, o corpo franzino e leve como uma pluma, o espírito envelhecido e pesado pela dor das perdas e experiências traumáticas pelas quais passa – vemos, pouco a pouco, a menina forçosamente ceder espaço a uma mulher prematura, quase natimorta.

“Com as mãos um pouco abraçando-me, confessei que me vinha ao coração uma vontade muito grande de partir o corpo. Alguém me afirmou que eu me viciara na duplicação. Não tinha identidade própria. Era uma aberração. Queria fugir. Quem quer fugir já metade foi embora. O Steindór disse. Sou gêmea da morte. Vivo com muito medo. Se a tristeza permitisse, estaria apenas em pânico. Sempre em pânico”. (pg. 85)

Com pouco mais de 180 páginas, o livro segue um tempo próprio, analógico e sem imediatismos ou grandes plot twists: Valter Hugo Mãe pinta com cuidado o retrato do sofrimento infantil sob a neve sóbria e inacessível dos montes e fiordes islandeses. Halla é uma criança abandonada no frio de seu luto, enquanto a mãe explode em agonia e ódio, e o pai observa resignado. Não resta nada à menina senão cortar cada um dos cordões umbilicais que ainda a ligam à infância: promessas de se manter fiel aos sonhos da irmã são deixadas de lado pelo elo restante, que procura construir uma imagem de si mesma através dos destroços. Aos poucos, Halla aprende – com a ajuda de alguns insights do pai – que algo só pode existir caso haja outra pessoa para reconhecer esta existência. Repetindo o nome de Sigridur, a garota tenta a todo custo manter vívida a imagem da gêmea morta, para que ela continue a existir em sua memória. Se só podemos construir nossa individualidade tendo os outros como referencial, Halla chega à trágica conclusão de que deve construir quem é por exclusão a tudo que Sigridur representa.

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“Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido de que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro”. (pg. 40)

Tal descoberta é especialmente brutal quando consideramos a transição – da infância rumo à adolescência, estágio em que muitas de nossas experiências definirão quem seremos no futuro – pela qual Halla passa o livro inteiro. Diante da indiferença dos pais, da tia (que posteriormente ocupa o espaço de Sigridur na cama compartilhada) e de todos os que a cercam, Halldora é obrigada a carregar o espírito da irmã junto do seu como cruz. Aos poucos, contudo, as circunstâncias também a obrigam a definir-se como uma pessoa em si mesma, com suas próprias preferências e particularidades: Sigridur amava doces, Halla os odeia. Sigridur será eternamente uma criança enterrada enquanto Halla cresce, deita “flores-de-sangue” pelas pernas, desperta sexualmente. Halla passa a se observar como um reflexo pálido da imagem brilhante e congelada da irmã – aquele reflexo que ganhara vida própria após Sigridur tê-lo encarado por tempo demais.

Desumanizando-se, portanto.

“Um espelho que alguém cedera. Era a mais profunda ilusão. Meu corpo todo ali replicado, como se outra vez fôssemos duas. A mão encostada no vidro fresco e assim nos olhando mutuamente. Como tantas vezes nos olhávamos. Agora longamente, a perceber como estávamos mais velhas. Os seios. Temos seios, mana. Seria tão bom se pudesses sair desse vidro frio e vir comigo à rua. Pareces dentro de uma água parada”. (pg. 140)

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Onde um indivíduo termina e outro começa? O que nos define enquanto pessoas? São perguntas silenciosas feitas ao longo do livro, para as quais jamais recebemos uma resposta completa. Descobrimos, mais à frente, que o rapaz Einar deve sua deficiência mental a uma tragédia, e não podemos deixar de nos perguntar que tipo de pessoa seria se nada lhe tivesse acontecido. Teria ele se afeiçoado a Halla da mesma forma? E quanto à própria Halla? Seria ela essa criatura silenciosa e milenar no corpo de uma adolescente se não tivesse perdido a irmã? Teria aprendido a amar Einar?

Cabe a nós decidir.

E assim a história é costurada, seguindo sempre a contraposição de opostos: morte e vida, matéria e espírito, passado e presente, infância e juventude, eu e o outro. O estilo de escrita de Valter Hugo Mãe também parece um tanto contraditório: é simples e sem filtros, como a fala de uma criança, e simultaneamente pesado e dolorido, carregado de uma sinceridade que apenas o trauma pode conferir. Significa dizer que nem sempre a narrativa será fluida, o que de forma alguma representa uma falha na escrita, muito pelo contrário: atesta a densidade dos temas tratados – a ausência de exclamações, interrogações e travessões lembrou-me um pouco de Saramago. Os anos transcorrem sem alarde, e não sabemos ao certo dizer em que época a história se passa e, de repente, Halla já conta doze, treze anos. De repente, a história acabou. Como uma viagem de férias, em que os dias parecem durar mais e o tempo segue suas próprias regras.

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A obra já havia sido publicada por aqui pela extinta Cossac Naify, responsável por trabalhos gráficos e edições de qualidade. A edição da Biblioteca Azul – com um excelente prefácio por Leandro Karnal – não se afasta muito desse padrão, trazendo ao mercado brasileiro uma obra mais “cult” a um preço razoável, acertando no custo-benefício. Minha edição, em particular, tá igual apostila de vestibular: totalmente sublinhada de marca-texto (se desse pra marcar o livro inteiro…). Destaque às ilustrações de Fernando Lemos, que passam aquela ideia de que observamos imagens distorcidas e refletidas em cristais de gelo – uma textura fria que casa perfeitamente com o texto.

A Desumanização é, de fato, como um cristal de neve: belo e dolorido. Translúcido, ainda que distorcido em seus reflexos; sólido, embora sempre prestes a derreter. Contraditório, portanto, como o gelo o é – congelando e queimando ao toque das mãos simultaneamente.


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A Desumanização
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Globo Livros (Selo Biblioteca Azul)
Ano: 2017
Skoob: 4,2 estrelas/ Goodreads: 3,8 estrelas
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4,5 Estrelas
Na paisagem gélida da Islândia, a menina Halla, de apenas onze anos de idade, busca compreender os sentimentos que surgem com o falecimento de sua irmã Sigridur. Vivendo a divisão permanente das “crianças espelhos”, Halla nos guia por impressões de transitoriedade e perda a partir do seu ponto de vista infantil e, por isso mesmo, cheio de uma simplicidade profundamente poética.
O sofrimento do luto, a solidão e a violenta frieza da mãe se misturam com a paisagem inóspita da Terra do Gelo e, somados à narração lírica e melancólica de Valter Hugo Mãe, em que o desamparo dos personagens é superado por uma compreensão sublime e bela de sua condição, transformam esta obra em um primor da literatura contemporânea.
Autor: Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Além de escritor é editor, artista plástico e cantor. Nasceu em Saurimo, Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, vive em Vila do Conde. É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prémio José Saramago no ano de 2007. É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação, (Prémio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu ainda o romance O Nosso Reino (2004).

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