Resenha: O Corvo do Inverno - Lenmarck Andrade

dezembro 15, 2017 / Redação SOODA /

Assim como um shot de uísque, o conto do paraense Lenmarck é rápido e fulminante.




Opinião: Clara Giane
A premissa é simples, mas efetiva: uma repentina revoada de corvos anuncia a chegada do inverno num vilarejo distante em que nevasca é apenas uma realidade na televisão, dilacerando os olhos (e a carne) de quem quer que apareça pela frente. Tudo isso narrado em terceira pessoa, do ponto de vista de um grupo de crianças tentando se proteger dos ataques. Em O Corvo do Inverno, Lenmarck Andrade conjuga referências muito conhecidas (sendo a mais óbvia o filme Os Pássaros, de Hitchcock) para criar um conto original, visceral e completamente claustrofóbico sobre sobrevivência e fuga.



Não há muito que ser dito sem que se revelem spoilers, mas acompanhamos principalmente o ponto de vista do garoto Tony, cujo avô morrera há poucos dias. Ele se encontra do lado de fora da casa quando o ataque dos corvos — e a neve — se inicia, fugindo para dentro junto com alguns de seus amigos, numa tentativa de se abrigar em meio à morte iminente.

Até pelo tamanho do texto, a história tem o efeito de um shot de uísque: pequeno e fulminante, O Corvo do Inverno pode ser lido em uma sentada. O mais atordoante nessa rapidez com que se conclui a trama é a impressão deixada pelas descrições das mortes — como os ataques dos corvos, o conto é rápido, dolorido e fulminante. Quando você se apercebe, a trama já acabou.



Aliás, ainda que se trate de um conto de poucas páginas, o autor consegue delinear seu restrito grupo de personagens principais sem se perder em longas descrições. Com poucas palavras já conhecemos e identificamos suas características principais, o suficiente para que entendamos os acontecimentos e sintamos um certo choque por suas mortes. Em se tratando de terror/horror, há sempre a construção de uma expectativa quanto à sobrevivência e, frequentemente, o desejo de que ao menos um ou dois daqueles personagens permaneçam vivos até o fim. É interessante o modo como Lenmarck subverte essa expectativa de que um dos “mocinhos” sobreviva, entregando-nos um final ambíguo e sucinto, fiel à narrativa minimalista que construiu desde o início do conto.

Opinião: Rafael Lutty
A produção literária no Pará, cresce constantemente e torna-se fácil encontrarmos neste meio, histórias para todos os públicos. Fico particularmente feliz por encontrar histórias de terror/horror produzidas por conterrâneos. Foi uma grata surpresa encontrar o autor independente Lenmarck Andrade durante a Feira Literária do Pará (FliPA) e ser presenteado com um exemplar do seu conto O Corvo do Inverno, com encadernação artesanal. A maior surpresa, no entanto, ainda estava por vir no momento em que eu li o conto de uma tacada só.



Lenmarck constrói uma narrativa que já nas primeiras linhas nos envolve em suspense. A história traz à memória Pássaros do autor Frank Baker (resenha disponível no blog, clique aqui), e obviamente a produção homônima de Alfred Hitchcock, mas por se tratar de um conto a ação da história ocorre de maneira frenética, você lê a primeira página do conto e quando percebe a história acabou. O que fica na memória do leitor é a sensação de ter sido exposto a algo que não deveria ser visto.

A carnificina protagonizada pelos corvos, que aparecem sem nenhuma premissa, e começam a desferir ataques violentos às pessoas, pode não parecer original. A ideia em si, de bandos de animais atacando pessoas em histórias de horror, não é nenhuma novidade. É a maneira única de cada autor conduzir a narrativa, que torna essas histórias diferentes e com traços de originalidade, e Lenmarck faz isso com muito louvor, nos entregando um conto que explicita as referências do autor na mesma intensidade que pontua suas particularidades.



A crueza nas descrições do autor, não excluem o tom lírico com que a história se desenrola. Consegue ser grotesco mantendo certa beleza. Eu desconfio que Poe gostaria muito de ler, e eu realmente espero que você procure e leia. Vale muito.

Por: Rafael Lutty e Clara Giane


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O Corvo do Inverno
Autor: Lenmarck Andrade
Editora: Independente
Ano: 2017
Skoob: 4.0 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
3,5 Estrelas
Tudo começa com a alvorada dos Corvos.
Um garoto desaparece. Aves rasgam os céus e trazem a morte junto com o inverno. Um grupo de crianças corre risco. Alguém (ou algo) bate à porta.
Autor: Lenmarck Andrade, 24 anos, vive em Belém (PA) e é apaixonado por criar novos mundos, sem nunca esquecer o seu próprio. Acredita no poder da ficção para contar histórias reais e que nem todos os corvos são mentirosos. É autor do romance "Névoa" e outros contos espalhados pela internet, onde extrapola os subgêneros da ficção sempre usufruindo do caráter psicológico de seus personagens.

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