Resenha: Quando Ela Acordou - Hillary Jordan

janeiro 17, 2018 / Rafael Lutty /

Se você leu O Conto da Aia, precisa imediatamente correr para a leitura de Quando Ela Acordou.




O que mais encanta – e apavora - os leitores de distopias, é a proximidade. É saber que por mais bizarra que as coisas possam parecer nessas histórias, existe a possibilidade real de acordarmos em um belo dia e descobrirmos que a sociedade se transformou em algo que antes só liamos em histórias de ficção. Esse é um dos motivos que faz séries como Black Mirror e The Handmaid’s Tale tão populares. A projeção de uma realidade para a qual estamos caminhando silenciosa e voluntariamente, como ovelhas ao matadouro.

Talvez você nunca tenha ouvido falar em Quando ela acordou até chegar aqui, isso é justificado pois o livro não foi exatamente um hype no Brasil, embora seja considerado um clássico do século XXI e aclamado por público e crítica. Lançada pela editora Bertrand Brasil em 2013, a distopia de Hillary Jordan se assemelha ao livro O Conto da Aia da autora Margaret Atwood, em vários aspectos, mas está longe de ser uma cópia ou um recorte, possuindo uma identidade própria e conduzido por uma escritora que – adianto – deveria ser lida por muito mais pessoas.

No livro, temos uma América teocrática, de um futuro próximo, onde os criminosos não são mais presos para cumprirem suas penas. Passam por um procedimento chamado de ‘cromagem’ e tornam-se Cromos, indivíduos com a cor da pele geneticamente modificada para uma cor que combine com o crime que cometeram. Entre as cores que conhecemos ao longo do livro estão o amarelo, para aqueles que cometem furtos e roubos, o azul para os pedófilos e estupradores, e a pior cor de todas: o vermelho para os assassinos.



Após serem cromados, os criminosos passam um período de 30 dias em uma cela, onde todas as suas ações são filmadas e transmitidas para milhões de telespectadores, em uma espécie de reality show. Após o período de reclusão, os Cromos são reinseridos na sociedade, onde permaneceram cromados até que se cumpra o período de pena que foi aplicado a cada um. Expostos em sua sociedade conservadora em que as leis divinas são incontestáveis, a maioria dos Cromos não conseguem sobreviver até o final de suas penas, vítimas da discriminação e do preconceito.

Nossa protagonista aqui é Hannah Payne, que acorda como uma Vermelha, acusada de matar um não-nascido, seu filho que foi abortado, por ser fruto de um relacionamento que Hannah teve com um importante líder religioso, casado, famoso e por quem a moça ainda se encontra perdidamente apaixonada. Determinada a proteger o nome do pai de seu filho, Hannah torna-se uma Cromo e precisa lidar com a perda de sua família, o enorme desprezo da mãe, o julgo de uma sociedade em que a taxa de natalidade é baixíssima, o que torna o aborto um dos piores crimes contra Deus e um futuro incerto.

Ao sair do período de confinamento, Hannah, encontra-se desamparada e precisa lutar por sua vida a cada dia, contra um grupo de pessoas conhecida como os Novembristas, que dão suporte a alguns Cromos e os protegem do Punho de Cristo, um grupo extremista criado para o extermínio dos criminosos. Nesta sociedade, os Cromos são tratados como escória e, muitas das mulheres cromadas são capturadas e vendidas como escravas sexuais. Outra opção para os Cromos é tentar alcançar a redenção através de centros de reabilitação que, de longe, foi a parte mais repugnante desta leitura.



Acredito que revelar mais da trajetória de Hannah Payne, a partir deste ponto, seria considerado spoiler, mas é possível discursar mais um pouco sobre a leitura, principalmente considerando as críticas sociais que são feitas aos montes pela autora. O aborto, e a forma como ele é tratado pela religião, é um dos temas principais do livro, e torna-se impossível não refletir sobre como a sociedade – patriarcal – tem mais poder sobre o corpo da mulher, do que ela mesma.

Através da jornada da protagonista, a autora tece críticas à religião e ao modo como ela exerce um poder coercitivo nos indivíduos dentro de uma sociedade regida pela teocracia. Hillary Jordan, porém, não se afasta da ideia divina, e o modo como ela expressa sua visão sobre Deus, em uma cena do livro, está entre uma das mais bonitas perspectivas divinas que eu já li.

Em Quando Ela Acordou, não temos uma distopia com uma personagem que luta contra o poder dominante, não temos a vencedora dos Jogos Vorazes, Katniss, a divergente Tris ou o sobrevivente do labirinto, Thomas, tentando derrubar todo o sistema social. Trata-se de uma jornada para a autolibertação, de uma personagem que a cada passo reflete sobre as próprias convicções e crenças e precisa enxergar a si mesmo e aos outros de outra perspectiva.

Eu realmente estou muito feliz em ter encontrado Quando Ela Acordou, ao procurar livros que fossem semelhantes a O Conto da Aia, e que abordassem as mesmas questões, foi uma grata surpresa a leitura, e eu indicarei para muita gente mesmo. Talvez, o ponto que não tenha me feito ‘favoritar’ este livro, seja o final. Não concordo com a maneira como algumas situações foram concluídas e com o modo como alguns personagens saíram impunes da situação. Muito se justifica por todo um contexto que foi criado ao longo da leitura, porém eu preferia que algumas pontas fossem costuradas de outra maneira. No mais, é um livro que eu indico muito, para quem está procurando opções de livros que façam refletir a forma como vivemos e nossas atitudes conosco e com os outros.



Vale citar aqui, o primeiro livro da Hillary Jordan: Mudbound. Lançado em 2008, o livro chega ao Brasil com o título Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi pela editora Arqueiro, e tem lançamento previsto para 31/01/18. A adaptação do livro, para os cinemas está entre os filmes mais cotados a entrar para a lista do Oscar 2018. A julgar pela escrita da autora em Quando Ela Acordou eu já espero a leitura do próximo livro da Hillary Jordan com as expectativas acima da média.


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Quando Ela Acordou (When She Woke)
Autora: Hillary Jordan
Editora: Bertrand Brasil
Ano: 2013
Skoob: 3.9 Estrelas / Goodreads: 3.6 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
05 Estrelas
Hanna Payne dedicava a vida à igreja e à família, mas ao ser condenada por assassinato, ela desperta em um corpo novo, para uma nova vida, que parece um pesadelo. Descobre-se deitada à mesa de um quarto vazio e se vê vestida apenas por um traje de papel. Agora, câmeras transmitem cada movimento de Hannah a milhões de pessoas em suas casas. Elas observam os novos criminosos Cromos, cuja cor da pele foi geneticamente alterada para combinar com o delito que cometeram. Hannah é uma Vermelha, uma assassina. A vítima, diz o estado do Texas, foi seu filho, que não chegou a nascer, e Hannah está decidida a proteger a identidade do pai do bebê, uma figura pública com a qual ela viveu uma paixão intensa e proibida. Com uma poderosa atmosfera que lembra A Letra Escarlate - clássico norte-americano de Nathaneil Hawthorne -, Quando ela acordou narra a história de Hannah Payne, uma mulher estigmatizada, que luta para sobreviver na América de um futuro não tão distante, quando a fronteira entre Igreja e Estado foi extirpada e os criminosos condenados não são mais presos e reabilitados, mas cromados e novamente soltos no meio da população, para levarem como puderem suas vidas, enfrentando o preconceito e encarando diariamente seus erros no espelho.
Autora: Hillary Jordan foi criada entre o Texas e Oklahoma. Atualmente, mora em Nova York. Seu primeiro romance, Mudbound, venceu o Bellwether Prize for Fiction de 2006 e ganhou um Alex Award, da American Library Association. Além disso, foi indicado para o NAIBA Fiction Book do ano e escolhido com um título da Barnes & Noble Discover. Quando Ela Acordou, estreia de Hillary Jordan no Brasil, entrou para a lista de mais vendidos e recebeu aclamação de público e crítica.

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