Resenha: Rio: Zona de Guerra - Leo Lopes

janeiro 24, 2018 / Clara Gianni /

Entre figurões corporativos e investigadores particulares, Leo Lopes desenvolve um cyberpunk distópico tipicamente brasileiro




Discretamente, entre crônicas e romances mais intimistas, a literatura nacional constrói uma respeitável tradição distópica. Desde Santa Clara Poltergeist e Não Verás País Nenhum até as mais recentes A Torre Acima do Véu, Rio 2054 e a trilogia Anômalos, o gênero – revistado desde o início da década, com o sucesso da trilogia Jogos Vorazes – tem se adaptado cada vez mais às nuances da realidade brasileira em obras mais recentes, expondo nossas problemáticas sociais sem nunca esquecer o pano de fundo tecnológico. Em Rio – Zona de Guerra, por sua vez, a distopia imaginada por Leo Lopes assume atmosfera e temática tipicamente cyberpunk, bebendo das conhecidas fontes da estética noir e do romance policial. O resultado é a incorporação dos clichês e tropos próprios do subgênero ao cenário carioca, culminando em um romance que, embora não traga grandes inovações, não necessita inventar a roda para entreter.

A trama nos traz um Rio de Janeiro dominado por conglomerados de megacorporações multinacionais acompanhadas de milícias particulares (ou polícias corporativas), na ausência de um Estado coeso capaz de impôr a lei e a ordem. Diante das desigualdades sociais cada vez mais acentuadas, a cidade divide-se em duas grandes áreas: a Zona de Guerra, local marginalizado dominado por gangues, imperando a lei do mais forte; e a Fronteira, um gigantesco muro separando tal Zona do Recreio dos Bandeirantes, protegendo cidadãos de classe média, corporativos abastados, além de toda a elite da cidade. Quaisquer condenados por crimes cometidos na Fronteira têm o exílio na Zona de Guerra como pena máxima. É neste contexto que a morte misteriosa de uma prostituta de luxo se desenrola do outro lado da Fronteira. Em busca de informações, Vivian Ballesta, amiga próxima da vítima e também prostituta, acaba por contratar os serviços do protagonista, Carlos Freitas, investigador particular e ex policial, que chama a atenção de muitos por ter escolhido viver por conta própria na Zona de Guerra em uma espécie de autoexílio. É claro que nem tudo é o que parece, e logo Freitas se vê em um intrincado ardil conspiratório envolvendo gangues poderosas e grandes figurões corporativos.



Já falei outras vezes por aqui que gosto muito de descobrir ficção especulativa nacional; há aquela familiaridade com algo que é nosso, a despeito da tecnologia ou dos elementos fantásticos. A estética cyberpunk é uma de minhas mais recentes paixões, então me empolguei bastante com a premissa de Rio: Zona de Guerra. O autor soube incorporar justamente essa familiaridade a um gênero bastante explorado lá fora, através do vocabulário, dos trejeitos e costumes das personagens. E, como dito antes, embora seja um “feijão com arroz” dessa vertente da FC, aliada a inspirações neo-noir – que trazem consigo os arquétipos do detetive aposentado/isolado, a femme fatale, o antigo amor e o jovem hacker franzino –, Leo Lopes se utiliza destes elementos para desenvolver uma trama competente, que cumpre bem o papel de entreter, além de levantar questões sociais fiéis ao lema cyberpunk “high tech, low life” (alta tecnologia em contraste com baixos padrões de vida). A narrativa em terceira pessoa não é exaustivamente explicativa, já inserindo o leitor dentro da ação no cotidiano de Freitas, sem didatismos, o que é sempre algo muito bom. Quanto às tecnologias imaginadas, ressalto o BPM (Banco Pessoal de Memória), uma espécie de RG/carteira de identidade e CPF condensados em um aparelhinho semelhante aos atuais pendrives:

“Depois de tantos anos, não se acostumara ainda ao BPM e vivia perdendo-o dentro dos bolsos, mas não podia negar que era muito útil. Um pouco maior que seu dedão, era, na verdade, um composto eletrônico avançado que armazenava todas as informações bancárias, de identificação e biológicas do usuário, além de poder ser usado como banco de dados. Supostamente, todo cidadão devia possuir apenas um, mas conhecia diversas pessoas de fora da Fronteira que tinham vários, inclusive com identidades diferentes”. (pg. 13)

De um modo geral, é interessante o modo como as tecnologias se incorporam ao cotidiano das personagens. Destaco, entretanto, o uso de expressões complicadas ou longas demais para serem empregadas na linguagem do dia a dia (como, por exemplo, “holonoticiário”), em que uma abreviatura seria preferível, conferindo fluidez aos diálogos. Ainda, a expressão “polícias corporativas” também é exaustivamente repetida, sem um sinônimo ou (novamente) uma abreviatura, o que talvez tenha contribuído para que alguns diálogos não soassem tão naturais – embora, em geral, o sejam.

Mas minha principal ressalva é quanto ao peso no uso dos esteriótipos. Até certo ponto, como dito antes, eles contribuem para o avanço da história. Há um momento, contudo, em que se percebe certo descuido. Um exemplo bem claro disso é o modo como as mulheres são retratadas ao longo da trama. Apenas duas são, de fato, relevantes ao desenrolar da trama, ocupada majoritariamente por personagens homens: Vivian Ballesta, confidente e amante da jovem assassinada, Rita de Cássia; e Renata Braga, advogada de prestígio e ex esposa de Freitas.



Em se tratando de Vivian, que incorpora a “femme fatale” da história – e posteriormente a “prostituta com coração de ouro” –, percebe-se que a personagem possui camadas que, por conta do foco da história (e do número de páginas), não são aprofundadas de forma satisfatória. Por trás da fachada dura e sedutora, há uma mulher claramente marcada pelas perdas sofridas ao longo da vida – uma delas, a morte de Rita. Nem isso a salva do olhar objetificante: há excessivo foco narrativo em seu corpo, em suas curvas, em seu jeito rebolado de andar. Suas raras interações com outras personagens femininas geralmente envolvem o (não tão) bom e velho fetiche bissexual voltado ao olhar masculino, e aqui cito dois momentos: quando Vivian contata Freitas, e explica seu vínculo com Rita.

“Enquanto falava, Vivian gesticulava como uma atriz que deseja passar mais detalhes do que as palavras são capazes de contar. Quando percebeu que estava ficando emocionada novamente, conteve-se e colocou as mãos de volta sobre o colo.
Ouvindo aquela descrição, Freitas não pôde deixar de imaginar Vivian e outra mulher loira, nuas, beijando-se sobre uma cama enquanto ele e vários homens assistiam. Voltou a si quase ao mesmo tempo que Vivian terminava de falar e teve que puxar sua cadeira para dentro do encaixe da mesa, tentando esconder a ereção que tomara conta dele”. (pg. 25)

O segundo momento, por sua vez, ocorre quando Freitas alcança o apartamento de Vivian – enquanto está atende dois clientes, marido e esposa – para discutir certas questões da investigação:

“Vivian acompanhou a convidada até a porta do elevador. A mulher loira se virou antes de entrar e a abraçou, dando um profundo e demorado beijo de língua, ao qual Vivian correspondeu com entusiasmo, devolvendo o abraço e as carícias. Freitas ainda podia ver o homem dentro do elevador o encarando por cima dos ombros das duas, parecendo ainda mais irritado com a demonstração do que estava perdendo. Quando finalmente o elevador partiu com os convidados, Vivian se virou para Freitas e encostou-se nas portas, com as mãos escondidas atrás do corpo. Usava um robe de seda curto que marcava as formas de seu corpo, principalmente os bicos dos seios completamente intumescidos, ainda sob o efeito do beijo de sua visitante”. (pg. 69)

Ainda que Vivian seja uma prostituta (e demonstre exercer certos comportamentos por livre e espontânea vontade), a problemática não está em sua sexualidade, mas que está sempre apareça fetichizada no ponto de vista das personagens masculinas. Compreendo que a visão de Freitas norteia a narrativa, mas há uma linha tênue entre demonstrar os pontos de vista de um personagem com diversas mazelas morais e ratificar tais pontos, contribuindo para que descrições assim (um tanto preocupantes) pareçam tão somente inocentes ou até banais.

O que nos leva à segunda personagem feminina de destaque, Renata Braga. A advogada leva uma vida relativamente luxuosa em uma cobertura na Barra da Tijuca, e é a primeira pessoa a quem Freitas recorre ao atravessar a Fronteira, a despeito da separação conturbada (enquanto Freitas escolhera viver na Zona de Guerra, Renata optara pela segurança e comodidade por trás da Fronteira). Frequentemente recai no estereótipo da mulher histérica sem motivo aparente, além de motorista descuidada. Embora possua uma curva de desenvolvimento um tanto surpreendente mais para o fim da trama (e suas habilidades sejam valiosas), suas reações inicialmente parecem exageradas – e até caricatas – perto de Freitas, ainda que esta, por vezes, tenha motivos reais para se chatear. Destaque ainda para uma posterior cena de sexo entre os dois – antecedida por uma briga bastante tumultuada – que, embora Renata posteriormente corresponda, é iniciada com uma violência por parte de Freitas, remetendo-me à cena “amorosa” entre Rick Deckard e Rachael no filme Blade Runner (1982):

“Ela investiu para um novo ataque, desta vez, com o punho cerrado. Freitas agarrou o pulso da mulher e o torceu para o lado, evitando o golpe. Ela soltou um gemido de dor e o atacou com a mão livre. Novamente Freitas aparou o golpe e, com os dois braços da advogada firmemente seguros, puxou-a para junto de si. Ele forçou seus lábios contra os dela. Renata pareceu corresponder por um instante, mas no momento seguinte Freitas a largou.
– Porra – ele gritou, reagindo à profunda mordida em seu lábio inferior.
Ela se virou e tentou correr em direção ao corredor, mas Freitas a segurou pelo roupão, puxando-a de volta e abraçando seu corpo por trás. Ela gemeu, tentando protestar, e Freitas forçou sua cabeça a girar, para novamente mergulhar em seus lábios. Ela não voltou a mordê-lo e o gosto de sangue começou a se misturar à saliva dos dois”. (pg. 83, grifo meu)

O que aconteceria caso Renata resistisse mais uma vez?

Todo o cuidado é pouco. Embora, como dito antes, Renata corresponda às investidas de Freitas, estas ocorrem independentemente de sua vontade (destaque ao verbo “forçar”, que aparece duas vezes neste trecho). Novamente cito a linha tênue entre retratar um personagem humano, sujeito a falhas, e normalizar seus comportamentos problemáticos ao longo da narrativa.



Fora a representação feminina, outra questão a ser observada é a repetição de algumas palavras ao longo do texto. Branquinho, carismático comerciante de mercadorias ilegais com um frequente sorriso no rosto e amigo de Freitas – além de ser um de meus personagens favoritos –, é frequentemente referenciado como “o negro”, sem muitas expressões ou sinônimos que correspondam a ele. O problema não reside tanto na expressão, mas na frequência com que fora utilizada, prejudicando um pouco a narração em alguns momentos (uma pergunta, no entanto, rondou minha cabeça durante a leitura: com que frequência descrevemos personagens brancos como “o branco/a branca”?).

Como sempre, deixo claro o teor construtivo de minhas críticas. Embora possua pontos problemáticos ao longo da trama, Rio: Zona de Guerra traz uma excelente ambientação, além de uma narrativa trabalhada com desenvoltura, culminando em um final devidamente agridoce e (por que não?) com uma fagulha de esperança. As intenções do autor em tecer uma crítica social à pobreza e ao abandono nortearam a ambientação de um cenário que, embora futurista e distópico, não parece tão distante da realidade negligenciada dos morros, subúrbios e favelas – não só do Rio como a das demais cidades brasileiras. Alie ainda o excelente trabalho gráfico e a diagramação da AVEC Editora – a ilustração da capa e os materiais de divulgação são de saltar os olhos – e o conjunto da obra é um livro que simultaneamente entretém e conduz o leitor à reflexão da realidade.


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Rio: Zona de Guerra
Autor: Leo Lopes
Editora: AVEC Editora
Ano: 2014
Skoob: 3.8 Estrelas
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03 Estrelas
Em um futuro próximo, as desigualdades sociais e econômicas chegaram a níveis tão alarmantes que o Estado não tem condições de manter a ordem e garantir a segurança pública. Todo o poder é concentrado nas mãos de megacorporações multinacionais que criam e impõem as leis por meio de suas milícias particulares, chamadas Polícias Corporativas. No Rio de Janeiro, a Fronteira, uma muralha intransponível que cerca a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes, protege os interesses das megacorporações, relegando os habitantes dos demais bairros a uma vida sem lei, em um território dominado pelas gangues. Tudo pode acontecer quando o assassinato de uma prostituta no edifício de uma megacorporação leva um detetive particular a voltar para a Barra da Tijuca, após anos de exílio no que todos se acostumaram a chamar de Zona de Guerra.
Autor: Leo Lopes nasceu em 1975 no Rio de Janeiro, mas morou metade de sua infância em Brasília, capital federal e centro do poder do Brasil. De volta ao Rio de Janeiro aos 10 anos de idade, teve contato com a literatura de ficção e com os jogos de RPG. As longas horas criando histórias que iria compartilhar com seus companheiros de jogo na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá aguçaram uma imaginação que, por natureza, já se encontrava em ebulição. As diferenças sociais que presenciava quando deixava seu condomínio na Barra da Tijuca em direção a sua primeira faculdade no subúrbio do Rio serviram de inspiração. Foi olhando através das janelas dos ônibus da linha 753 e ouvindo o som cadenciado dos trens que o levavam de Cascadura a Piedade que ele vislumbrou em sua mente as primeiras imagens desta história. As formações em Comunicação Social e Direito deram o embasamento de que precisava para dar forma ao pensamento crítico que tinha em relação ao abismo social que dividia determinadas partes de sua cidade. O resultado é Rio: Zona de Guerra.

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