Resenha: Uma Dobra no Tempo - Madeleine L´Engle

janeiro 02, 2018 / Redação SOODA /

Um clássico da fantasia e ficção cientifica que retorna, por meio de uma adaptação dos Studios Disney e traz o poder da ciência e amor para os jovens da atualidade




Uma das coisas mais interessantes que aconteceu em 2017 foi uma intensa discussão sobre representatividade. Feminina, LGBT+, Negra. Foi um ano onde o ativismo sobre determinadas causas se tornou pauta nas redes sociais, mesa de bar, ou qualquer lugar no mundo onde existam pessoas. Junto com esses debates, editoras e estúdios de cinema e tv ficaram atentas. E não por acaso, várias dessas pautas estiveram presentes em obras literárias que foram simplesmente relançadas, ou ainda filmes e séries também contribuíram para essa roda girar. E um dos gêneros que ganhou muito, foi a ficção cientifica.

Historicamente imerso ao universo masculino. Em 2017, houveram bastantes autoras que tiveram suas obras lançadas no gênero da ficção cientifica no Brasil. Autoras que eram às vezes deixadas em segundo plano. Alguns livros inclusive, sequer tinham sido publicadas no Brasil.

Kindred, de Octavia E. Butler; Conto da Aia, Vulgo Grace e Dicas da Imensidão, da Margaret Atwood, são apenas de alguns desses lançamentos e relançamentos que movimentaram o mercado por aqui. Seja por conta dos seriados/ filmes que chegaram ou ainda estão por vir, ou simplesmente, porque editoras viram a oportunidade de lançar autoras significativas como essas, sendo uma aposta de que seriam bem recebidas pelo público brasileiro.

Lançado originalmente em 1962, depois de ter sido recusado pelo menos 26 vezes, Uma Dobra no Tempo da autora Madeleine L´Engle é uma dessas obras de ficção cientifica, que já havia sido lançado uma vez no Brasil e agora retorna às livrarias com uma edição em capa dura, pela Harper Collins Brasil. Um dos principais responsáveis pelo retorno dessas brasileiras, inclusive com lançamento de um HQ pela Darkside Books, se deve por causa dessas discussões de representatividade, que congregou também com o lançamento da adaptação do filme em 2018.



Alias, essa é uma obra voltada para o público jovem que não brinca em serviço, quando diz respeito a pautas sociais e também criatividade no universo da ficção cientifica. A história retrata a vida de Meg e sua família. No estilo da animação Família do Futuro lançada pela Disney em 2007. Ou seja, todas as pessoas desse grupo tem habilidades significativas. Os pais de Meg são cientistas. Ela é muito boa de formulas matemáticas. E seu irmão mais novo é um garoto prodígio. Tudo ia bem, até que o pai de Meg desapareceu um ano antes do inicio da história. De la para cá, as coisas mudaram bastante. Ela se tornou uma jovem revoltada, sua mãe anda entristecida com o sumiço do seu marido, e seu irmão se tornou uma incógnita.

Certo dia, uma senhora com roupas peculiares e com o nome estrambólico, Sra. Quequeé, aparece na casa dessa família de superdotados, convidada pelo Charles irmão de Meg. Ela fala que sabe como encontrar o pai dos pequenos e que terão de usar o Tesserato para viajar por uma Dobra no Tempo. É dessa maneira que essa aventura pelo tempo e espaço começa.



O QUE É UMA DOBRA NO TEMPO?

O Conceito de Dobra no Tempo surge como uma evolução do que vemos em relação as dimensões. Na história a explicação é que uma linha reta funciona como a primeira dimensão, um quadrado é segunda dimensão, e assim sucessivamente até chegar a quinta dimensão, no qual é possível usa-la para viajar no tempo e no espaço bem mais rápido que a velocidade da luz. Viajar pela Dobra no Tempo, usando o equipamento correto isso se torna possível. Um conceito formidável que é explicado aos jovens de maneira que qualquer pessoa possa entender. Alias, tudo nesse livro torna-se tão fácil que é difícil não querer seguir uma carreira voltada para a área das ciências, algo para se aplaudir de pé.

Nesse processo, Meg, Charles e Calvin irão precisar viajar no tempo e no espaço com objetivo de ir em busca do pai desses jovens que está em meio a um grande perigo. Para isso, eles terão a ajuda da Sra. Quequeé, e também da Sra. Quem e a Sra Qual. Elas são três poderosas mulheres que vivem a milhões de anos no universo tentando manter o controle da situação. Porém, "A coisa escura" é um grande perigo que se aproxima capaz de destruir tudo que vê pela frente. Inclusive o amor e a fé das pessoas.



A FORÇA FEMININA NA OBRA

Sendo totalmente diferente do que é abordado em obras de ficção cientificas que são escritas por homens, nessa história, a força feminina é extremamente significativa. A Meg como líder dessa jornada é um exemplo disso. Uma menina inspirando outras crianças a seguirem em frente, é muito representativo, especialmente no inicio da década de 1960, quando ainda não era bem visto as mulheres em situações como essas. Talvez por isso, essa obra, quase não tenha sido publicada, e foi preciso muito esforço da autora para conseguir isso.

Outro dado que mostra a relevância da personagem feminina como protagonista foi publicado em um artigo de 2012 do New York Times sobre "Uma Dobra no Tempo". O jornal ressalta que uma pesquisa da Codex Group afirma que 50% dos jovens do sexo masculino se identificam com a ficção cientifica, enquanto apenas 25% das mulheres tem a mesma visão sobre o gênero literário. Ou seja, se hoje existe essa diferença, imagine, na década de 1960 quando essa obra foi lançada. Então, com certeza a Meg é uma inspiração válida nesse contexto, sem contar a sua mãe que ganha destaque nos livros seguintes e também as três mulheres mentoras dessa jornada.



GRANDES ALEGORIAS DA REALIDADE

Além dos conceitos científicos, do amadurecimento da personagem e da representatividade feminina, a obra traz grandes alegorias, daquelas que te levam a pensar fortemente após finalizar a leitura. Uma delas tem haver com o maior vilão desse primeiro livro que domina um planeta em que os jovens acabam parando em um monto da história. A autora usou a uniformização que vinha sendo provocada pela ditadura da União Soviética, e que nos dias de hoje, pode ser também adaptada para a uniformização do consumo. No fim das contas, é um reflexo de sociedades que se deixam levar sem um pensamento critico. Interessante, que recentemente assisti o episódio três da segunda temporada de Rick and Morty, e vi bastante semelhanças entre o plot do episódio e o vilão de "Uma Dobra no Tempo".



Outra questão bem relevante no enredo é a presença da fé e alguns preceitos cristãos na obra. Isso fica bastante claro em algumas passagens, e inclusive foi bastante criticado por alguns grupos, o qual não aceitavam a presença dessas questões em uma obra de ficção cientifica. Porém, dentro de uma visão mais ampla sobre o assunto, considero isso muito interessante para o livro, pois aproxima dois temas que possuem dificuldades de se cruzar: ciência e a religião. Inclusive, acredito que a autora consegue tirar o melhor das duas questões para construir o desfecho da história.



Fazer uma obra de ficção cientifica é um desafio. Ainda mais, com uma protagonista feminina (Star Wars tá sentido isso na pele), em meio ao universo machista que esse gênero literário ainda enfrenta. E Madeleine conseguiu fazer isso muito bem na década de 1960, tanto que mais de 50 anos depois, a obra é atual, tem substâncias necessárias para serem inseridas no soro de uma sociedade que ainda está doente como a nossa, de modos, a trazer uma cura. E pelo que vi nos trailers até agora, a adaptação do livro bebeu muito dessa fonte e pretende apresentar para um novo público que ainda não conhecia Madeleine L´Engle, mas deveria.

Uma Dobra no Tempo (A Wrinkle Time)
Volume #1,Uma Dobra no Tempo (Time Quintet #1)
Autor: Madeleine L´Engle
Editora: Harper Collins Brasil
Ano: 2017
Skoob: 3,8 Estrelas / Goodreads: 4.04 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
05 Estrelas
Era uma noite escura e tempestuosa; a jovem Meg Murry e seu irmão mais novo, Charles Wallace, descem para fazer um lanche tardio quando recebem a visita de uma figura muito peculiar. “Noites loucas são a minha glória”, diz a estranha misteriosa. “Foi só uma lufada que me pegou de jeito e me tirou da rota. Descansarei um pouco e seguirei meu rumo. Por falar em rumos, meu doce, saiba que o tesserato existe, sim.” O que seria um tesserato? O pai de Meg bem andava experimentando com a quinta dimensão quando desapareceu misteriosamente... Agora, com a ajuda de três criaturas muito peculiares, chegou o momento de Meg, seu amigo Calvin e Charles Wallace partirem em uma jornada para resgatá-lo. Uma jornada perigosa pelo tempo e o espaço. Uma dobra no tempo é uma aventura clássica, que serviu de inspiração para os mestres da fantasia e da ficção científica do mundo, agora adaptada para os cinemas pela Disney. Junte-se à família Murray nesta jornada, entre criaturas fantásticas e novos mundos jamais imaginados.
Autora: Madeleine L´Engle foi uma escritora estadunidense tendo como principal livro o seu best seller "Uma Dobra no Tempo", série de cinco livros de ficção cientifica para jovens adultos que também foi bastante premiado e lhe concedeu muito reconhecimento. Antes de lançar o livro ela teve o manuscrito recusado por mais de 20 editoras, que considerava a sua obra: "Ou muito infantil, para o público adulto, ou muito adulta para o público infantil".

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