Resenha: Meu Cio é Seu - Leila Loureiro

fevereiro 21, 2018 / Clara Gianni /

Lançando mão de uma prosa reflexiva com nuances de poesia, o livro de Leila Loureiro busca responder à pergunta "você acredita em vida após o amor?" feita por Cher.




Tão reais quanto as chamadas “séries conforto” são o que chamo de “livros conforto”. Explico. São aquelas obras que, embora não necessariamente simples ou pouco densas, são capazes de te fazer relaxar e acalmar um pouco os ânimos após (ou até durante) uma ressaca literária das mais pesadas. Aquele livro para descongelar o cérebro, como gosto de pensar.

Embora não trate de um tema exatamente leve, “Meu Cio é Seu” é dotado de uma certa dose de profundidade sem ser prolixo. Tomando emprestado um ar de prosa poética, a narrativa traz à memória esta modalidade de poemas curtos e frases sucintas que têm feito sucesso ultimamente em livros como “Outros jeitos de usar a boca” e páginas nas redes sociais como a conhecida “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente”. Capaz de fazer refletir sem perder a facilidade de comunicar, a escrita de Leila Loureiro é acessível e confortável diante dos anseios e desilusões da classe média da década de 2010.



A intenção de que a leitora (lembremos, potencialmente pertencente à classe média) se identifique, se encaixe na narrativa e a tome como sua já se nota na construção da protagonista: uma mulher sem nome, sem rosto, presumidamente heterossexual, na casa dos trinta. A trama se inicia com o término de um casamento de longos anos com Sérgio, um homem de quem pouco sabemos - e pouco importa saber, posto que aqui adentramos num mundo subjetivo, introspectivo, em que fatos ou nomes não necessitam ser explicitados, mas os sentimentos sim. A arma do crime: um bilhete de despedida um tanto quanto cruel (“Deixo você exatamente como a encontrei, fora de si!”) e um espaço vazio na cama. Nossa protagonista, a partir de então, atravessa uma jornada psicológica de reconstrução (e redescoberta!) de si mesma como uma espécie de Benjamin Button, ao experimentar simbolicamente a morte daquilo que costumava ser. Reinicia pela velhice - quando, a passos lentos, recomeça a vida -, perpassa a juventude, diverte-se na infância, renasce e é, por fim, concebida. Tais estágios se distribuem em cinco atos ao longo da trama.

Quando digo que o tema não é exatamente leve, é porque não tem a pretensão de ser: nos primeiros momentos do livro, experimentamos a dor seca vivida pela personagem que, agarrada à ilusória e fastidiosa rotina do casamento tal qual a um pulmão artificial, necessita aprender a respirar sozinha pela primeira vez em anos. Não se trata, contudo, de uma dor hermética, difícil de entender: a autora brinca com palavras e sonoridades de forma desenvolta e íntima, confortando a personagem ao mesmo tempo em que conforta a quem lê. E, se falamos de pretensões, é bem verdade que “Meu cio é seu” não deseja ser uma narrativa linear, tampouco construir uma tensão que culmine em clímax - o que não é demérito. O livro parece pretender, de fato, ser um grande poema transcrito para a prosa, um convite à apreciação de um punhado de jogos de palavras criativos, de aforismos e máximas escritas aqui e acolá, de situações do cotidiano específico que a autora se propôs a narrar. Uma leitura contemplativa, portanto.



Claro que, diante destas intenções, o texto incorre em certos clichês de tempos em tempos. Por vezes, reflexões de ar intelectualizado soam caricatas, quase risíveis:

“É estranho que o filme da minha vida não tenha passado. Se passou, não vi. Dormi diante da minha vida. E eu sempre achei que meu filme seria felliniano”. (pg. 23)

E se estamos falando em jogos de palavras - tão parodiados nas redes sociais de uns meses para cá -, é inevitável que um deles não soe tão inspirado quanto se pretendia - na forma de um dos vários poemas deixados pelo ex marido da protagonista ao longo da relação:

“‘Se há vida/ Se ávida/ Se a vi, dá’”. (pg.20)

(Que a Deusa me perdoe, tive uns war flashbacks dos infames “Febre amarela/ Febre amar ela”, “Atualmente/A tua mente/Atua ou mente” e “Eternamente/Éter na mente” quando li estes versos).



Os pontos altos da trama são aqueles em que a personagem se propõe a investigar acerca da natureza da solidão. Em uma das cenas, esta recorda-se de um diálogo travado, ao fim da adolescência, com uma professora de filosofia:

"A solidão lubrifica a chegada do próximo amor, eu pensava.
- A solidão é como o solo que nos constitui, uma vez que somos, e não estamos, sozinhos. Entre um ser e outro há um abismo.
- E o amor, Madame Glória? - perguntei.
- O amor une pessoas eternamente separadas, sendo saudável que a gente cultive a solidão, pois assim se ganha presença e não é sentida a dor da ausência - ela respondeu". (pg. 45)

É ainda mais reconfortante observar que, neste processo de reconstrução, esta jovem mulher aprende a procurar (e a encontrar) dentro de si aquilo que outrora procurara nos outros:

"É preciso ceder na relação consigo. É preciso perdoar a traição que cometemos contra nossos desejos. É preciso tolerar nosso lado mais sombrio. É preciso renovar os votos da união que se estabelece entre nosso corpo e alma no momento em que surgimos nesse mundo". (pg. 56)

Decerto que algumas situações se resolvem rápido demais, como quando a protagonista toma um tempo de seu emprego para viajar até uma ilha, aproveitando o ambiente bucólico e, por fim, conhecendo um típico “garoto da praia” (surfista, bronzeado, musculoso, tatuado, fã de Bob Marley, tudo isso enrolado num papelzinho de baseado pra presente) com quem mantém um caso fugaz. Aponto novamente, contudo, que a preocupação de “Meu cio é seu” não é tanto com a forma, mas com o conteúdo e os sentimentos, para o bem ou para o mal.

E sentimentos são algo que a obra tem de sobra.

O trabalho gráfico da Editora Empíreo está, como sempre, impecável. O livro, uma novela com pouco mais de 80 páginas, é facilmente concluído em menos de um dia - e as fontes do texto, bastante confortáveis, contribuem. Não notei erros de revisão (se houver, são pouquíssimos), e a edição segue muito bem feita.



"Não importa qual o nome da ilha, assim como não importa o nome da cidade. O que interessa é que todos temos uma ilha para a qual fugir. Todos temos um templo, um refúgio, um lugarzinho no meio do mundo que nos traz mais pra perto do que somos. Todos temos um campo aberto para correr nos dias selvagens". (pg. 56)

Não faz mal nos entregarmos a um pouquinho de autoindulgência de vez em quando. Retornos à zona de conforto nos ajudam a compreender melhor as mudanças que se operam dentro de nós, são necessários (depois de uma semana me entupindo de qualquer conteúdo relacionado a Devilman Crybaby à época desta resenha, sei bem como é preciso tomar tempo e dar uma respirada entre obras muito chocantes). “Meu cio é seu” pode, sim, ser uma dessas leituras confortáveis. Mas nem por isso será vazia, comprovando que é possível relaxar em uma leitura a qual, embora descompromissada, possua um pouco mais de densidade.


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Meu Cio é Seu
Autora: Leila Loureiro
Editora: Empíreo
Ano: 2017
Skoob: 0 Estrelas / Goodreads: 3.5 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
04 Estrelas
Em tempos de acirrada discussão sobre feminismo, machismo, guerra de sexos, gêneros, liberdade e opressão, uma personagem “desdecora” sua vida padronizada, questionando a existência sadomasoquista moderna e colocando o chicote nas mãos do algoz certo: o tempo! Em Meu cio é seu, o ciclo da vida é invertido, fazendo com que a morte seja um ponto de partida rumo ao acerto de contas
Autora: Leila Loureiro é advogada, mestre em Direito e professora universitária. Paraense, há sete anos radicada no Rio de Janeiro, frequentou o curso de roteiro da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Foi apresentadora de TV e agora realiza um sonho antigo: publicar seu primeiro livro.

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