Resenha: A Senhora da Magia - Marion Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon #1)

abril 09, 2018 / Clara Gianni /

Seria possível separar uma obra de ficção da persona de seu autor?





ADVERTÊNCIA (ALERTA DE GATILHO): A autora do livro objeto desta resenha (Marion Zimmer Bradley) foi acusada de abuso sexual por sua filha, Moira Greyland, bem como de acobertar os abusos cometidos pelo marido Walter Breen. As acusações datam de junho de 2014, quinze anos após a morte da autora, em 1999, e podem ser encontradas aqui e aqui. O SOODA Blog e seus colaboradores, enquanto apoiadores das causas sociais, repudiam terminantemente quaisquer condutas e mídias de entretenimento que façam apologia a pedofilia, abusos e violências sexuais, físicas ou psicológicas. Serão pautadas nestes valores as resenhas referentes aos quatro livros da série As Brumas de Avalon. Algumas passagens listadas neste texto podem conter descrições de abuso, incesto e estupro - aqui listadas para fins de denúncia.

Quando li As Brumas de Avalon pela primeira vez, estava prestes a concluir o ensino médio e pouco conhecia de feminismo. A proposta, no entanto, me atraiu logo de primeira: uma recontagem do mito do Rei Artur, sua espada Excalibur, o mago Merlin, a Távola Redonda e o lendário reino de Camelot sob a perspectiva das mulheres presentes nos acontecimentos — em especial Morgana, sua irmã; Viviane e Morgause, suas tias; Gwenhwyfar (ou Guinevere), sua esposa; e Igraine, sua mãe. Parecia maravilhoso para mim ler uma história de fantasia tomada por mulheres tão complexas e diferentes entre si, em um gênero com tantos protagonistas masculinos. Mais ainda considerando a época em que foi escrita — entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80, quando o protagonismo feminino na literatura fantástica (especialmente nos nichos de Marion, fantasia e ficção científica, através da antologia Darkover) era raro, para não dizer quase nulo (com raras exceções).

E não era para menos: devorei os quatro volumes da série (compostos por A Senhora da Magia, A Grande Rainha, O Gamo-Rei e O Prisioneiro da Árvore) em menos de um mês. As descrições da ilha de Avalon, onde residiam sacerdotisas consagradas a serviço da Deusa, alimentaram minha curiosidade sobre cultos pagãos, mitos celtas e druidas, bem como ocultismo e wicca moderna. Além disso, Morgana Le Fay — sem dúvida, a protagonista de toda esta história — logo tornou-se uma das minhas personagens favoritas da ficção, aquela com quem me identifiquei logo de cara por ser pequena e baixinha, como o povo das fadas (o que lhe conferiu a pejorativa alcunha de “Morgana das Fadas”), mal aparentando a idade que tinha, embora dotada de inteligência e sagacidade superiores às de qualquer homem da Bretanha, impondo sua presença e respeito para onde fosse. Por fim, passei raiva, me empolguei, fiquei feliz e triste por todos os personagens ao longo da história e, por um bom tempo, a série figurou entre meus livros favoritos. Nos tempos de meu finado blog Relicário Literário, inclusive, escrevi minha primeira (e empolgada) resenha sobre os quatro livros. Entendi, por fim, o porquê de As Brumas de Avalon ser considerado um clássico empoderador de sua época, coerente com as discussões da chamada “segunda onda feminista” (que abordava, principalmente, a emancipação sexual e o controle do próprio corpo).



Então, um ou dois anos após a leitura, tomei conhecimento das acusações contra a autora. Li os textos escritos por sua filha, os comentários e as reportagens da época. Fiquei em choque. Não conseguia conciliar a ideia de que uma das histórias mais feministas que já tinha lido, até então, fora escrita por uma abusadora de crianças. Passei muito tempo pensando que nunca mais tocaria naqueles livros, até surgir a oportunidade de resenha-los por aqui pelo SOODA. E eu sabia que precisava fazer esse texto.

O primeiro livro tem como pano de fundo as invasões dos povos saxônicos pelo norte da Bretanha, em meio à crescente disseminação do cristianismo nos reinos da região, decorrente das dominações romanas de outrora. Roma, contudo, já não é como antigamente — ela mesma enfraquecida por invasões bárbaras em seu território — e os bretões se vêem sozinhos contra a ameaça. O Grande Rei da Bretanha, Ambrósio Aureliano, está velho e enfraquecido pelos anos de combate, urgindo a escolha de um novo rei. Em meio a estes acontecimentos turbulentos, Igraine, jovem esposa de Gorlois — duque de guerra e um dos homens de confiança de Ambrósio —, recebe a visita de sua irmã Viviane, a Senhora do Lago (o mais alto escalão alcançado por uma sacerdotisa de Avalon), e de Taliesin, o Merlin da Bretanha (Merlin, aqui, é um título reservado ao grande druida que deve acompanhar e aconselhar a Senhora). Em uma espécie de “anunciação” às avessas, ambos notificam a garota de que esta dará à luz o próximo Grande Rei, aquele que unificará os povos pagãos e cristãos em uma única bandeira e expulsará os saxões para fora da Bretanha de uma vez por todas — não será filho de Gorlois, contudo, mas de Uther Pendragon, principal aliado de Ambrósio e favorito para sua sucessão. Casada com o duque há cinco anos, tendo com ele a pequena Morgana, de quatro, Igraine rejeita a ideia logo de cara. O destino se concretiza, contudo, com Igraine concebendo Artur, e Uther tornando-se o Grande Rei. Conforme os anos passam, Morgana e Artur seguem caminhos bem distintos: durante a adolescência, aquela é treinada por Viviane para tornar-se sacerdotisa da Deusa; enquanto este é enviado ao reino de um dos aliados do pai, criado e treinado como cristão na arte do combate, até que esteja apto a assumir seu lugar de direito como rei.

O traço mais evidente, que logo se nota nas primeiras páginas do romance, é a crescente tensão entre o cristianismo dos reinos bretões romanizados e os povos antigos adoradores da Deusa, representados por Avalon e a Ilha Dragão. Através de reflexões de Taliesin e Viviane — além da própria Igraine que, aos 19 anos, é constantemente maltratada pelo marido, sem saber a quem recorrer —, somos induzidos a acreditar que, de alguma forma, o sagrado feminino invocado pelos cultos à Deusa Ceridwen (no livro) seria muito mais “empoderador” que a opressão exercida pelos padres cristãos sobre as mulheres. E tudo parece indicar justamente isso: quando Morgana começa a desenvolver seus dons sobrenaturais (chamados de “Visão”), logo é rechaçada como louca pelo padre da corte de Uther, e aconselhada pela mãe a manter segredo. Na melhor das hipóteses, teria sido enviada a um convento e atormentada por aquelas “imagens demoníacas” por toda a vida, se não fosse pela intervenção de Viviane a tomá-la como pupila, levando-a até Avalon. Com uma segunda leitura mais atenta, munida das informações recentes sobre a autora, contudo, entendo que não é bem assim.

Embora permita certa liberdade às suas adoradoras e conceba o sexo como um fenômeno sagrado, o culto à Deusa passa muito, mas muito longe da utopia feminista com que o livro é (e sempre foi) vendido. Enquanto governante de Avalon, Viviane é implacável em suas manipulações, interferindo e utilizando as pessoas a seu redor como joguetes, sob a desculpa de que “efetua a vontade da Deusa”, isto é, tentar salvar a Bretanha. Nem que para isso tenha de casar a irmã, aos quinze anos, com um homem de quase o dobro de sua idade; nem que tenha de praticamente impôr a esta mesma irmã, anos depois, a casar com outro homem; nem que tenha de resguardar a virgindade de Morgana para ser retirada em um dos rituais anuais de Beltane; acima de tudo, nem que tenha de obrigá-la a manter relações sexuais incestuosas. E, acredite em mim, as reações não são poucas: todas a confrontam, exigindo, com toda a razão, que Viviane não interfira em suas vidas. E esta, embora também sofra as consequências de seus atos, sempre respondera mais de uma vez: é a vontade da Deusa.



Convido o leitor a se perguntar, junto comigo, que Deusa é esta que permite o abuso de suas filhas em uma religião que, teoricamente, sacraliza a mulher. Que Deusa é esta que, nos rituais de Beltane em honra à fertilidade, determina que irmãos se relacionem sem saber (e contra suas vontades). Que Deusa é esta tão indiferente ao estupro de crianças pequenas? Na prática, não me parece que esta pretensa Deusa seja assim tão diferente do implacável Deus dos cristãos romanos; tampouco me parece que qualquer um dos lados represente libertação a uma jovem do sexo feminino, condenando-a a seguir seu “destino”, seja qual for.

Iniciei esta resenha questionando se é possível separar o autor de sua obra — pergunta constantemente levantada após o fenômeno Weinstein, e a cadeia de acusações e denúncias que se seguiu em Hollywood e além. Duvido muito que encontremos, tão cedo, uma resposta a esta pergunta — e devo confessar que esta segunda leitura de A Senhora da Magia começou um tanto agradável, lembrando-me do carinho que um dia tive pela obra. Sabendo o que sei, no entanto, e revisitando alguns posicionamentos da própria autora sobre consentimento, trechos que passaram despercebido em minha primeira leitura ganharam contornos muito mais cruéis.

(AVISO DE GATILHO)

Quando Morgana passa pelo ritual de Beltane pela primeira vez, esta é uma das cenas que mais chamam a atenção:

“A lua invisível fora da caverna inundava seu corpo de luz enquanto a Deusa ressurgia dentro dela, corpo e alma. Ela estendeu os braços e, com um comando, soube que, fora da caverna, sob a luz das fogueiras fecundantes, homens e mulheres, atraídos uns aos outros pelas ondas pulsantes de vida, se uniam. A menininha que havia levado o sangue fertilizador foi arrastada aos braços de um caçador velho e forte, e Morgana a viu brevemente lutar e gritar, ir para baixo do corpo dele, as pernas se abrindo à força irresistível da natureza. Ela viu, sem visão, os olhos fechados contra o brilho da tocha, ouvindo os gritos”. (pg. 202-203)

O que mais me dói, talvez, é a banalidade com que essa situação é tratada, o que me levou a sequer percebê-la da primeira vez. E sim, é estupro. Sim, é pedofilia.

E pergunto-me, agora, quanto da fala de Viviane não seria o pensamento da própria autora, quando Morgana a confronta por tê-la obrigado a perder sua virgindade com Artur nos ritos sagrados:

“— Viviane, por quê? — E sentiu, com vergonha, que as lágrimas subiam de novo para sufocá-la.
Agora a voz de Viviane estava fria:
— Terei deixado você tempo demais entre os cristãos, no fim das contas, com toda aquela conversa de pecado? (...) Bem, não há nada que possamos fazer a respeito disso agora. O que está feito está feito. E, neste momento, a esperança da Bretanha é mais importante que os seus sentimentos.” (pg. 216)

(Esta citação em questão me remonta a um email de Moira para o The Guardian. Ela afirma ter escondido suas acusações, até então, por medo de prejudicar o legado de Bradley, crendo ser a vida da mãe mais importante que a sua)

Os sentimentos da personagem são, sem dúvida, os de uma vítima de abuso:

“Finalmente sozinha na Casa das Donzelas, em seu próprio quarto, poderia chorar se desejasse; mas as lágrimas não vinham, apenas perplexidade, dor e a raiva que não tinha como expressar. Era como se todo o seu corpo e toda a sua alma estivessem presos em um grande nó de angústia” (pg. 208)

Não desejo me estender tanto nesses trechos. Confesso que grande parte dessa segunda leitura transcorreu normalmente e, pessoalmente, consegui separar a obra de sua autora em muitas passagens, o que não considero mérito — reconheço que, principalmente para vítimas de abuso, é impossível se aproximar de um texto como esse. E eu mesma já não pude mais ignorar as evidências gritantes espalhadas pelo livro, mesmo que pontuais. Justamente por conta disso é que não desejo colocar um fim definitivo neste embate entre o autor e a obra: por mais que consigamos dissociar um ao outro, e buscar aproveitar apenas os pontos positivos da criação (no caso: uma narrativa viciante, personagens fortes e boa ambientação), há momentos em que estas linhas já não são tão visíveis, e podemos nos confrontar com tristes situações, como aquelas descritas acima.

Ainda há muito o que revisitar nos próximos livros e, se me proponho a continuar escrevendo, é para reanalisar com responsabilidade e problematizar uma obra consagrada, em função da fama de sua autora e das várias vítimas que silenciou ao longo da carreira.

Porque os sentimentos de Morgana são mais importantes que o tal “destino da Bretanha”. E o sofrimento de Moira (e de tantas outras meninas e meninos) é muito mais importante que o legado de sua mãe.

Confira a resenha de "A Grande Rainha", segundo volume de As Brumas de Avalon.


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As Brumas de Avalon (The Mists of Avalon)
Volume Único
Autora: Marion Zimmer Bradley
Editora: Planeta
Ano: 2017
Skoob: 4.7 Estrelas / Goodreads: 4.1 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
03 Estrelas
Grande clássico da literatura mundial retrata a mítica história do rei Artur a partir da perspectiva de mulheres mágicas e poderosas. Por séculos, as lendas arturianas povoaram o imaginário de leitores de todo o mundo. As Brumas de Avalon é considerado por muitos a versão literária definitiva do mito e muitas gerações de mulheres se deixaram arrebatar pela escrita envolvente de Marion Zimmer Bradley. Pelos olhos de mulheres complexas e poderosas como Morgana das Fadas, Viviane, a Senhora do Lago, Igraine, Morgause e Gwenhwyfar, os reinos de Camelot e de Avalon são revisitados neste clássico, repleto de magia, sensibilidade e intrigas. Uma releitura monumental das lendas arturianas...
Autora: Marion Zimmer Bradley começou sua destacada carreira como autora em 1961, com seu primeiro romance, A porta através do espaço. No ano seguinte, escreveu o primeiro livro da popular série Darkover, Sword of Aldones [Espada de Aldones], logo indicado ao Hugo Award. Esta série será adaptada para a TV, pela Amazon. Seu romance A torre proibida também foi indicado ao Hugo, e A herança de Hastur, ao Nebula Award.

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