Resenha: Filhos De Nazistas - Tania Crasnianski

abril 02, 2018 / Fábio Andrade /

Os filhos dos nazistas contam histórias de suas famílias.




As atrocidades da Segunda Guerra Mundial ainda permanecem vivas como uma ferida que nunca pode cicatrizar, e este talvez seja o seu maior proposito: lembrar futuras gerações dos tipos de horrores que o humano pode cometer em busca de um único ideal. Esse período rubro manchado por sangue inocente marca uma ruptura na história do homem moderno, mas quem será o culpado por tudo isso? Apenas Adolf Hitler teria sido o mandante por trás da higienização racial? Se sim, essa seria a resposta mais rápida e menos dolorosa, mas a história nos mostra que a verdade ainda é mais cruel, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP – tradução germânica) com mais de 8,5 milhões de filiados até 1945, tinham mais carrascos do que podemos imaginar.

Himmler, Göring, Hess, Frank, Bormann, Höss, Speer e Mengele são alguns exemplos clássicos de homens que perderam sua humanidade por um discurso idealista sedutor. Homens que assinavam a morte de milhões de judeus sem ao menos acreditar que os que estavam indo para as duchas eram seus semelhantes, mas como os carrascos do nazismo se portavam diante de suas famílias? Como seus filhos reagiam ao saber quem eram seus pais? E a maior pergunta que este livro nos traz: Os filhos são culpados pelos atos de seus pais?

“Devemos nos sentir responsáveis, ou mesmo culpados, pelo que nossos pais fizeram? – pag. 10”

Tania Crasnianski nos fornece em seu livro mais do que uma advertência voltando a um passado tão sombrio, mas também, uma forma da própria autora se desculpabilizar dos acontecimentos horríveis da segunda guerra. Neta de um ex-oficial das forças áreas alemãs no período nazista, Tania se enquadra também na faceta pouco conhecida desse período, e em muitos momentos podemos perceber a voz da escritora entre os acontecimentos ligados as pessoas citadas no livro, trazendo uma característica única para essa obra do selo Vestígio.



O livro não é uma ficção, e isso não tira nenhuma carga emocional de que narrativas especulativas poderiam ter sobre ele, pelo contrário, me senti extremamente emotivo e empático enquanto lia. Tudo isso graças a escrita de Tania e os fatos levantados por ela com seu comprometimento com a verdade; o livro em si não tenta provar em nenhum momento pontos sobre conceitos que voltaram a discussões sociais nos últimos tempos, ele traz mais reflexões ao ser humano do que argumentos históricos.

“O que realmente sei dele? Pergunta-se Martin Adolf a respeito do pai que cresceu sem conhecê-lo. – pag. 125”

Um detalhe muito interessante que podemos destacar do Filhos de Nazistas é a sua disposição de capítulos, trazendo os primeiros casos como o de Gudrun Himmler relatando toda paixão descomunal que a garota tinha por seu pai, o tão temido Reichsführer-SS Heinrich Himmler, comandante militar da SS que não hesitava em submeter judeus as piores torturas em prol de seus conhecimentos ocultos; e por todo esse afeto, até hoje Gudrun acredita nos ideais de seu pai, prova disso é o seu trabalho voluntário de ajuda silenciosa a oficiais da SS que ainda estão sobre a mira da justiça mundial.



O livro cresce preparando o leitor a se questionar sobre quão responsável são essas crianças por crescerem à sombra de pais tão zelosos como Himmler e Göring, tratando suas filhas como verdadeiras princesas em meio ao terceiro reich. Esse último, Hermann Göring – comandante chefe da Luftwaffe, não media esforços para acatar luxuosos e fúteis desejos de toda sua família; considerado como o Nero da Alemanha Nazista via em Edda, sua pequena princesa, uma grande mulher alemã que levaria ao futuro os ideais do nacional socialismo. Essa por sua vez – assim como Gudrun – tenta até hoje manter a imagem do pai intacta como um herói da primeira e segunda guerra mundial. As duas foram tratadas como se fossem o centro do mundo, vivendo em castelos e tendo tudo o que quisessem a hora que escolhessem, até que ponto eles deveriam – e poderiam – julgar os atos de seus pais vivendo nessas condições? O livro deixa claro que a proximidade dos dirigentes com seus filhos está diretamente ligada a quanto eles os aceitam, entendem e fecham os olhos para os atos de seus pais, coisa que não aconteceu da melhor forma com os filhos que são retratados do meio para o final do livro.

“O quarto mandamento do Decálogo só impõe aos filhos que amem e respeitem seus pais enquanto pais, não enquanto pessoas que exercem uma função na sociedade. – pag. 128”

Essa narrativa gradativa, me fez como leitor, ter minhas opiniões – formadas no início do livro – postas em xeque com a vida dos demais personagens do livro. Estou falando dos filhos de Albert Speer e Josef Mengele - o arquiteto do diabo e o anjo da morte nazista. Onde seus filhos, ainda vivem sob o fardo de seus pais precisando destruir o dilema entre prosseguir suas vidas ou acabar com a reputação desumana criada pelos genitores. Tarefa mais presente na vida de Albert Speer Jr., que após seguir os passos do pai tomando seu oficio como herança, onde antes o sobrenome remetia ao principal arquiteto do nazismo, hoje ele tenta reestruturar toda um novo ideal para a arquitetura mundial.



O Brasil é um ponto importante nesse livro. Tania deixou para o último capitulo a história de Rolf Mengele, filho do médico chefe de Auschwitz, tendo como herança todas as atrocidades que seu pai cometia contra judeus em busca da raça ariana. Mengele fugiu dos aliados conseguindo abrigo na argentina pelo governo de Juan Perón que – de certa forma – apoiava as ideias nazistas. Após a queda do governo argentino, Mengele percorreu países da américa do Sul até se instalar em São Paulo, trocando de nomes diversas vezes na tentativa de despistar os caçadores de nazistas, se vê cara a cara com o filho que anseia por respostas sobre o passado.

A leitura é extremamente acessível e a tradução de Fernando Scheibe deixa muito claro que a editora fez um trabalho bastante crítico para a publicação de Filhos de Nazistas. Um ponto forte da edição são as imagens. Durante a leitura, nos deparamos com pessoas na qual modelamos suas fisionomias e em diversos pontos acreditamos que eles são apenas personagens de uma ficção, mas quando podemos ver seus rostos e suas emoções ao lado de pessoas que cometeram atrocidades contra a humanidade, entendemos o quão real foi e ainda é essa cisão histórica.

“Qualquer outro método de extermínio, especialmente ao ser aplicado a mulheres e crianças, teria sido “penoso demais para os SS que o aplicassem”” – pag. 143”

O comprometimento com a verdade é a peça fundamental do livro, porém este foi o ponto no qual posso fazer uma pequena crítica quanto a diagramação, mas entendam que é algo mais envolvendo gosto pessoal do que um fator que possa atrapalhar a leitura ou diminuir seu valor. Durante a leitura, vemos diversos pontos que remetem a notas de explicações, porém elas ficaram para o final do livro, fazendo com que eu tivesse que parar no meio do capítulo – na tentativa de um entendimento melhor – indo até a sessão de notas para compreender a referencias, mais uma vez ressaltando, vejo isso como questão de gosto, sem interferir em nada todo o brilho no trabalho de Tania.



Filhos de Nazistas é uma leitura obrigatória para você que é fascinado pela história da segunda guerra mundial, o livro lhe proporciona uma experiência incrível lhe imergindo na pele de pessoas que – até certo ponto – também foram vítimas de guerra, fazendo com que ao final da leitura você tenha questionamentos tão profundos de si mesmo quanto a necessidade de responder à pergunta: o que eu faria no lugar deles?


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Filhos De Nazistas (Enfants de nazis)
Autora: Tania Crasnianski
Editora: Editora Vestígio (Grupo Autêntica)
Ano: 2018
Skoob: 4.3 Estrelas / Goodreads: 3.9 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
05 Estrelas
Até 1945, seus pais eram considerados heróis. Depois da derrota alemã, ficou claro que eram carrascos. Gudrun, Edda, Niklas e os outros retratados neste livro são os filhos de Himmler, Göring, Hess, Frank, Bormann, Höss, Speer e Mengele, alguns dos principais responsáveis pelo horror nazista. Crianças ou adolescentes durante a guerra, eles a viveram sob a proteção de seus pais afetuosos e poderosos. Para eles, a queda do Reich foi um verdadeiro choque de realidade. Inocentes, inconscientes dos crimes de seus pais, descobriram então toda a sua extensão. Alguns julgaram e condenaram. Outros continuaram reverenciando esses homens execrados por toda a humanidade. Filhos de nazistas retrata a ascensão e o cotidiano, ao mesmo tempo extraordinário e banal, desses altos funcionários que realizavam diariamente seu trabalho de morte – e depois conviviam com suas famílias, instaladas por vezes ao lado dos campos de concentração e extermínio – e descreve as existências singulares de seus filhos ao se tornarem adultos: a queda, a miséria, a vergonha ou o isolamento. Que laços eles mantiveram com seus pais? Como viver com um nome amaldiçoado pela História? Em que medida a responsabilidade pelos crimes é transmitida aos descendentes?
Autora: Tania Crasnianski de origem russa, francesa e alemã, Crasnianski foi advogada penal em Paris. Seu avô materno, um ex-oficial da Força Aérea Alemã durante o período nazista, sempre se recusou a falar sobre aqueles anos. Essa foi uma das razões que a levaram a escrever este livro, e assim procurar compreender as implicações desse passado obscuro no presente. Hoje, vive entre a Alemanha, Londres e Nova York.

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