Resenha: Jack o Estripador - Rastros de Sangue - Kerri Maniscalco (Darkside Books)

abril 02, 2018 / Redação SOODA /

Um dos maiores assassinos de todos os tempos, reimaginado por Kerri Maniscalco, trazendo à discussão temas como empoderamento feminino, medicina legal misturados com um toque de 'Sherlock Holmes'




Século XIX. Período nebuloso e obscuro na Inglaterra, especialmente a partir de 1850, com o reinado da Rainha Vitória. Apesar da prosperidade e avanços da tecnologia, muitas doenças se instalaram nesse período, unido a uma sociedade ainda retrograda em muitos aspectos. Foi um período de ascensão das histórias de investigação, horror e mistério. Mary Shelley, Bram Stoker deixaram o seu legado. E as Penny Dreadfuls que levava o terror para todo mundo. Enfim, esse período nebuloso na Inglaterra, foi também um chão propicio para um dos maiores seriais killers instalar suas fundações.

Jack: O Estripador. Um homem que assassinou pelo menos cinco mulheres, criando, junto com a imprensa, um terror que pouco se viu em uma cidade como Londres, antes das Grandes Guerras Mundiais. 2 mil pessoas interrogadas, pelo menos 800 investigados e 80 presos. E no final? Jack: O Estripador continuava solto (ou preso). Um mistério, que pode ter sido descoberto, somente em 2014, por um autor que afirma ter descoberto a identidade do Serial Killer (Maiores informações, clique aqui).

A história desse grande Serial Killer se tornou um terreno propicio para várias reimaginações da literatura. E uma delas, foi da autora Kerri Maniscalco, que chegou em 2018 no Brasil pela Editora Darkside Books. Trazendo a possibilidade de se imaginar motivações, sem contar uma investigação realizada por uma mulher, algo impensado no século XIX. É uma história para se assentar no passado e refletir o futuro. É uma história para se fascinar por um dos maiores assassinos em série já conhecidos, num dos períodos mais obscuros, e também pensar o papel da quebra do patriarcado nos dias de hoje. Uma combinação perfeita, não?



COMO TUDO COMEÇA?

A primeira página já leva os leitores a vivenciar uma autopsia, do século XIX. Isso porque Audrey Rose, uma jovem de 17 anos, filha de um grande aristocrata da época, está em pleno aprendizado com o seu tio renegado por trabalhar com mortos, ou o que eles tinham a contar sobre a sua morte, por meio da forma como os corpos eram encontrados. Assim funciona o trabalho dos legistas. A questão é que se isso não era bem visto a um homem do porte do seu tio, imagine para ela, uma jovem de 17 anos que deveria ser imaculada e pronta para casar. A Função Social da maioria das "mulheres de bem" na época. Porém, ela conseguia se desvencilhar do seu dever para seguir a sua vontade de ser maior do que o destino lhe propunha na época.

Junto dela e seu tio, conhecemos uma figura com a acidez e arrogância de Sherlock Holmes. Bom nas deduções. Difícil no trato com as pessoas. Esse era Thomas Cresswell. Um jovem que também estava disposto a seguir a carreira de investigação, mas antes precisava "baixar a sua bola", e talvez Audrey Rose, fosse a responsável por essa grande mudança.

Os três ao chegarem no laboratório do Tio de Audrey tinham uma grande missão pela frente. Encontrar um assassino de uma jovem que tinha sido extirpada, ficando inclusive sem seus órgãos internos. Começara a caça dos três ao famoso Jack: O Estripador. Na verdade não somente os três, como Scotland Yard toda, além da imprensa local. Isso seria mais difícil do que se imaginava.



UMA PROTAGONISTA ÚNICA

Um dos maiores acertos dessa história criada por Manisclaco foi a protagonista Audrey Rose. Uma jovem que reconhece o papel desempenhado na sociedade e a todo o tempo tenta quebrar paradigmas. Ela, tenta mostrar a todos os homens que lhe rodeavam, sua capacidade perante ao seu trabalho como legista. Era difícil, a sociedade daquela época era implacável. Mesmo tendo uma rainha no trono. O que não significava nada para aqueles homens daquele período.

De certa forma, Audrey representa muitas mulheres daquela época, que queriam ser muito mais do que avassaladas dos seus maridos. e também dos dias de hoje, visto o machismo que ainda está arraigado em nossa sociedade. Ao mesmo tempo que estamos diante de uma sociedade cruel, como a do século XIX, refletimos sobre atitudes do século XXI. Fico imaginando o quanto isso é importante para as mulheres dos dias de hoje.

E se você acredita que Audrey está sozinha nessa lista, precisa conhecer Liza. Uma jovem que apesar de não está inserida no mesmo contexto da prima, tem as suas formas de combater o patriarcado existente. Era mais sutil e diferente, sempre demonstrando respeito ao que a Audrey fazia. Mostra que são muitas vozes que precisam ser ouvidas quando se diz respeito ao empoderamento feminino. Não somente X, ou Y. Afinal de contas, somos pessoas diferentes, e temos anseios diferentes. E todos devem ser respeitados.



UMA INVESTIGAÇÃO DE LEGISTAS

Hoje em dia, o trabalho dos legistas já são bastantes valorizados. Inclusive alguns crimes já são desvendados basicamente com o trabalho da ciência forense. O que não era o caso do século XIX. A pesquisa de Maniscalco mostra bem como a profissão ainda era muito desrespeitada nesse momento da história. É possível ver o tio de Audrey ser renegado da família (não somente por isso), devido a sua escolha em procurar resolver crimes, por meio da medicina. O trabalho da autora foi bem minucioso a fim de transportar os leitores para uma investigação desse porte. Ao final, quando a autora fala sobre algumas imprecisões histórias, ela ainda ressalta o que já era feito naquele período para desvendar um crime. O que é possível ver em sua obra.

Em entrevista para a Darkside Books, a autora se posiciona muito bem sobre essa escolha "Eu não vi nenhuma versão em que ele tivesse sido reimaginado (Jack: O Estripador) do ponto de vista de um médico legista - mais especificamente, o de uma estudante de medicina forense que tinha mais curiosidade do que medo, mais determinação do que incerteza, e que se sentia confortável tanto com suas belas sedas quanto com os aventais sujo de sangue". Com certeza, vi todos esses aspectos na história.

REIMAGINANDO JACK: O ESTRIPADOR

Como estamos falando de literatura, é natural que algumas situações nessa obra são fictícias e serviram especialmente para essa história. Porém, mesmo assim é bacana de ver vários dados que realmente aconteceram naquele momento, se sentindo imerso ao período vitoriano, é como se tivéssemos pego uma máquina do tempo e tivéssemos sido levados ao momento dos assassinatos, a forma como os corpos foram encontrados. E mais. Como muitas das histórias das vitimas sequer foram conhecidas, a imaginação da autora nos ajudou a ter empatia sobre a vida de jovens, que foram ceifadas. Independente do que elas fossem. Ninguém merece morrer, especialmente mulheres que estavam trabalhando (independente da moralidade de seus trabalhos).

Alias, isso coloca a luz muitas questões sobre as reais motivações desse serial killer. Até que ponto ele estava embebido ao preconceito social daquele momento? Levando-se em consideração a "única carta" que foi verdadeiramente dada a ele os créditos, acredito que muito. Especialmente em um período onde se estimava a presença de 1,2 mil prostitutas, somente em Whitechapel. Um número muito grande de mulheres que não eram consideradas "direitas" naquele período. Porém, eram milhares de vidas e histórias diferentes. Como julga-las em uma sociedade verdadeiramente machista?

A autora ao dar histórias fictícias, porém não menos reais do comum naquele período, nos faz questionar o quanto os homens subjugavam mulheres. As vezes em uma situação de privilégio, é difícil reconhecer isso. Mas caras, isso é verdade, e precisamos mudar isso, por meio de nossas auto-consciências. Precisamos sim entender que estamos em uma sociedade desigual e é necessário equaliza-las.

NEM TUDO SÃO FLORES

Elencar os pontos positivos de uma história que amamos é fácil. Porém, parar e olhar aquilo que nos incomodou, reconhecer e contar é difícil. Mas necessário. E nessa história, um dos pontos negativos que mais me chamou a atenção, foi a facilidade para que nós leitores encontrássemos o assassino. Histórias de investigação nos dias de hoje em geral tem essa dificuldade, afinal de contas, já lemos tantas coisas que é difícil não sacar logo de cara quem é o assassino. Apesar da autora fazer um jogo com a nossa mente, se você tiver um pouco mais de disposição. Nas primeiras 100 páginas descobre quem é o Jack Estripador da Maniscalco. Apesar, de se surpreender fortemente com as motivações. Para quem gosta de manter o mistério até o final, isso pode ser uma pequena decepção.

No mais, Chegar ao final de Jack o Estripador - Rastros de Sangue é simplesmente se imergir numa rede de um serial killer da época vitoriana, se apaixonar pelo período histórico, pela investigação na posição de um legista e no final, colocar em perspectiva a importância dessa história para derrubar o machismo arraigado em nossa sociedade. É mais uma daquelas histórias que "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". E com certeza já estou na expectativa de continuar seguindo a história de Audrey Rose em meio a mais investigações, desse lindo, porém tenebroso período histórico da sociedade britânica.

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Jack o Estripador - Rastros de Sangue (Stalking Jack the Ripper)
(Stalking Jack the Ripper #1)
Autora: Kerri Maniscalco
Editora: Dakside Books
Ano: 2018
Skoob: 4.3 Estrelas / Goodreads: 4,2 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
04 Estrelas
O assassino mais perigoso da história espera por você Combine a astúcia de Sherlock Holmes com a determinação de Lia, a heroína das Crônicas de Amor & Ódio. Pronto, você já tem uma pista de quem é Audrey Rose, a detetive protagonista de Rastro de Sangue: Jack, o Estripador. Prepare-se para acompanhá-la pelos becos sombrios de Londres neste romance policial com grande pesquisa histórica. Você nunca mais vai encarar a era vitoriana do mesmo jeito após devorar este lançamento da DarkSide Books. Audrey Rose não é a típica donzela inglesa do século xix. Quando ninguém está vendo, a jovem realiza autópsias no laboratório de seu tio, contrariando a vontade de seu pai e todas as expectativas da sociedade. Ela pode não saber fazer um penteado elaborado, mas faz uma incisão em Y num cadáver como ninguém. Seus estudos em medicina forense a levam na trilha do misterioso Jack, cujos assassinatos brutais derivados de uma terrível sede de sangue amedrontam a cidade. E Audrey Rose, empoderada desde o berço, quer fazer justiça às vítimas - ​​mulheres sem voz e marginalizadas por uma sociedade extremamente sexista. Na companhia de Thomas Cresswell, o aprendiz convencido e irritante de seu tio, ela decide seguir seus instintos e os rastros de sangue do notório assassino. Afinal, nenhum homem foi capaz de descobrir sua identidade. Esse é um trabalho para uma mulher. Rastro de Sangue: Jack, o Estripador é o primeiro volume de uma série que já prevê inspiração em outros personagens clássicos da era vitoriana, como o príncipe Drácula e o escapista Harry Houdini. É também o romance de estreia de Kerri Maniscalco, autora descoberta por James Patterson, que vem conquistando o coração de leitoras e leitores em todo o mundo. Aqui no Brasil, os fãs podem esperar aquele padrão de qualidade quase psicopata da DarkSide Books. Uma edição feita sob medida para acompanhar os leitores nessa investigação cheia de reviravoltas. E, como se fosse preciso dizer, em capa dura, é claro. Rastro de Sangue: Jack, o Estripador faz parte da linha editorial DarkLove, só com livros escritos por mulheres com grandes histórias para contar. Os detalhes sobre medicina forense aproximam também os fãs de livros da coleção Crime Scene, como O Segredo dos Corpos ou os Arquivos Serial Killers, de Ilana Casoy. Recomendado também para os amantes de csi, mindhunter, o terror gótico de penny dreadful e o medo clássico de Edgar Allan Poe.
Autora: Kerri Maniscalco É apaixonado pelas obras góticas desde pequena, sua casa mal assombrada a levou a se apaixonar por esse universo. Com isso fez artes na Universidade, e aos poucos se aprofundou em outras questões como as Ciências Forense. Hoje ela está escrevendo o terceiro livro da série que tem sido sucesso por onde passa.

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