Resenha: Ferida - Nana Pauvolih

maio 28, 2018 / Redação SOODA /

Obra da autora brasileira, é vendida como 'Dark Romance', porém a romantização de temas controversos elucida-nos a questionar, quais são os limites das fantasias, que devem ser transpassadas em livros




Nota do Editor: Após a leitura do livro Ferida, da autora Nana Pauvolih, iniciou-se uma discussão interna com a equipe do Sooda Blog sobre a possibilidade de ser publicada uma resenha que referencia um livro que fere as politicas do blog. Após uma analise criteriosa, e o contato com a editora, autora da obra e outras pessoas que leram e blogueiros literários especialistas nesse assunto, nós decidimos que é importante que temas como esses sejam debatidos nesse espaço. Assim é possível uma reflexão que transcende as barreiras do "pode ou não pode". Porque nós do Sooda Blog, acreditamos que devemos viver em um país sem censura. Mas, que acima de tudo, haja respeito pelas centenas de mulheres a cada hora, que passam por situações como a protagonista da obra. Uma situação que vai além dos limites da fantasia.

Em respeito a essas vitimas, estamos publicando a resenha desse livro, excluindo qualquer tipo de link, ou incentivo a compra da obra, no qual não compactuamos com os seus pensamentos. Ao final, o leitor também pode conferir uma resposta da autora sobre a resenha, porque também acreditamos que todos tem direito de resposta. E por fim, assim como a autora diz em sua resposta, nós acreditamos que fica a cargo de cada um decidi, se vale a pena ou não investir o seu tempo na referida obra literária.

FRANCISCO CHAGAS NETO
Editor - Chefe


Mesmo nos romances de época, cujo período histórico determinava o poder patriarcal, onde a mulher era pouco valorizada e tratada muitas vezes como objeto, muitas autoras buscam enaltecer suas protagonistas, criando-as fortes, destemidas, ou mesmo que tenham características passivas, não deixam de ter sua opinião. Isso me atrai verdadeiramente para este tipo de leitura.

Precisei de algum tempo para organizar meus sentimentos e opiniões em relação a este livro, por vários motivos. Primeiro, por ter sim pontos positivos em relação à estrutura e escrita da trama e dos personagens. Segundo, por uma sucessão de acontecimentos que a meu ver formaram uma visão totalmente machista e moralmente inaceitável.

Após uma grande tragédia envolvendo os membros da sua família, Theo como primogênito dos irmãos Falcão, ficou responsável pelos negócios, sendo conhecido por todos da cidade por ser um homem de terras, poderoso, impositivo e muito rico. Além disso, Theo é diferente, tem gostos peculiares no sexo e sempre procura mulheres experientes para o seu jogo de submissão.

Seu mundo vira de cabeça para baixo quando Eva invade sua vida. Uma jovem com metade de sua idade, mas que mexeu com seus instintos desde o primeiro momento. O que ele não sabe, é que Eva tem um plano para se vingar da família Falcão e ele, é só mais uma peça em seu jogo. Ela usará todas as suas armas para seduzi-lo, o que não será fácil, afinal, existe a grande diferença de idade e a sua preferencia pelo sadomasoquismo.

O que os dois não esperavam é que entre a vingança e os fetiches obscuros, surgisse uma grande atração. Eva ficará entre o sentimento que Theo desperta em seu coração e a vingança por sua família, para a qual foi treinada desde criança. Por sua vez, Theo, terá que decidir entre a razão ou sucumbir aos seus desejos. Quem irá ceder nessa disputa?

Precisamos conversar sobre este livro. Queria muito ter amado, ter dado cinco estrelas, favoritado, mas não deu. Sinceramente, foi uma leitura que me surpreendeu por vários motivos, alguns bons e outros ruins, mas principalmente ruins. Primeiro, vamos falar de coisas boas. Inicialmente, o que mais me chamou a atenção em “Ferida” foi à escrita da autora, envolvente, criativa, simplesmente MARAVILHOSA, que te faz querer devorar todas as páginas.

Outro ponto positivo foi a trama. Diferente de cinquenta tons de cinza que pode se tornar um referencial, afinal, ambos falam da mesma temática, “Ferida” tem uma história sendo construída, tem personagens extremante bem escritos, com personalidades cativantes, que faz o leitor se apegar ou odiar. Nesse ponto, a autora consegue desenvolver a trama e deixar, nós leitores, sempre curiosos em relação ao que irá acontecer.

“- Mãos na cama – disse, em tom autoritário. – Equilibre-se enquanto me masturba com seus pés. – Ele me ensinou como fazer, chegando mais para perto, ainda sentado acomodando minhas pernas sobre as dele, movendo meus pés para cima e para baixo em volta de seu pênis.”


HÁ LIMITES PARA A FANTASIA?

Mas tiveram alguns momentos em que as atitudes dos personagens me incomodaram ao extremo. Sabemos que neste gênero, é comum ter um protagonista masculino machista e impositivo, geralmente uma personalidade que tem a ver com traumas na infância. Assim como uma protagonista feminina que vai mexer com a estrutura deste homem. Mas existem limites em relação ao que se pode romantizar, e aqui, a autora passou do ponto VÁRIAS vezes.

“- Me larga seu animal! – berrei fora de mim, apavorando-me mais quando me virei e o vi jogar a corda sobre o galho de uma árvore.”


Tem uma cena na página 234, que no meu ponto de vista é imperdoável. Eu fiquei tão chocada, tão horrorizada, que pensei duas vezes se realmente queria continuar lendo o livro. Questionei-me, se existem pessoas que poderiam achar isso de alguma forma romântica ou se quer aceitável. Queria perguntar a autora, qual foi a intensão dela em passar tão obviamente de todos os limites, afinal, que vivemos em mundo machista é fato, mas não podemos romantizar qualquer ato que envolve um “não” de uma mulher, transformando o personagem em um mocinho arrependido, conquistando o perdão dela.

O que quero dizer em poucas palavras é que não há desculpa para romantizar uma cena de violência contra a mulher. Inclusive, este ato, é considerado crime segundo o art. 213 do Código Penal, onde explicitamente aduz que “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos”. Acho que já deu pra perceber que não é brincadeira né?

São milhares de mulheres que passam por situações similares e tem seus corpos violados de forma brutal, sendo que a maioria não se recupera do trauma. E pra você que acha que o estupro só acontece entre pessoas desconhecidas como geralmente é noticiado na televisão, está muito engado. Este ato bárbaro pode ocorrer dentro do ceio familiar, entre marido e mulher, entre casal de namorados, “ficantes”, amigos. E o que caracteriza este ato é o “não”.

Esta cena, sem dúvida mexeu comigo e me fez olhar para o livro e até para o romance erótico sobre outra perspectiva. Enfim, mesmo que a trama tenha sido conduzida maravilhosamente pela autora, envolvendo uma vingança em que não sabemos quem está certo ou errado, e isso tenha sido colocado de forma misteriosa, bem como o final tenha deixado aquela expectativa para sabermos o que acontecerá nas sequencias, não consigo aceitar algumas coisas que foram empurradas goela abaixo, fazendo com que eu me sentisse mal lendo a cena descrita.

Espero que a autora desenvolva sequencias em que nós mulheres, que somos a maior fonte de consumo desse gênero, possamos nos sentir empoderadas e não ofendidas, afinal, talento ela tem de sobra.

Reposta da Autora sobre a resenha: "Respeito muito todas as opiniões. 'Ferida' é um romance erótico e trabalha com fantasias que muitas mulheres têm, ainda que controversas. Muitas leitoras (e eu me incluo nisso), gostam de fantasias sexuais pesadas, dark, o que não significa que na vida real tolerariam isso. Sabem diferenciar uma fantasia da realidade. Assim como tenho livros em que a mulher é poderosa e determinada (“Além do olhar”) e dominadora (“Redenção e submissão”), tenho outros em que o homem é bruto. A própria Série Segredos tem essa variedade grande de personagens. Não faço isso de forma ofensiva, nem de forma alguma incentivando uma postura machista de quem quer que seja. Apenas a liberdade de abordar, na ficção, as mais diversas fantasias."


Nosso último recado é: Disque 180, ao perceber que encontra-se em uma situação de abuso físico e sexual. Ou ao ver uma mulher em situação semelhante.

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