Resenha: O Iluminado - Stephen King

Poderia ser apenas mais uma história de lugar assombrado, mas é escrita pelo mestre Stephen King e você irá ler com as luzes acesas.

maio 16, 2018 - Postado Por: Rafael Lutty
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Poderia ser apenas mais uma história de lugar assombrado, mas é escrita pelo mestre Stephen King e você irá ler com as luzes acesas.


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O LIVRO
O Iluminado foi o terceiro livro do autor Stephen King, escrito em 1977. Este foi o livro responsável por consagrar o autor como escritor de terror. É um livro tenso, assustador e que em sua essência, carrega muito das próprias experiências do King.

No livro, a família Torrance – Jack, Wendy e Danny – passa por momentos difíceis por conta dos problemas alcoólicos de Jack e as convulsões do pequeno Danny. Expulso da escola onde lecionava, Jack se vê cada vez mais próximo de um total colapso familiar. As esperanças retornam quando o ex-professor consegue o emprego no cargo de zelador do hotel Overlook, que funciona durante o veraneio e fecha durante o inverno, já que todas as rotas ficam interditadas por conta da neve. O novo emprego é uma chance para a família Torrance encontrar paz e sossego em um lugar paradisíaco e isolado, e é o cenário perfeito para que Jack consiga escrever seu livro e se reconecte com a família após traumas do passado.

O que a família Torrance não esperava era que o Overlook fosse uma ameaça aguardando para ser acordada, e que seria Danny a bateria necessária para despertar o hotel. Com um passado cheio de casos obscuros e macabros, o Overlook é um lugar que respira vingança, e que vai fazer de tudo para conseguir se apossar da mente do pequeno Danny e utilizar seu dom especial para se fortalecer.

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Um dos destaques em O Iluminado é a construção narrativa do Overlook, como um personagem vivo. O hotel age e pensa de maneira independente, procurando uma brecha para fortalecer sua sede de vingança. Um antagonista construído de maneira incrível, com uma história enorme e capaz de desfilar entre os melhores vilões do King. O Overlook foi inspirado em um hotel real, o Hotel Stanley que fica localizado no Colorado e, como a maioria dos hotéis, tem suas histórias de fantasmas.

As histórias do King costumam seguir duas linhas narrativas: umas são histórias “externas”, de catástrofes em um nível mais amplo e que envolvem dezenas de personagens principais e suas complexas tramas; no segundo grupo de histórias, temos as tramas mais voltadas para o sentido “interno”, normalmente com poucos personagens e um mergulho minucioso na mente de cada um deles. O Iluminado, encontra-se no segundo grupo. Stephen King prepara um trampolim para que o leitor mergulhe fundo na paranoia de seus personagens.

Para os leitores assíduos de Stephen King, temos aqui todas as principais características do autor. A prolixidade que ele utiliza para ambientar o leitor, os spoilers que o próprio King costuma dar a respeito das cenas seguintes e um personagem à beira de um colapso. Histórias de fantasmas e de lugares assombrados, estão longe de ser inéditas na literatura, o que torna O Iluminado, uma excelente opção de leitura é que esta não é apenas uma “história de fantasmas”, King constrói uma história que faz o leitor refletir sobre a fragilidade humana, e sobre como os nossos próprios fantasmas podem ser mais assustadores que qualquer criatura vinda de um pesadelo ou do além-túmulo.

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O FILME
Aclamado como um clássico dos filmes de terror, O Iluminado é a adaptação homônima do livro do King, dirigido por Stanley Kubrick, em 1980. O filme divide opiniões ainda hoje, há quem considere a obra um dos grandes feitos da indústria cinematográfica, e há quem odeie o filme por conta de suas divergências com a obra original. Eu realmente me encaixo no segundo grupo. Consegui desviar deste filme antes da leitura, e quando o assisti a única coisa que senti ao final foi uma profunda decepção.

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Toda a construção de Jack Torrance, como um personagem com um histórico complicado e trágico envolvendo o álcool, que se culpa a todo momento por ter sido fraco e que gradativamente vai perdendo o controle e se deixando seduzir pelo Overlook; desce pelo ralo quando temos um Jack Nicholson interpretando um personagem que já aparece surtado na primeira cena. “O último grande papel de Nicholson foi em ‘Um Estranho no Ninho’. E, quando o ator iniciou o filme com seu ‘sorriso maníaco’, o público o identificou como um maluco automaticamente. Mas o livro é sobre uma descida gradual do personagem Jack na loucura, através da influência maligna. Se a história já começa com um louco, toda a tragédia de sua queda é desperdiçada”, disse Stephen King em entrevista.

Dos problemas com os personagens, no entanto, o pior de todos é sem a menor dúvida a Wendy que Kubrick nos apresenta. Uma personagem que simplesmente grita o filme todo e que não possui um arco definido, o que é absolutamente diferente da Wendy descrita pelo King.

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A atuação anestesiada de Shelley Duvall, talvez seja justificada por todas as histórias de abusos psicológicos que sofreu do diretor do filme, nos sets de gravação. Kubrick deliberadamente, intimidava a atriz com a justificativa de aumentar a insegurança de Wendy Torrance, pediu a equipe que não simpatizasse com Shelley, criticava sua atuação e dizia que suas ideias eram inúteis. Na cena em que Shelley Duvall segura um bastão, defendendo-se do personagem de Jack Nicholson, a histeria da atriz é real, já que esta cena levou 127 tomadas para ser feita, entrando para o Guinnes Book, como a cena com maior número de tomadas com o diálogo falado. Poucos meses após o lançamento do filme, a atriz falou abertamente sobre as condições no set de filmagens:

“O personagem de Jack Nicholson tinha que estar louco e com raiva o tempo todo. E no meu personagem, eu tive que chorar 12 horas por dia, durante todo o dia, nos últimos nove meses seguidos, cinco ou seis dias por semana. Eu estava lá um ano e um mês [...]. Depois de todo esse trabalho, dificilmente alguém sequer criticou meu desempenho, até mesmo para mencionar isso. As resenhas eram sobre Kubrick apenas, como se eu não estivesse lá.”

Em outro momento, Shelley comentou sobre sua experiência trabalhando com o diretor:

“De maio a outubro, eu estava realmente com problemas de saúde porque o estresse do papel era muito grande. Stanley me empurrou e me cutucou mais do que já fui empurrada antes. É o papel mais difícil que eu já tive que interpretar”.

O próprio Stephen King, demonstra abertamente seu descontentamento com o filme, que considera misógino. Particularmente, não acredito que se justifique um bom trabalho com abusos psicológicos, misoginia e desrespeito. Hollywood está cheio de produtores, diretores, roteiristas e pessoas de poder que se aproveitam de suas posições para justificar seus maus atos. Basta olharmos para a quantidade crescente de denúncias de abusos sexuais e psicológicos na indústria cinematográfica, onde a maioria das vítimas são mulheres.

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Não fosse a construção sofrida da personagem Wendy, o filme se distancia cada vez mais da proposta apresentada no livro. E mesmo desconsiderando a obra literária, o filme apresenta notórias falhas no roteiro. Na cena da entrevista de Jack Torrance, temos o personagem Stuart Ullman explicando sobre a caldeira que aquece o Overlook, e a respeito da sua importância no trabalho no zelador; enquanto a caldeira apresenta um papel importantíssimo para a trama do livro, no filme, ela é apresentada e absolutamente esquecida, podendo, inclusive, nem ter sido citada.

Eu poderia discorrer muito mais sobre as divergências entre livro e filme, que me fizeram respirar muito fundo enquanto assistia a obra de Kubrick, porém basta dizer que para os amantes do livro, o filme é dispensável.

A SÉRIE
Sim, embora muitos não saibam da existência, O Iluminado recebeu uma outra adaptação em 1997, desta vez para uma minissérie de três episódios, dirigida por Mick Garris, com uma produção bem mais barata que a do filme de 1980, porém muito mais fiel aos eventos do livro. Longe de ter a popularidade do filme, a minissérie traz Steven Weber no papel de Jack Torrance, Rebecca De Mornay como Wendy e Courtlando Mead como Danny. O roteiro é do próprio Stephen King, provavelmente como uma resposta ao filme. Para a alegria dos leitores, a série funciona com uma excelente adaptação da história original, mantendo-se fiel ao desfecho do livro.

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Depois de mais de uma dezena de livros lidos do autor, dificilmente espero me decepcionar com a leitura de uma das obras do King, e desta vez não foi diferente. O Iluminado é um excelente livro, uma destas histórias que ficam na nossa memória, e que nos convidam a uma releitura no futuro.


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O Iluminado (The Shining)
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Ano: 2012
Skoob: 4,5 Estrelas / Goodreads: 4.1 Estrelas
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05 Estrelas
Danny Torrance não é um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny é iluminado. Será uma maldição ou uma bênção? A resposta pode estar guardada na imponência assustadora do Hotel Overlook. Quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da família parecem estar solucionados. Não mais o desemprego e as noites de bebedeira. Não mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny se livrar das convulsões que assustam a família. Só que o Overlook não é um hotel comum. O tempo se esqueceu de enterrar velhos ódios e cicatrizar antigas feridas, e espíritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente à disseminação do mal.
Autor: Stephen King era um leitor fanático dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola, ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar. De 1966 a 1971, Stephen estudou Inglês na Universidade do Maine em Orono, onde ele escrevia uma coluna intitulada "King's Garbage Truck" para o jornal estudantil, o Maine Campus. Ele conheceu Tabitha Spruce lá e se casaram em 1971. O período que passou no campus influenciou muito em suas histórias, e os trabalhos que ele aceitava para poder pagar pelos seus estudos inspiraram histórias como "The Mangler" e o romance "Roadwork" (como Richard Bachman).

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