Resenha: Paraíso Perdido - John Milton, Pablo Auladell

maio 26, 2018 / Redação SOODA /

Obra do século XVII, renasce mais uma vez, em adaptação do espanhol Pablo Auladell, mostrando a força poética de John Milton está presente nos dias de hoje




Em 1667, John Milton, escritor inglês renascentista, lança para o mundo a sua versão da gênese. Apesar da sua importância para a literatura mundial, é possível que muitos de vocês, assim como eu, nunca tenha acessado a obra original (publicação da Editora 34, Martin Claret). Porém, tenham certeza que boa parte da cultura pop bebeu dessa fonte para construir suas histórias. Onde tiver na literatura/cinema a luta entre céu e inferno, Lúcifer e Criador, bem contra o mal, não tenham dúvidas, teve influências, mesmo que indiretas, sobre o poema de John Milton.

Agora imagine a dificuldade de se assentar sobre uma obra tão importante como essa, a exemplo do que Pablo Auladell fez. Não posso afirmar se foi uma boa adaptação ou não, pois como disse anteriormente, estou falando como alguém que nunca leu John Milton. Na verdade, isso pode ser bom, porque estou falando na mesma posição de muitos de vocês leitores. E nesse lugar no qual me encontro, posso falar a seguinte questão sobre essa Graphic Novel: Que obra de arte minha gente !!!



SOBRE A HISTÓRIA DESCRITA NA GRAPHIC NOVEL

Em um projeto que levou pelo menos dois anos para ser concluído, a Graphic Novel Paraíso Perdido retrata por meio de diálogos, imagens e trechos do cântico original, a trajetória de Lúcifer, o anjo rebelde que conseguiu criar uma revolta em um nível monumental contra Deus, sendo assim expulso do céu. Sobre reflexões e discussões com outros anjos caídos, o Satã preparava uma nova guerra com a ideia de sitiar o céu, e ao vencer a revolução, construir o seu império. Enquanto isso, no céu, discípulos do criador preparava um exercito para o que vinha pela frente. E nesse momento, Deus criava o paraíso e junto com ele Adão e Eva.

Auladell construiu a sua Graphic Novel em quatro partes. A primeira delas, é apresentado Satã, um anjo caído com configurações bastante humanas. Questionador, o personagem acaba sendo construído para que nós leitores fossemos empáticos a ele. Além disso, encontramo-os ludibriando outros anjos para lutarem ao seu lado prometendo que seu império será mais vigoroso de que o do criador. A força estava com eles.

No segundo momento, denominado O "Jardim das Delicias", o Criador conversa com um de seus filhos sobre o momento de preparar um exercito contra Satã e também tentativas pacíficas da guerra não acontecer. Após o encontro, Lúcifer conhece Adão e Eva e o paraíso, seu plano começa a ganhar novas formas.

A terceira e quarta parte, denominados respectivamente de "As Primeiras Lembranças do Mundo" e "A Espada Flamejante" A Guerra entre o céu e inferno, a tentativa de Lúcifer de ludibriar Adão e Eva e as consequências de todos esse atos, se tornam os temas centrais desse contexto. Nesse momento é possível ver uma modificação na arte criada por Auladell que direciona nossos olhos para cada pedacinho da obra, fazendo com que a gente permaneça bastante ligado no que cada ilustração tem a nos contar. É nesse momento que percebemos que estamos diante de uma grande obra de arte.



A ESTÉTICA DE PABLO AULADELL

A estética nos dias de hoje extrapola os limites físicos do olhar imaginado pelos gregos. As discussões se voltam, mais precisamente na ordem das sensações provocadas pela obra e muito menos a composição dela. Talvez seja por isso que às vezes é tão difícil descrever qual foi o sentimento ao ler e contemplar Paraíso Perdido, mas vou tentar ao máximo transpassar esses sentimentos.

A primeira sensação foi de vislumbre. Não é tão difícil em uma edição de um livro editora Darkside Books, isso é bem verdade. Mas com Paraíso Perdido foi diferente, pois não foi só a edição da editora que ganhou minha admiração, mas o trabalho do autor, que conseguiu compor perfeitamente as páginas, quadros e ilustrações. A utilização das cores, luz e sombra, sem dúvida foram essenciais para que cada virada de página se tornasse uma experiência. O olhar de Satã, que vai de inconsequente, para maquiavélico, arrogante, raivoso, nos transporta para que a cada encontro com ele, o sentimento fosse quase o mesmo. Assim como, o olhar de poder do criador, de subserviência dos anjos, de inocência de Adão e Eva, algo que mexia no interior do meu âmago.

Bom como transmitir da escrita para Graphic sem perder nada, um desafio, com certeza. Porém a impressão que tive é que ele foi minuciosamente pensado. Parece que Auladell pensou em cada pedacinho de sua obra, qual momento usar a ilustração, diálogos e trechos originais para dialogarem com a gente. Isso com certeza tira a morosidade do cântico do século XVII, as difíceis palavras que eram utilizadas, e ao mesmo tempo, a obra parece não perder a sua essência. A guerra entre o bem e o mal foi deliciosamente personificada nessa obra, trazendo também importantes reflexões nesse aspecto.

Agora assim, se eu não soubesse na Nota do Autor, que ele era espanhol, só de olhar os seus traços eu levaria a essa suposição. Especialmente porque a sua arte se aproxima bastante dos renascentistas da Espanha e Itália, que são bem diferentes das ilustrações da obra feitas por Gustavo Dore (mais conhecidas do grande público) que se aproxima mais do contexto gótico da Inglaterra do século XIX. Apesar de ser possível ver as influências renascentistas de Auladell, no que diz respeito a técnica, é necessário perceber o seu distanciamento, em relação a obra em si, onde ele não cultiva "o corpo humano ideal" como artistas do século XVII. É uma dualidade que acabou se tornando encantadora.



DISCUSSÕES APROXIMADAS COM A REALIDADE DO SÉCULO XXI

Assim como a obra literária que foi fonte de adaptação de Auladell, Paraíso Perdido consegue nos transportar, por meio de suas metáforas, discussões importantes dos dias de hoje. Desde a questão de uma ditadura que é promovida sob o pretexto de ser o melhor para o povo, tal como, uma guerra de poderes que no fim ao cabo leva-nos para um novo imperialismo, personificado nas ideias de Satã. Além disso, na obra, a linha entre o bem o mal torna-se bem tênue e coloca sobre esse aspecto a perspectiva de cada um, colocando inclusive em cheque sobre o que de fato é bem e mal. Quem decide isso? Como? Porque? Sobre que Pretextos?

A inocência de Adão e Eva que mais tarde foi findada, depois que provaram do fruto, também mostra os vários aspectos da humanidade que precisam de reflexão. Até onde essa visão individualista vai nos levar? Pensar a minha ambição, posição de poder, egoísmo. Como superar esses obstáculos e nos tornar uma sociedade melhor? São temas bastantes presentes na obras. É possível ver também a ideia de colonialidade que era composto na obra original e também mostrada nessa Graphic Novel.

Ao finalizar essa obra, percebi que na verdade só estava no inicio de cada reflexão que ela se propôs. Agora é o momento de aproveitar essa primorosa edição da Darkside Books, ler, reler, e ler mais uma, duas e quantas vezes eu achar que vale a pena. Porque com certeza, a cada nova visita, uma outra visão sobre ela vou ter. Afinal de contas, da mesma forma que a Arte tem como objetivo nos sensibilizar e transformar. Nós também podemos mudar essa arte a cada novo encontro. É uma relação de vai e volta que tem como objetivo nos ajudar a crescer. E Paraíso Perdido teve essa função em minha vida. E espero que na de vocês também.



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Paraíso Perdido (Lost Paradise)
Autores: Jonh Milton, Pablo Auladell
Editora: Darkside Books
Ano: 2018
Skoob: 4.5 Estrelas / Goodreads: 4,17 Estrelas
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05 Estrelas
Um clássico da literatura mundial adaptado pela primeira vez em uma graphic novel única e essencial. Há 350 anos, o conflito entre Deus e Satã narrado em Paraíso Perdido, obra-prima de John Milton, virou um marco na literatura. Seus dez mil versos sobre a criação do mundo, a tentação e o desejo por redenção receberam reconhecimento instantâneo e serviram de inspiração para peças de teatro, músicas, pinturas e livros, ecoando na obra de mestres como Mary Shelley, C.S. Lewis, Philip Pullman e Neil Gaiman. Agora, a obra colossal foi reimaginada pelo premiado ilustrador espanhol Pablo Auladell. Com seu traço sombrio, quase desolado, o tributo captura o lirismo de Milton para quem ainda não teve o prazer de ler os cantos originais. Ao mesmo tempo, complementa a experiência do leitor, dando ainda mais vida ao texto. A graphic novel inspirada na grande obra de Milton chega para fazer parte da linha DarkSide Graphic Novel numa edição que deixaria Adão em apuros, com capa dura, bordas douradas e todo aquele cuidado que os fãs já esperam — e merecem. Chegou a hora da redenção.
Autor: Pablo Auladell é quadrinista e ilustrador espanhol cujo trabalho sempre sugere um diálogo entre a tradição e a contemporaneidade. Foi eleito autor revelação no Saló del Cómic de Barcelona, em 2006, pela graphic novel La Tour Blanche. Por seu trabalho em PARAÍSO PERDIDO, ele recebeu o Premio Nacional de Cómic, do Ministério da Cultura da Espanha. Atualmente, dá aulas de ilustração na Ars in Fabula, em Macerata, na Itália.
John Milton nasceu em 9 de dezembro de 1608, em Londres, na Inglaterra. Poeta, dramaturgo e político, foi um grande estudioso da religião na Inglaterra no século XVII e seus escritos refletiam suas convicções pessoais, além de discussões pertinentes sobre a turbulência política de sua época. Graduou-se em 1629 na Universidade de Cambridge e, alguns anos depois, ingressou em uma viagem pela França e Itália, onde encontrou-se com Galileu Galilei. O poema épico PARAÍSO PERDIDO é considerado sua maior obra, e se tornou um clássico da literatura que inspirou diversos escritores ao longo dos anos.

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