Entrevista: Meredith Russo - Apenas uma Garota

junho 08, 2018 / Redação SOODA /

Autora, se utiliza do seu lugar de fala para escrever em seu primeiro livro, os principais dilemas vividos por uma jovem que precisa viver sendo uma mulher trans




O Brasil é o país que mais mata a população trans no mundo. Quem afirma isso é a ONG Transgender Europe (TGEu), em um relatório divulgado no final de 2016 que afirma o assassinato de 868 pessoas trans no país nos últimos 10 anos. O dado é pelo menos 3 vezes maior que o segundo colocado. Talvez, algumas pessoas digam que esse número é baixo comparado ao número de homicídios no Brasil, que somente em 2017 foram quase 60 mil casos. Porém, os casos relatados acima são todos relacionados a uma motivação: Ser uma pessoa Trans.

A dificuldade enfrentada por essa parcela da população mundial, mais ou menos 5%, não para por aí. O preconceito enfrentado diariamente, que resulta em agressões, e uma total exclusão social acaba fazendo com que 90% de transexuais no país acabem sendo empurrados a prostituição. Para mudar essa situação, muitos trabalhos de sensibilização tem sido feito, incluído na literatura. É o caso do lançamento da obra "Apenas uma Garota", que por meio da ficção, tenta mostrar as dificuldades de uma jovem trans e a possibilidade de ser feliz, que ao mesmo tempo, objetiva demonstrar empatia para essa população, e levando esperanças que existe uma possibilidade de um futuro feliz, apesar de todo o preconceito social ainda existente (Resenha Aqui).

"Eu queria mostrar que a Amanda iria carregar o seu trauma para sempre. Ser trans provavelmente irá fazer a vida dela ser complicada para sempre. Mas carregar e controlar essa dor não significa que ela também não poderá ser feliz. Não é uma escolha entre felicidade e miséria, e sim que você tem que aprender a viver com a sua dor e fazer algo mais produtivo com ela. Eu espero que isso seja um pouco mais realista e viável para os mais jovens." afirma Meredith Russo, autora do livro, em uma entrevista para a nossa equipe, que ainda fala sobre, como as pessoas cisgêneras ainda veêm as pessoas trans, lugar de fala, quais temas pretende abordar em seus próximos livros, e como todos nós podemos ajudar a mudar esse quadro estarrecedor no país.

Chapter 16

Então, porque você achou que esse era o momento certo para discutir a questão de gênero em seu livro de ficção?

MEREDITH RUSSO: Janet mock tinha acabado de sair do Armário. Laverne Fox estava ficando popular por causa da série Orange is The New Black (Netflix). Essas duas coisas, e a transição de Caitlyn Jenner (Um tema que tenho sentimentos complicados) fizeram as pessoas falarem sobre o assunto, e surpreendentemente de forma positiva. Pareciam então que as pessoas estavam prontas.

Amanda (personagem do livro) teve tantas dificuldades no passado, e depois tentou supera-las para ser feliz. Como você acha que a história dela pode ajudar a um transgênero e as pessoas que não são, mas que querem aprender sobre o assunto?

MEREDITH RUSSO: Eu gosto de pensar que a história ajuda, porque em muitos casos você só tem dois tipos de histórias sobre pessoas LGBTQ+. Ou nossas histórias são miseráveis e trágicas e morremos cedo demais, mesmo se formos bonitos demais para essa terra. Ou somos um tipo de personagens assexuais, audacioso e divertido em uma história heterossexual, no qual não temos nossa própria profundidade. E se você for uma criança LGBTQ+, você terá todos esses adultos que dirão “vai ficar tudo bem”, quando não parece que realmente vá ficar. E você sabe que para algumas pessoas nunca vai ficar bem. Eu queria mostrar que a Amanda iria carregar o seu trauma para sempre. Ser trans provavelmente irá fazer a vida dela ser complicada para sempre. Mas carregar e controlar essa dor não significa que ela também não poderá ser feliz. Não é uma escolha entre felicidade e miséria, e sim que você tem que aprender a viver com a sua dor e fazer algo mais produtivo com ela. Eu espero que isso seja um pouco mais realista e viável para os mais jovens.

O personagem de Grant tem alguns problemas para entender Amanda. Você acredita que ele é em algum nível, a representação de parte de nossa sociedade que ainda tem dificuldades para lidar com as discussões de gênero?

MEREDITH RUSSO: E acho que Grant está onde a maioria das pessoas cisgêneras estão agora. Seu coração está no lugar certo, ele é genuinamente uma boa pessoa, porém ele não sabe absolutamente nada sobre corpos e histórias com as que a sua namorada tem/vive. Pior ainda, o pouco que ele ouviu sobre pessoas trans, provavelmente, foi contraditório e desagradável. Ele não é fanático, nem nada disso, mas como a maioria das pessoas, ele tem algum trabalho a fazer, antes de poder encontrar a sua namorada trans, onde ela está, e atender as expectativas dela.

No final do seu livro, você disse que escreveu o que precisava para ajustar a história de Amanda para fazer sentido em sua obra fictícia. Desta forma, você acredita que deixou algum assunto importante fora deste livro? Você pretende escrever sobre isso no futuro?

MEREDITH RUSSO: Muitas pessoas trans não podem pagar por uma cirurgia de redesignação sexual, ou não querem por qualquer outro motivo, ambos pode fazer um relacionamento ser muito difícil. Muitas pessoas trans são bissexuais ou gays. Alguns de nós estamos acima do peso, ou tem dificuldades em agir como feminino, assim como Amanda faz. Muitos de nós vivemos em uma pobreza, realmente, esmagadora e também lidamos com a falta de moradia. Essas são todas as ideias com quais gostaria de trabalhar no futuro.



Que dicas você daria para pessoas que não são transgêneros e querem escrever sobre o assunto com responsabilidade?

MEREDITH RUSSO: Acho que você não pode escrever sobre uma minoria, fazendo de forma responsável, até que você tenha um relacionamento intimo com um membro dessa minoria e tenha passado algum tempo escutando-o. E se você não tiver pelo menos uma amizade com qualquer pessoa trans, vale a pena você investigar o porquê antes de você começar a escrever.

É normal ver autores que colocam um pouco de suas experiências em seus livros. Existe alguma história em sua obra que representa parte de sua realidade?

MEREDITH RUSSO: As partes relacionadas à vida no Tennessee. As árvores, as cigarras, o calor e a umidade. Tudo que eu amo na paisagem da minha casa está nesse livro.

Você sofreu algum preconceito no mercado literário? Se sim, poderia dizer algo sobre isso?

MEREDITH RUSSO: Realmente não, o que foi surpreendente e revigorante.



No Brasil, o seu livro foi um dos primeiros sobre o tema de pessoas transgêneras, publicado por uma grande editora. O que você acha disso? Você acredita que sua história pode fazer com que outras pessoas transgêneras escrevessem sobre o assunto?

MEREDITH RUSSO: Eu espero que elas escrevam! Eu não lido bem com pressão, eu sempre preferi ser uma estudante ‘mediana’, sabe? Eu costumava sentar na segunda ou terceira fileira na sala de aula e era assim que eu me sentia bem. Eu quero que haja o suficiente de nós (pessoas trans) para que eu possa ficar lá no fundo e fazer o meu trabalho.

Você já foi abordado por brasileiros sobre o seu livro? O que eles tem dito?

MEREDITH RUSSO: Sim ! Todos pareceram gostar até agora. Eu não recebi nenhum e-mail de ódio.

Infelizmente, o nosso país é um dos lugares que mais matam pessoas LGBTQ+ em todo o mundo. O que você acha que podemos fazer para ajudar a mudar essa situação?

MEREDITH RUSSO: Muitos (mas não todos) dos assassinatos de pessoas trans acabam acontecendo porque a mulher trans foi empurrada para alguma situação desesperadora ou vulnerável, geralmente por causa da sua situação financeira, ou de moradia. Trabalhar para estabelecer uma rede sólida de segurança social que permita a pessoas pobres e desfavorecidas a viver com dignidade sem ter que se envolver com coisas como o trabalho sexual ou drogas, ou ainda se contentar com situações na vida, em que pessoas se aproveitem delas. Esse é o passo mais importante.

Você está escrevendo outra história? O que poderia dizer sobre ela?

MEREDITH RUSSO: Sim ! Eu tenho outro livro que sai em abril do próximo ano e se chama “Brithday”. É outro romance, desta vez, sobre um menino e uma garota trans nascidos no mesmo dia e que estão destinados a se apaixonar.

You can below, the interview with Meredith Russo in her original idiom.

Entrevista Meredith Russo – Autora de Apenas Uma Garota (INGLES) by Francisco Neto on Scribd





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