Resenha: A Escola do Bem e do Mal - Soman Chainani

julho 19, 2018 / Redação SOODA /

Entre príncipes encantados e bruxas malvadas, A Escola do Bem e do Mal é uma promessa de subversão




Logo no início dos anos 2010, observou-se uma febre por releituras de contos de fadas – basta lembrar das duas adaptações de Branca de Neve em cartaz na época, da Alice de Tim Burton, do filme “Malévola”, das diversas capas de revista com dizeres como “O lado negro das histórias infantis”, das novas versões contadas na perspectiva dos vilões e, claro, dos vários romances YA de fantasia nessa pegada que invadiram as livrarias. Embora bastante diversificados em tom e público alvo, quase todos possuíam uma proposta em comum: questionar os estereótipos comuns a essas histórias e apresentar uma abordagem diferente daquela popularizada pelas versões cinematográficas dos estúdios Disney, seja na forma de paródias bem-humoradas – como no filme “Espelho, espelho meu” –, seja através de versões sangrentas, maduras e “dark”– como “A Garota da Capa Vermelha”.

Se pularmos para pouco menos de vinte anos, contudo, veremos que esta subversão das convenções não é de hoje. Durante a chamada “Renascença da animação” nos anos 90, década em que os estúdios Disney lançaram suas animações mais memoráveis, a maior parte dos estúdios da época (capitaneados pelo diretor Don Bluth) buscou seguir as mesmas fórmulas de sucesso – e não é à toa que muita gente acredite até hoje que Anastasia, de 1997, um filme da Fox dirigido pelo próprio Bluth, pertença à Disney (isso já é tecnicamente verdade, agora que a Fox pertence à Disney, hehe). É em 2001, com Shrek, que a tradicional forma de se contar histórias já não se mostra tão vantajosa assim. Muitos devem se recordar dos filmes estilo “Deu a louca nos contos de fadas” que explodiram a partir da década de 2000, por exemplo.



A própria Disney aprendeu a se adaptar ao novo cenário após alguns anos, tanto que alguns exemplos de cima – como Malévola – fazem parte dessa tendência mais recente. Até chegarmos a uma situação em que o estúdio pode confortavelmente tirar sarro de suas próprias convenções, como no crossover com as princesas no trailer de Wi-Fi Ralph. Sobre a questão de a Disney ainda manter uma franquia de princesas há mais de 80 anos, recomendo este texto.



Lançado originalmente em 2013, A Escola do Bem e do Mal, de Soman Chainani, é produto direto de todo este percurso. Voltado para o público infanto-juvenil – um pouco mais jovem que o público YA tradicional – o livro é mais uma proposta de subversão das histórias clássicas. Confesso ter colocado o pé atrás antes de começar a leitura: as informações da sinopse (e a própria capa) pareciam apontar para mais uma enxurrada de clichês. Tudo estava lá: a protagonista que sonha em ser princesa, a co protagonista cética, o velho slogan “nada é o que parece”; de modo que eu já me preparava para um enredo previsível, mais uma dentre as várias histórias do gênero que saíram na época.

Acabei me surpreendendo positivamente. Pelo menos, em parte.

Este, que é o primeiro livro de uma série, inicia-se no povoado de Gavaldon, não muito diferente das diversas vilas das histórias infantis, com uma exceção: há mais de duzentos anos, dois jovens acima de 12 anos são raptados na décima primeira noite do décimo primeiro mês de quatro em quatro anos, para nunca mais voltar. Durante anos, nunca se soube o paradeiro das crianças, até seus rostos aparecerem nos livros – das duplas raptadas, um fazia as vezes do mocinho e outro, por sua vez, incorporava o vilão. Descobriu-se, por conseguinte, que uma sombra conhecida como o “Diretor da Escola” capturava os jovens para leva-los, respectivamente, à Escola do Bem (cujos alunos são chamados de “Sempre”, Ever no original) e à Escola do Mal (cujos alunos se chamam “Nunca”, ou Never), onde seriam treinados para um dia tornarem-se os heróis e vilões dos contos de fadas.

O povo de Gavaldon passou a encarar o dia da captura com verdadeiro terror, aprisionando as crianças dentro de suas casas, numa tentativa de escondê-las do alcance do Diretor. A jovem Sophie, contudo, anseia ser capturada, e está disposta a fazer o que for preciso para ser levada de sua vida monótona à Escola do Bem, e assim se preparar para viver seu próprio conto de fadas – com seus cabelos dourados, olhos verde-safira e vestidos impecáveis, ela ao menos possui a aparência da princesa que deseja se tornar, a despeito de sua futilidade. Sua amiga, Agatha, em contrapartida, não dá a mínima para os boatos, e apenas deseja levar uma vida pacata vivendo no cemitério ao lado do gato de estimação, e da mãe, a curandeira da cidade; a garota é o oposto simétrico de Sophie, com seus cabelos negros curtos e opacos, e roupas pretas, dotada de certa sagacidade e de um bom senso de julgamento.



A amizade entre as duas meninas, um tanto quanto improvável, surgiu da necessidade de Sophie em fazer “boas ações”, aproximando-se de Agatha por “caridade”. O convívio, contudo, faz com que as jovens nutram afeto genuíno uma pela outra. É justamente por conta disso que Agatha não deseja perder a única amiga que possui para um destino incerto em uma terra distante, e se vê na obrigação de salvá-la caso algo aconteça. Isso, aliado ao desejo desesperado de Sophie em ir embora de Gavaldon – crendo piamente que Agatha também será levada, só que para a Escola do Mal – é que atrai ambas para fora do povoado, rumo às duas escolas. E é claro que há muito mais do que parece por trás de tudo isso.

A narrativa é muito boa de se acompanhar, e é fácil passar horas devorando capítulos e mais capítulos por conta da escrita leve. A trama apresenta um nível de autoconsciência bastante considerável para uma história infanto-juvenil – encostando na quarta parede em momentos bem pontuais, e introduzindo temas levemente mais pesados em outros. Há uma certa ironia sutil ao longo do livro, introduzida de forma elegante, sem forçar. O autor escreve no limite de uma linha divisória entre uma narrativa que leve os clichês de contos de fada a sério, e uma desconstrução e, de certa forma, este é tanto o ponto alto quanto o ponto baixo do livro. Explico.

Ao longo da trama, Soman levanta pontos bastante interessantes a respeito das convenções tradicionais, e tece críticas contundentes – principalmente através de Agatha, que observa como o final feliz de uns pode custar a desgraça de outros. Um exemplo é o que acontece com os alunos da Escola do Bem: caso tirem notas baixas, tornam-se os ajudantes dos protagonistas das histórias (como os ratos da Cinderela, ou os passarinhos de Branca de Neve, por exemplo) – chegando às vias de até mesmo ter de sacrificar suas vidas para que os principais alcancem seus “felizes para sempre”.

“ Olhando para o monstro, apenas outra criança perdida, Agatha pensou em todas as criaturas deste mundo. Elas não seguiam ordens porque eram leais. Não ajudavam princesas porque eram amáveis. Faziam isso porque, algum dia talvez, a lealdade e o amor fossem retribuídos com uma segunda chance de voltarem a ser humanos. Somente através de um conto de fadas elas poderiam encontrar o caminho de volta. Aos seus eus imperfeitos. Às suas vidas sem história”. (p. 100)


As críticas parecem preparar terreno para uma subversão maior e mais importante, mas não se sustentam e acabam se perdendo.

Muito se fala a respeito de como a beleza interior nem sempre condiz com a aparência física para que, em um dado momento da narrativa, os valores internos das personagens repercutam na aparência – de modo que, quem cometeu boas ações torne-se automaticamente bonito baseado nos padrões de beleza tradicional, e quem produziu atos de crueldade transforme-se no exato oposto. O enredo brinca o tempo inteiro com a quebra de expectativa, joga sementes para uma discussão mais profunda, e então reafirma o que se pretendia contestar. É um baita balde de água fria.

As protagonistas crescem de maneira interessante na trama. O autor, entretanto, explora muito mais o potencial e a complexidade de Sophie – das duas, é quem possui a curva de crescimento mais coerente. Embora “mude” drasticamente de quem era no início, entendemos o que a leva a tomar cada uma de suas decisões, e suas mudanças de comportamento não são repentinas; é coerente, mas surpreendente, o desfecho da garota. O mesmo não se pode dizer de Agatha, que também desenvolve um outro lado de sua personalidade; essa curva, contudo, não é tratada com a profundidade que merece, e é até um pouco contraditória com alguns valores que a garota possuía no início da história; acaba por recair em um clichê.



O interesse amoroso (de quem? Fica o questionamento hehe), Tedros – príncipe de Camelot, filho do rei Arthur – também apresenta bastante potencial. Marcado pela infância ao lado de um pai alcoólatra e uma mãe ausente, o garoto procura por uma relação sincera com alguém que veja além de sua aparência e riqueza; a despeito disso, adora a atenção que recebe das mesmas garotas que considera frívolas por admirar sua beleza física, e tem seu orgulho mortalmente ferido quando não recebe tal atenção – tornando-o apenas mais um tolo que exige demais, mas não consegue abrir mão de seus privilégios. Parte desse potencial já é explorado no livro, principalmente no final. Mas, por enquanto, ele ainda é o personagem que fica “sobrando”, perto de Agatha e Sophie.

“Sempre acontecia. Ele jurava que esqueceria as garotas, depois notava uma que estava ganhando a atenção dos outros, dispunha-se a provar que podia ganha-la, ganhava, e descobria que ela era uma tola caçadora de príncipes que estivera de olho nele o tempo todo”. (pg. 161)


Em se tratando de uma série, contudo, o subdesenvolvimento das personagens são questões que não considero tão graves, e que ainda podem surpreender bastante no futuro. O final, a princípio, também parece ser uma culminância de todas as pequenas subversões, ironias e críticas que observamos ao longo da história. Fiquei bastante satisfeita com o desfecho deste primeiro livro, mas é preciso que o impacto se mantenha ao longo dos próximos volumes para que se verifique de fato a tal subversão.

A edição da Editora Gutemberg apresenta pouquíssimos erros de edição e uma diagramação bastante confortável para a leitura, além de incluir ilustrações muito bonitas, que complementam a experiência.

Em geral, A Escola do Bem e do Mal surpreende por deixar um gosto agridoce bastante inusitado, e apresentar uma profundidade inesperada. É um livro que me remonta à leveza dos primeiros volumes de Harry Potter, com todo aquele cotidiano escolar que ao mesmo tempo é bastante dinâmico, sem perder a substância e o teor crítico – mesmo que nem sempre se sustente como uma desconstrução. O primeiro volume da série de Soman Chainani possui uma premissa interessante, e promete ser muito mais que o produto datado de uma tendência do início da década. Se esta promessa encontrará um final feliz, só o futuro dirá.

Resenha por Clara Gianni



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A Escola do Bem e do Mal #1 (The School for Good and Evil)
Autor: Soman Chainani
Editora: Gutemberg
Ano: 2014
Skoob: 4.1 Estrelas / Goodreads: 4.01 Estrelas
Compre Aqui: Amazon
04 Estrelas
No povoado de Gavaldon, a cada quatro anos, dois adolescentes somem misteriosamente há mais de dois séculos. Os pais trancam e protegem seus filhos, apavorados com o possível sequestro, que acontece segundo uma antiga lenda: os jovens desaparecidos são levados para a Escola do Bem e do Mal, onde estudam para se tornar os heróis e os vilões das histórias. Sophie torce para ser uma das escolhidas e admitida na Escola do Bem. Com seu vestido cor-de-rosa e sapatos de cristal, ela sonha em se tornar uma princesa. Sua melhor amiga, Agatha, porém, não se conforma como uma cidade inteira pode acreditar em tanta baboseira. Ela é o oposto da amiga, que, mesmo assim, é a única que a entende. O destino, no entanto, prega uma peça nas duas, que iniciam uma aventura que dará pistas sobre quem elas realmente são. Este best-seller é o primeiro livro de uma trilogia que mostra uma jornada épica em um mundo novo e deslumbrante, no qual a única saída para fugir das lendas sobre contos de fadas e histórias encantadas é viver intensamente uma delas.
Autor: Soman Chainani Graduado em Harvard e escreveu uma tese sobre o motivo pelo qual os vilões são tão irresistíveis. Roteirista premiado, é mestre pela Columbia University na área de cinema e já trabalhou em mais de 150 festivais de cinema pelo mundo, ganhando diversos prêmios tanto pela direção quanto por roteiros, prêmios entre os mais cobiçados da área. Quando não está viajando, contando histórias ou em Nova York trabalhando como professor ele pode ser encontrado jogando tênis. Fazia mais de dez anos que não perdia um primeiro round, até começar a escrever.

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